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[+] O QUE ME INTERESSA É O POLÍTICO NO LITERÁRIO
O GLOBO - Prosa & Verso
Miguel Conde
30.08.2008O GLOBO - Prosa & Verso
Miguel Conde
30.08.2008Crítica lança livro sobre a atual ficção brasileira e aponta o trágico como marca da produção contemporânea
A professora da Unirio Beatriz Resende tem se dedicado nos últimos anos a pesquisar e refletir sobre a literatura brasileira contemporânea. O que distingue sua atuação da de outros críticos é o caráter público e imediato desse trabalho, que não se desenrola apenas na academia, mas também em revistas e jornais. Ela acaba de lançar “Contemporâneos” (Casa da Palavra), um balanço do próprio trabalho e da atual ficção brasileira.
Miguel Conde
Esse livro apresenta textos novos, mas é também o registro de um percurso crítico. Queria saber como teve início esse engajamento público com a literatura do seu tempo, o que a motivou?
BEATRIZ RESENDE: Esse percurso começa nos anos 1990, quando fui chamada a opinar sobre a literatura daquela época, e tive impressão que nessa leitura todo um instrumental teórico tradicional se revelava impotente. Senti uma certa angústia e fascinação, e tive impressão de que para dar conta do que estava acontecendo, a gente tinha que se voltar a autores diferentes, textos diferentes, posições diferentes.
Em que isso mudou sua atividade de crítica?
BEATRIZ: Talvez o que tenha me modificado mais foi olhar a literatura de maneira imediata. Pegar o autor que acabou de ser publicado e escrever sobre ele, ter que formar opinião, buscar um novo instrumental crítico. Essa simultaneidade mudou muito meu olho crítico. A colaboração com jornal, revista, site, me mostrou o que havia de confortável no olhar acadêmico. Foi mesmo uma virada.
De que forma?
BEATRIZ: A gente é sempre olhado como o espaço da segurança, do saber, e de repente você percebe que isso é uma questão. No final dos anos 1990, comecei a assumir o risco até do erro, se fosse o caso, para buscar na própria literatura novos conceitos de compreensão do que estava sendo feito.
Que coisas novas você identificou na época?
BEATRIZ: Um livro que mexeu muito comigo, me desassossegou muito, foi a antologia do Nelson de Oliveira, “Geração 90: manuscritos de computador” (Boitempo). Havia naquele momento o que parecia uma nova forma de produção, que trazia mais velocidade, e logo ficou evidente que não era só uma nova forma de produção, mas que a gente caminhava para novos suportes. Isso está ligado a um renascimento da vida literária brasileira no final dos 1990 e início dos 2000. É um momento em que começa a se dar uma troca como há muito não acontecia entre autores nacionais. E uma vida literária supõe a presença de críticos.
Você se interessou pela intervenção nesse momento?
BEATRIZ: Sim, mas não no papel do crítico que pontifica, o detentor do saber. Hoje quem assume essa posição em pouco tempo fica tolo. Mas me fascinou muito a idéia de participar dessa vida literária, o que para alguém que dá aula, faz pesquisa, é um risco. Você escreve sobre um livro recém-publicado e no dia seguinte convive de alguma maneira com o autor. Tudo isso é muito tributário da internet, dos blogs. Não sou só eu que participo disso, mas vários outros críticos e escritores. Um exemplo que sempre dou é o do Sergio Sant’Anna, um autor que podia falar de um ponto de vista da consagração, mas em vez disso freqüentemente quer participar dessa nova vida literária. Mas claro que a gente não é o coleguinha, há uma diferença. Um caminho de interlocução passou pela discussão sobre o urbano, um tema que pesquisei a vida inteira, e que é central para a literatura hoje. Isso foi um facilitador desse convívio, da internet aos debates e mesas-redondas. Eles é que foram muito generosos comigo, porque freqüentemente me procuravam.
Ainda existe nesses novos autores um interesse pelo discurso crítico?
BEATRIZ: Há um interesse, mas na maioria dos casos ele ainda é de busca por legitimação. Todo mundo quer ser comentado, quer uma resenha para ter legitimação. E nem sempre é o que acontece.
Qual a importância do julgamento para sua crítica?
BEATRIZ: Procuro não exercer puramente uma crítica de gosto e de valor. Ainda que possa dizer o que me interessa ou não, tento que isso não seja feito com uma referência canônica e sobretudo que não seja excludente. Claro que há sempre um olhar que é mais peculiar, mais próprio. O meu é o político. O que me interessa, o que me fascina é o que pode haver de político num sentido bem amplo numa produção literária, e que muitas vezes passa por uma produção pessoal.
Você se interessa pela busca de traços comuns?
BEATRIZ: Quando você olha uma obra ou autor, não olha apenas no sentido absolutamente individual. Tenho que respeitar aquela peculiaridade, mas me interessa olhar dentro de um quadro de outras produções que é difícil juntar, com propostas e suportes diferentes. Mas esse é sempre o papel do intelectual, ter lido aquele autor e mais outros e mais outros, o autor da periferia ou o darling do momento. Você constata um retorno do trágico na literatura atual.
Poderia falar sobre isso?
BEATRIZ: Esse novo trágico que tento observar não é algo apenas da cultura brasileira. Assim como o século XX foi dramático, este surge trágico. No drama há sempre uma idéia de conflito que será resolvido. O conflito caminha para uma resolução, dentro ou fora da obra, como no caso de Brecht. Nesse trágico contemporâneo, há uma desesperança de resolução do conflito. O que pode resultar numa imobilidade, mas também, citando Giorgio Agamben, num desejo profanador. Acho que a literatura tem que incomodar. Ou então, não tem mais sentido.
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[+] VEJA Recomenda
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27.08.2008Veja
27.08.2008HISTÓRIAS FALSAS (Casa da Palavra; 80 páginas; 24 reais). e O SENHOR WALSER (Casa da Palavra; 53 páginas; 21 reais), de Gonçalo M. Tavares.
Nascido na Angola colonial, em 1970, e radicado em Lisboa desde a infância, Gonçalo M. Tavares é um dos autores mais prolíficos e criativos da nova literatura portuguesa. Estes dois livros são uma boa mostra do animado diálogo que ele mantém com a tradição literária. O Senhor Walser, homenagem ao escritor suíço Robert Walser (1878-1956), faz parte da série que Tavares batizou de "O Bairro", na qual construiu uma espécie de cidade das letras, habitada por mestres modernos como Karl Kraus e Italo Calvino. Os contos de Histórias Falsas exploram a filosofia. São histórias enigmáticas que tomam como personagens grandes pensadores, como o filósofo grego Platão e o imperador romano Marco Aurélio. -
[+] UMA REVOLUÇÃO, 1 BILHÃO DE HISTÓRIAS
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Isabela Boscov
23.07.2008Veja
Isabela Boscov
23.07.2008Porque nenhuma vida deixou de ser revirada pelas tragédias que se abateram sobre a China no último século, nenhum escritor chinês padece de falta de assunto
Há umas duas décadas, os chineses começaram a reaprender a escrever. Como todas as outras formas de expressão, a literatura chinesa havia sido reduzida a pó pelo maoísmo – virara um serviço de notícias (só as boas, verdadeiras ou não) e de doutrinação. Nos anos 80, porém, quando o país decidiu desviar parte de sua energia colossal da vigilância ideológica para o enriquecimento, abriu-se uma brecha. Fato inédito desde a Revolução de 1949, os leitores mais engenhosos conseguiram travar contato – clandestino, claro – com obras tão diversas quanto as de Franz Kafka, John Updike e Gabriel García Márquez (por razões óbvias, o realismo fantástico pareceu aos chineses um estilo particularmente destro). Veio um período "modernista", em que todos brincaram com a forma. E, enfim, os escritores chineses voltaram a encontrar seu próprio estilo e sua voz. Hoje, formam um conjunto de peso na cena literária mundial. Em alguns casos, trazem a ela uma voz magnífica, como demonstram Viver, de Yu Hua (tradução de Márcia Schmaltz; Companhia das Letras; 216 páginas; 38 reais), e Refugo de Guerra, de Ha Jin (tradução de Luiz Antônio de Araújo; Companhia das Letras; 464 páginas; 62 reais), parte de uma leva de obras chinesas que acaba de chegar às livrarias. Em outros casos, a voz é incisiva, como a de Ting-Xing Ye, de Meu Nome É Número 4 (tradução de Alexandre Martins; Casa da Palavra; 224 páginas; 35 reais) – ou elegante, como a de Diane Wei Liang em O Olho de Jade (tradução de Marcelo Mendes; Record; 304 páginas; 39 reais), um mistério em que a busca por um artefato antigo conduz, claro, a segredos sujos do regime. Isso é o que 99 em cada 100 autores chineses têm em comum: todos escrevem sobre a Revolução. Até quando não estão escrevendo sobre a Revolução.
Veja-se o caso de Gao Xingjian, ganhador do Prêmio Nobel de 2000 (cujo único livro disponível aqui é A Montanha da Alma, lançado pela Alfaguara). Um dos mestres da concisão chinesa, em que o texto deve ser tão controlado quanto a caligrafia a pincel, Gao fala de pequenas e transformadoras experiências pessoais. No conto O Templo, o narrador se lembra de um dia de felicidade intoxicante em sua lua-de-mel – embora mal o mencione, esse é um dia em que está livre. Em A Cãibra, um homem quase se afoga e, ao voltar à praia, percebe que ninguém nem se deu conta de sua ausência, que por pouco não foi definitiva – uma maneira íntima e trágica de comentar a sensação de não existir de todo. A Revolução está sempre nas entrelinhas também dos romances históricos, nos quais a opressão e o exercício do poder na China imperial não soam tão diferentes assim do que o são na China comunista.
Na maioria dos casos, porém, a Revolução costuma estar bem mais próxima da superfície na literatura chinesa – ou diretamente sob seu foco. No espaço de apenas um século, a China atravessou mais abalos do que muitas nações em toda a sua história. Saiu diretamente do feudalismo para um regime nacionalista, enfrentou a ocupação japonesa, uma guerra civil, e foi então lançada por Mao Tsé-tung na revolução. Ou em uma miríade de revoluções, conforme as convulsões internas do todo-poderoso Partido Comunista alteravam a face e o rumo do regime. Houve penúria com o "Grande Salto à Frente" da virada dos anos 50 para os 60, em que todo o país parou de plantar para fundir ferro-velho em aço. Mergulhou-se na histeria com a Revolução Cultural (1966-1976), em que todo o país novamente parou de plantar – e de estudar, e de produzir – enquanto os Guardas Vermelhos perseguiam como cachorros loucos milhões de supostos "reacionários". Houve um breve respiro quando Mao morreu, em 1976 – e então um endurecimento redobrado, que culminou no massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989. E hoje, depois de uma nova distensão, há uma superpotência na qual milhões, a cada ano, são transferidos da pobreza para o conforto – mas na qual todo o 1,3 bilhão de chineses continua a viver em fluxo, deslocados física ou psicologicamente para um projeto futurista, e sempre totalitário, de nação. Não existe, enfim, a possibilidade de que um chinês tenha escapado de ter a vida revirada por algumas dessas ondas, ou por todas elas. Daí que falar de qualquer coisa, para um chinês, implica falar do regime.
De todas as ondas lançadas pelos caprichos do comunismo chinês, nenhuma foi mais violenta do que a Revolução Cultural. Durante toda uma década, qualquer um podia ir dormir devidamente "vermelho" e acordar "contra-revolucionário", sujeito a exílio, tortura e execução, por nenhuma razão em particular. Os que cresceram sob tal pavor – ou delataram os próprios pais como "burgueses", ou lincharam "desviantes capitalistas" – formam uma geração traumatizada, porém ágil: se a autoridade é imprevisível, drible-se a autoridade. Por ironia, então, a Revolução Cultural se tornou a mãe da literatura chinesa contemporânea. A maioria dos nomes mais prestigiados hoje cresceu sob sua sombra, e com ela aprendeu a ler o que não se podia ler, a achar leitores mesmo quando se está censurado (parte da rotina), a criticar abertamente ou de contrabando, a aproveitar oportunidades. Por exemplo, de se exilar (é grande o número de autores que fugiram para o Ocidente), ou de esperar. Uma modalidade comum entre os escritores que permanecem na China é o livro "de gaveta": aquele que fica pronto para ser publicado quando o vento soprar a seu favor. Ou o livro feito para ser banido, e lido na internet ou no exterior – como a sátira A Serviço do Povo, de Yan Lianke (tradução de André Telles; Record; 176 páginas, 29 reais), em que o autor se diverte pintando um adultério escandaloso entre um soldado exemplar e a mulher de um oficial, que quebram estátuas de Mao a título de preliminar.
A maior ousadia dessa geração, contudo, foi colocar o vetado e perseguido "eu" na literatura chinesa. O pronome domina Meu Nome É Número 4, em que Ting-Xing Ye, mandada aos 14 anos para uma prisão agrícola, desce aos detalhes do que significa ser tratada como bicho. Ele constitui também a beleza de Viver, de Yu Hua (filmado por Zhang Yimou como Tempo de Viver), no qual um herdeiro decadente e sua família furam onda após onda, do nacionalismo ao fim da Revolução Cultural, sempre perdendo um pouco mais de si pelo caminho. E o "eu", falando por "nós", é o que conduz o arrebatador Refugo de Guerra, de Ha Jin (do belíssimo A Espera, já editado no Brasil pela Companhia das Letras), em que um oficial treinado em uma academia nacionalista adere no primeiro instante ao Exército Vermelho. Mas então, capturado durante a Guerra da Coréia, percebe que vai ser sempre "ele", o "outro" – e que, em um regime do qual nada escapa, todos vão ter seu dia de "outro" também, mais cedo ou mais tarde.
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[+] Carlos Lyra lança CD ao vivo e Autobiografia
A Tarde, Salvador
Laura Dantas
06.07.2008A Tarde, Salvador
Laura Dantas
06.07.2008Co-protagonista de um dos fenômenos culturais que mudaram a feição da música brasileira no século XX, Carlos Lyra traz à baila dois lançamentos para celebrar o cinqüentenário da Bossa Nova.
Além do CD 50 Anos de Música – uma compilação de sucessos da carreira retirados do DVD homônimo lançado em 2005 pela Biscoito Fino –, ele acaba de apresentar na Flip 2008 a controversa autobiografia Carlos Lyra, eu e a bossa. Em entrevista à repórter Laura Dantas, o autor não poupa nada nem ninguém ao contestar algumas versões oficiais que se espalharam sobre a Bossa Nova. Desmistifica, entre outras coisas, o fato de o gênero ter nascido no célebre apartamento de Nara Leão e diz que ela nunca foi musa, “é música”.
A TARDE | A partir de quando a Bossa Nova surgiu efetivamente?
CARLOS LYRA | A expressão bossa nova – e isso não é uma opinião é um fato – data de 1957, quando fizemos um show para estudantes no Rio de Janeiro, eu, Silvinha Teles, Roberto Menescal, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, e, quando chegamos lá, encontrei escrito num quadronegro ‘Hoje, Silvinha Teles e os Bossa Nova’. Até hoje estou procurando o cara que escreveu e que era o diretor social da Sociedade Hebraica do Rio. Já falei isso em entrevistas, mas ele não aparece.Me lembro bem, era um judeu baixinho, cabelo louro... A primeira vez que a expressão surgiu foi ali.AT | Inspirada na canção doNoel que fala em ‘outras bossas’...
CL | É, mas, antes do Noel, Machado de Assis já falava nisso, já tinha usado no conto Helena, em que falava ‘tu tens a bossa conjugal e eu, a bossa viajante’... Mas as pessoas falam que a Bossa Nova começa com isso, com aquilo... pra mim, ela começa com o LP do João Gilberto [Chega de Saudade, 1959], porque ali tem todas as informações sobre a Bossa Nova, tem a dupla Tom e Vinicius, tem Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, tem o João interpretando Dorival Caymmi e Ary Barroso, então o marco é esse LP e não o da Elizeth, de 58, esse não é Bossa Nova, não tem nada a ver.AT | E qual foi a real importância do famoso apartamento de Nara Leão, em Copacabana?
CL | Nenhuma. Para a Bossa Nova, nada. O Ronaldo Bôscoli, como era ex-namorado da Nara, dizia que a Bossa Nova nasceu na casa dela, mas tinha a casa do Bené Luz, do Lula Freire, do Tom, do Vinicius... Se você disser que os apartamentos e as casas da Zona Sul do Rio eram importantes, aí, sim, é verdade, mas Tom Jobim e Vinicius de Moraes jamais foram na casa de Nara. Então, como ali pode ter nascido a Bossa Nova, se Tom e Vinicius nunca estiveram lá? Uma fenômeno cultural dessa importância não nasce na casa de ninguém, nasceu, sim, no Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil.AT | E aNara foi realmente musa da Bossa Nova?
CL | Eu não aceito esse negócio de musa, porque musa é uma figura estática que fica em cima de um pedestal enquanto uns idiotas ficam fazendo poemas e músicas para ela. Ela nunca esteve neste pedestal, foi uma menina que botava o violão no ombro e ia pra r ua com a gente, novinha, com 16 anos, então não é musa, é música. Ela tem uma importância como mulher para a Bossa Nova muito maior do que a de ser ‘musa’. Musa é uma coisa idiota.AT | Por que você disseementrevista que o concerto da Bossa Nova no Carnegie Hall, em Nova Iorque, foi constrangedor?
CL | Porque a intenção do cara que produziu o concerto era gravar um disco, então encheu o palco do Carnegie Hall de microfones e deixou entrar quem quisesse. Quem estivesse em Nova Iorque e fosse brasileiro podia tocar e cantar, então tinha uma mulher tocando maraca, um cara tocando violão nas costas, um circo... E tinha também o Bonfá, eu, o João Gilberto, o Tom Jobim... Fiquei tão irritado com aquilo que fui nos bastidores e estava lá o Tom, também chateado, aí eu falei: ‘Você tá vendo isso? Vamos voltar para o Brasil’. E ele falou: ‘Carlinhos, a gente não pode fazer isso, não, aqui tem cadeira elétrica’ [risos]. As pessoas que foram assistir, o Stan Getz, o Gerry Mulligan, o Charles Byrd e outros, souberam separar o joio do trigo, mas que foi constrangedor, foi.AT | Por que somente agora você resolveu expor isso em livro?
CL | Há dez anos estou escrevendo esse livro. Ele deveria terminar em 2000, na virada do milênio...Aquele negócio ‘2000 chegará’, ‘de 2000 não passará’... Eu dizia: ‘Vou escrever até a hora que vierem os anjos do apocalipse para acabar com o mundo’. Não aconteceu nada, e eu continuei escrevendo até 2005. Tinha muita coisa controversa, como essa história de que a Bossa Nova nasceu na casa da Nara, de que era um movimento. Não foi um movimento, nunca houve manifesto, então eu vinha juntando as idéias até que a editora Casa da Palavra resolveu publicá-las.AT | Sobre o livro do Rui Castro [Chega de Saudade], o que mais você contesta ali?
CL | O livro do Rui Castro foi um ensejo para fazer o meu, porque ele me entrevistou durante uns 15 minutos para fazer aquele livro, mas o Ronaldo Bôscoli ele entrevistou por meses a fio. Praticamente tudo o que tem naquele livro vem de informações do Ronaldo Bôscoli. Tem uma série de equívocos e, sobretudo, nenhuma menção ao fenômeno político, social e econômico da Bossa Nova. Quando o Rui me perguntou ‘o que você achou do meu livro?’ Eu disse: ‘Muito bom, é um ponto de partida maravilhoso, abre espaço para a Bossa Nova, mas tem um defeito, você não faz, nem uma vez, menção ao fenômeno político, social e econômico...’ Aí ele disse: ‘E por que você não escreve outro?’ Eu perguntei: ‘Você faz o prefácio?’. Ele fez o prefácio e o livro está aí.AT| Você achaqueos jornalistas, historiadores e artistas são os responsáveis por essa aura mítica em torno de João Gilberto?
CL | O JoãoGilbertotemumaimportância fundamental para a Bossa Nova. Se não fosse ele, talvez a gente não tivesse um intérprete, além dos compositores. A Bossa Nova foi cantada por mim, por Tom, pelo Baden, pelo Francis, mas a gente precisava de um bom intérprete e o João foi isso. Claro que sem os compositores ele não teria muita expressão, porque faltariam as composições para ele interpretar. Mas, como intérprete, teve uma importância muito grande. Agora, não é pai da Bossa Nova, isso não existe. A Bossa Nova está cheia de pais...AT| LiumamatériadoDanielFaria, da Revista Wave, em que ele cita a tal cisão ideológica da Bossa Nova e diz que você, mesmo tendo uma aparente benevolência com o samba de morro, queria mesmo era elitizar a música popular.
CL | Tudo errado. Eu não tinha simpatia pelo samba de morro, eu era do Partido Comunista, era a favor do povo até a raiz do cabelo e ainda sou. Quando fundei o Centro Popular de Cultura junto com o Vianninha, o Ferreira Gullar, a minha idéia era exatamente trazer a música de morro para a classe média e levar a Bossa Nova para o povo.Esse cara diz tudo errado porque não falou comigo, inventou da cabeça dele. Infelizmente, isso é o que acontece com os jornalistas, querem criar a história em vez de narrar. Muitos jornalistas – naturalmente existem as exceções – gostam de inventar, e o cara se deu mal por causa disso. Eu não tenho simpatia pela música do morro, eu sou louco pela música do Zé Ketti, do Cartola, do Nelson Cavaquinho e fui buscar a música do povo exatamente para enriquecer a Bossa Nova que estava muito na base do amor, do sorriso e da flor.
AT | Há quem diga hoje que a Bossa Nova poderia estar menos amarrada às formas do passado, às releituras, aos expoentes...
CL | Maselanãoestáamarrada.O que acontece é que neste país tudo o que é cultura sumiu, principalmente depois que esse presidente analfabeto entrou para governar o País – e o prefeito do Rio de Janeiro também é outro analfabeto, o CesarMaia –, então a cultura está inteiramente jogada às baratas e a educação também. Porque eu tenho feito músicas novas, que não têm nada a ver com a minha primeira fase da Bossa Nova. O Tom já tinha mostrado, antes de morrer, muitas coisas novas. Só quem estacionou na Bossa Nova, de uma maneira ou de outra, foi o João Gilber to.AT | Entendo, mas me refiro especificamente às novas gerações. Não deixa de ser curioso ouvir hoje a sua canção Influência do Jazz e perceber que, mais do que bossanova, a juventude está interessada em samba tradicional.
CL | EucompusInfluência do Jazz em 1961, e ela reclamava da excessiva influência do jazz na música brasileira, que já tava perdendo as características de samba. Hoje não é preciso mais isso.AT | O que você achou de o Cesar Maia declarar a Bossa Nova como um patrimônio carioca?
CL | Acho uma coisa meio hipócrita, porque ele não faz nada pela Bossa Nova. Se ele tivesse feito um templo da Bossa Nova no Rio de Janeiro, ou aberto um centro de Bossa Nova para turistas, seria muito bom, atrairia turista.Mas declarar que é patrimônio nacional não quer dizer nada...AT | Na verdade, patrimônio carioca. Mas isso despreza alguns dados, até mesmo o fato de João Gilberto ser baiano, de ter sido influenciado por americanos, por Dorival Caymmi, outro baiano...
CL | E o João Donato é do Acre, Roberto Menescal é do Espírito Santo... A Bossa Nova nasceu no Rio porque essas pessoas moravam no Rio que era a capital do Brasil. Hoje não tem mais sentido fazer bairrismo com isso. A Bossa Nova é do mundo inteiro e é mais da classe média japonesa do que do povão brasileiro -
[+] ''Bossa nova não foi um movimento''
Estado de S. Paulo
Antonio Gonçalves Filho
05.07.2008Estado de S. Paulo
Antonio Gonçalves Filho
05.07.2008Para Carlos Lyra, ela foi, antes, um ''surto cultural'' da classe média carioca
Os 50 anos da bossa nova foram lembrados na 6ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) com um debate entre um de seus pioneiros, o músico e compositor Carlos Lyra, e o crítico Lorenzo Mammì, em que o primeiro classificou-a de um "surto" cultural de músicos cariocas, insatisfeitos com as formas de interpretação musical dominantes no Brasil durante os anos 1950. Lyra, que escreve atualmente um livro sobre a história da bossa nova para a editora Casa da Palavra, explicou porque prefere a palavra surto no lugar de movimento musical. "Seria incorreto chamar a bossa nova de movimento, considerando que não tínhamos sequer um manifesto", disse Lyra, que, num rápido lance de análise sociológica, classificou o "surto" como resultante da frustração musical de jovens da classe média, sem modelos formais capazes de suprir sua carência estética. O vozeirão dos cantores populares e as letras derramadas e passionais das canções da era JK encontraram sua contrapartida na batida minimalista e na suavidade da interpretação dos primeiros músicos da bossa nova, assim batizada por um garoto judeu da Sociedade Hebraica do Rio de Janeiro, do qual Lyra não lembra o nome.
Comparando os pioneiros da bossa nova (ele, Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim, entre outros) aos poetas e músicos provençais, Lyra admitiu até mesmo que suas intenções não eram muito diferentes daqueles líricos europeus que provocaram uma revolução estética no século 12 ao trocar o latim por uma língua compreensível por jovens damas nas quais estavam interessados. "Nós também só queríamos sair com as menininhas e esse primeiro momento da bossa nova revela nossa intenção de dedicar a elas canções de louvor", admitiu o autor do clássico Minha Namorada. Como argumento adicional, a bossa nova tinha, segundo ele, o "discreto charme da burguesia e a harmonia dos impressionistas franceses relida por Cole Porter". Em outras palavras, o que Lyra disse é que os pioneiros da bossa nova não ignoravam o apelo da suavidade de Ravel nem a sensualidade do jazz como componentes de um gênero musical que pretendia celebrar o "amor, o sorriso e a flor" numa época em que o Brasil passava por uma radical transformação econômica, política e cultural.
Os jovens bossa-novistas não ficaram à margem desse processo, observou Lyra, lembrando que muitos deles foram criadores dos centros populares de cultura (CPC), destinados a fomentar não só uma nova estética sem desconsiderar as raízes populares como a "mudar a realidade brasileira", isso "depois de termos tudo na era JK", concluiu, irônico, o compositor, criticando a postura arrogante de jovens da classe média que, como ele, se consideravam guardiães da cultura brasileira. "Mas 1964 acabou com tudo, inclusive com a primeira fase da bossa nova, que se tornou mais engajada, trocando Chega de Saudade por O Morro Não Tem Vez."
O crítico Lorenzo Mammí interveio justamente para lembrar que essa primeira fase durou pouco mais de dois anos, justamente o tempo para que os americanos descobrissem a bossa nova e promovessem o primeiro show internacional do gênero, ao reunir os pioneiros no Carnegie Hall de Nova York, em 1962. Lyra, na contramão da história oficial, diz que o show foi um fiasco artístico, misturando bons músicos brasileiros com intérpretes americanos de segunda categoria. "A sorte é que fomos vistos por músicos do porte de Stan Getz, Charlie Byrd e Gerry Mulligan, que souberam separar o joio do trigo." Conclusão: a bossa nova entrava nos EUA na mesma época em que os Beatles começavam a provocar histeria entre jovens americanos.
A bossa nova interveio no jazz de modo decisivo, segundo o crítico Lorenzo Mammì. "É a música mais complexa e sofisticada produzida pelos latinos até então", disse, observando que os maiores nomes do gênero foram conquistados justamente em razão desse apelo. "Frank Sinatra não cantou tango, mas cantou bossa nova", argumentou o crítico, fazendo uma comparação entre seu maior sucesso, a canção Night and Day, composta por Cole Porter, e a brasileira Samba de uma Nota Só, ambas de caráter protominimalista, uma vez que usam uma nota repetida à exaustão em sua estrutura formal, repetição que o crítico interpretou de diferentes maneiras. No caso da canção brasileira, ela seria, segundo ele, a representação de uma utopia que já deveria ter passado pelo trauma da industrialização. "Assim como o jazz dos anos 1930 representa o lado alegre do fordismo, a bossa nova, no final da década de 1950, é uma utopia que não se realiza." O movimento, segundo ele, foi rapidíssimo. Entre o disco pioneiro da bossa nova, gravado em 1958 pelo compositor e cantor João Gilberto, e o show do Carnegie Hall, em 1962, pouco mais de três anos se passaram, separando o que chamam de "fase lírica" da fase "épica" do gênero, mais engajada. A garota de Ipanema começava a envelhecer. -
[+] Bridget Jones que lê
O Globo
Mariana Timóteo da Costa
28.06.2008
O Globo
Mariana Timóteo da Costa
28.06.2008Dupla americana cria personagem trintona que encontra na leitura a válvula de escape para os dilemas da mulher moderna
Se Carrie Bradshaw e suas amigas de “Sex and the City” compram pares e mais pares de sapatos de US$ 400 para melhor suportar as mazelas da vida, Eudora Welty lê um livro atrás do outro. Eudora, ou Dora, é a personagem principal de “Ler, viver e amar em Los Angeles” (Casa da Palavra), livro de estréia da dupla americana Jennifer Kaufman e Karen Mack, respectivamente, ex-roteirista e ex-produtora da CBS. Foi trabalhando nos enlatados do canal de TV que as duas se conheceram e resolveram escrever sobre uma espécie de “Bridget Jones que lê”.
— Nós duas somos leitoras ávidas. Os livros nos ajudam a passar pelas dificuldades da vida. Tem gente que, para preencher vazios, se vicia em comprar roupas, viaja para lugares caros ou gasta fortunas com terapia. Nosso hábito é mais acessível e alimenta a alma — teclam elas da Califórnia. O casamento acabou, a carreira não anda bem, a auto-estima está em baixa? Dora sofre de tudo isso e resolve mergulhar nos clássicos (“‘O Morro dos Ventos Uivantes’? Tudo bem, estou mesmo com vontade de chafurdar” é uma das justificativas que a personagem dá às suas escolhas literárias) e em livros menos conhecidos do grande público.
Jennifer e Karen garantem que — pelo menos uma delas — leram cada livro citado em “Ler, viver e amar em Los Angeles”, e têm a intenção clara de dar boas dicas a seus leitores. — Só não lemos uma obra citada no livro, um romance francês chamado “La Disparition”, de Georges Perec, que escreveu o livro todo sem usar a letra “e”, em 1969.
Uma das passagens mais engraçadas de “Ler, Viver e Amar em Los Angeles” ocorre quando uma amiga de Dora descreve o momento em que, por volta dos 35 anos, se olhou no espelho e viu ali “uma outra pessoa, uma velha”. As escritoras, dentro desta faixa etária, garantem que há muitos sinais que indicam quando “uma certa idade” é atingida: — Quando o menino que carrega suas compras do supermercado a chama de senhora; quando as roupas de seu armário são consideradas vintage; quando você começa a beber vinho tinto com a clara preocupação de que faz bem ao coração — afirmam.
Mas — assim como Dora, claro, que arruma numa livraria um cara bacana — não há razão para desespero. Segundo as autoras, é muito bom passar dos 30 porque: você pode pagar por suas férias; você pode mandar um homem para o inferno sem se sentir culpada; você entende a importância de ter um bom creme anti-rugas (e melhor: pode pagar por ele); você percebe quando alguém está apenas puxando o seu saco. Você sabe diferenciar o que importa do que não importa; e olha para trás, para o seus erros, com orgulho deles.
— Além disso, se você não nasceu com o rosto ou corpo que queria, tem a capacidade de mudá-lo — acreditam as escritoras. Numa outra pergunta nossa, sobre que livros a dupla indicaria para quem quer se dar bem na carreira, Jennifer e Karen indicam “A Dieta de South Beach”. Hum... Dieta? Será que elas acham que precisamos ser belas e magras para ter sucesso na vida? Mas não são justamente as duas que, leitoras ávidas, preferem o conteúdo à forma? Torcemos para que sejam somente trintonas bemhumoradas, autoras de um livrinho bem divertido, uma boa companhia para esses dias frios.O QUE ELAS RECOMENDAM
LIVROS
PARA CURTIR OU CURAR UMA DOR DE COTOVELO: “A educação sentimental”, Gustave Flaubert; “Fim de caso”, Graham Greene; “Adeus às armas”, Ernest Hemingway; “O Morro dos Ventos Uivantes”, Emily Brontë; “Ele simplesmente não está a fim de você”, de Greg Behrendt e Liz Tuccillo.
PARA COMPREENDER MELHOR O CIÚME: “The transit of Venus”, Shirley Hazard (sem tradução para o português); “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; “A thousand acres”, de Jane Smiley (não foi traduzido para o português, mas foi adaptado para o cinema com o nome de “Terras perdidas”, com Jessica Lange e Michelle Pfeiffer no elenco); “Rei Lear”, de William Shakespeare. Para as autoras, este é “o melhor livro já escrito sobre o ciúme”.
PARA ENCONTRAR UM PAR: “Orgulho e Preconceito” e “Persuasão”, de Jane Austen; “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë e o conto de fadas “Cinderela”.
PARA TER SUCESSO NA CARREIRA: “Dom Quixote”, Miguel de Cervantes; “A dieta de South Beach”, do médico Arthur Agatston.
PARA APRECIAR UMA HISTÓRIA DE AMOR: “Lolita”, Wladimir Nabokov; “Jane Eyre”, Charlotte Brontë; “Pigmaleão”, de George Bernard Shaw; “O grande Gatsby”, F. Scott Fitzgerald. E “qualquer coisa de Lord Byron, W.B. Yeats e Pablo Neruda”.
PARA OS MOMENTOS DE SOLIDÃO: “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath.
PARA SER UMA CRIATURA MAIS ESPERTA: “Qualquer coisa escrita por Oscar Wilde e Dorothy Parker.” COMPRAS EM LA ROBERTSON BLVD: Em Beverly Hills. “A rua tem pequenas lojas maravilhosas, sempre visitadas por celebridades incógnitas sob seus óculos escuros e com seus chihuahuas.”
RODEO DRIVE: Designers famosos e caros.
MELROSE: “O lugar de quem é hype”. Lojas de Marc Jacobs, Betsey Johnson, Fred Segal. “Para lingeries bem ousadas e sexies, vá à Agent Provocateur.” BELEZA
ANASTASIA é um salão de beleza em Beverly Hills que, segundo as escritoras Jennifer Kaufman e Karen Mack, deixa qualquer uma com sobrancelhas como as de uma estrela de cinema. “Há também ali uma excelente brazilian bikini wax!”, garantem elas.
JOSEPH MARTIN HAIR & BEAUTY: O salão de Beverly Hills que é o preferido das estrelas. “Corte e pinte o cabelo com o Franck, o melhor de todos.” RESTAURANTES
BEVERLY HILLS: Cut; Spago (do chef austríaco Wolfgang Puck); Il Pastaio do chef Drago; Mr.Chows.
EM CENTURY CITY: Craft. “Um dos mais badalados da Califórnia.”
EM BRENTWOOD: O Vicenti e o Toscana. “Para apreciar as estrelas de cinema que os freqüentam”, recomendam as escritoras.
NO CENTRO DE LA: Lucques (“votado o melhor jovem chef do estado da Califórnia”); BLT steakhouse; e AOC (“para os jovens e descolados”).
EM SANTA MONICA: Giorgio Baldi. “Um clássico.” LIVRARIAS EM ENCINO: BookSoup; Vromans e Barnes & Noble.
EM CENTURY CITY: Borders. “Uma grande variedade.” EM MALIBU: Diesel -
[+] Italiano põe centro histórico do Rio na berlinda
O Globo
Paula Autran
04.05.2008
O Globo
Paula Autran
04.05.2008Para urbanista, falta de moradores e distância do mar prejudicam região, que tem prédios feios e plano de ocupação confusoO centro histórico do Rio, que tanto orgulha os cariocas, não é lá essas coisas. Pelo menos na opinião do urbanista italiano Giorgio Piccinato, coorganizador do “Atlas dos centros históricos do Brasil” (Casa da Palavra) e um dos maiores especialistas em preservação de patrimônio histórico do mundo. Em visita à cidade para um seminário no Instituto Italiano de Cultura, na semana passada ,Piccinato acompanhou repórteres do GLOBO por trechos de dois dos três roteiros de visita recomendados no capítulo sobre o Rio do livro (do Castelo ao São Bento e da Cinelândia à Lapa). Mas vê mais pontos negativos do que positivos nos trajetos. Para o italiano, os principais problemas da região são a falta de moradores e o distanciamento do mar.
— Não há pessoas vivendo aqui, o que não faz do lugar agradável. A arquitetura não é suficiente para fazer de um centro histórico um lugar interessante.
É preciso haver gente.
Como está acontecendo na região da Lapa — diz Piccinato, que também gostou da área do Morro da Conceição, mais habitada. — Claro que às vezes há o problema social. Alguns centros históricos são pobres, tem gente dormindo nas ruas. Não é atrativo turisticamente? Só que essas pessoas vivem lá, têm uma relação com o lugar.
Fã de Le Corbusier, Piccinato aprova o MEC Os elogios do italiano não vão muito além da Lapa e do Morro da Conceição: — O Centro do Rio não é tão bonito quanto deveria porque perdeu a comunicação com o mar. Ficou muito isolado da Baía de Guanabara, que é um lugar lindo em si mesmo. Tem palácios, tem ópera (o Teatro Municipal), mas onde está o mar? O aterro é um trabalho fantástico de engenharia, mas hoje o espírito do tempo mudou.
O que se procura fazer é recuperar o mar e o sentimento de estar perto do mar. Outras cidades portuárias do mundo trabalham justamente para reconectar-se ao oceano, como Barcelona.
As críticas também atingem a arquitetura local e a falta de um traçado menos confuso.
— Há prédios importantes, mas alguns são muito feios — diz ele, sem querer citar exemplos, mas apontando pelo menos um monstrengo da cidade.
— A Praça Quinze tem aquele viaduto que é terrível! O plano (de ocupação) também não é muito claro.
Piccinato só livra a cara do Teatro Municipal, das igrejas antigas e do prédio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), onde fez questão de ser fotografado.
Quando você olha para ele (o prédio), no que pensa? Eu penso em Braque, Picasso... É uma coisa muito emocional. Não sei se tem algum outro lugar do Rio tão cheio de histórias.
Mas não é esta visão que se tem do Centro carioca ao ler o Atlas. Até porque assinam o texto do Rio dois brasileiros: o arquiteto José Pessôa, doutor em planejamento urbano pelo Instituto Universitário de Veneza, e a historiadora Maria Fernanda Bicalho.
A idéia do livro nasceu quando Pessôa, que ajudou a organizá-lo, esteve na Itália para fazer seu doutorado, orientado por Piccinato.
— Eu gosto (do centro histórico do Rio). Aqui você tem muitas cidades numa só. Não é homogêneo — diz Pessôa, citando exemplos da arquitetura colonial à moderna, passando por trechos em que ficam evidentes a reforma de Pereira Passos e o Plano Agache.
— São culturas distintas.
Se houvesse gente morando aqui, seria o ideal.
O italiano conhece o Centro do Rio desde meados da década de 80, quando esteve aqui numa conferência. O fato de a região, a exemplo de outros centros históricos latino-americanos, ter sido um espaço privilegiado para o desenvolvimento nos séculos 19 e 20, quando na Europa já não havia mais como se construir muita coisa, o atraiu.
— Aqui (na América) tudo era possível — observa ele, acrescentando que, no caso do Rio, a beleza natural teve e tem seus prós e contras. — A beleza do Rio ajuda muito.
Mas a natureza exuberante pode ser um problema. Neste sentido, a feiúra ajuda muito outros centros históricos.
Sobre as derrubadas do Morro do Castelo, um dos berços da cidade, e do Palácio Monroe, o urbanista procura não fazer julgamentos. Mas não crê que tenham sido bons negócios: — A América tem uma história de violência. Não posso julgar essas derrubadas, mas nunca as teria feito. Você tem que ter orgulho do seu passado.
Ainda assim, Piccinato tem uma visão crítica também a respeito das políticas de conservação do patrimônio. Sejam elas aqui ou lá fora.
— Por que queremos conservar alguns prédios? Porque achamos que são bons. Mas conservar antigas construções só para turistas é outro problema — avalia ele. — A conservação é uma iniciativa que tem que vir da sociedade. As leis não podem regular sozinhas.
Claro que se tem que pensar em turismo, mas há muitas iniciativas que podem ser tomadas sem que se prejudique o morador. -
[+] Gravuras da História
O Globo/Prosa & Verso
Suzana Velasco
12.04.2008
O Globo/Prosa & Verso
Suzana Velasco
12.04.2008Suzana Velasco
Falar em gravura, hoje, implica uma quase imediata associação a obras de arte. Mas desde que sua produção foi instituída no Brasil, com a vinda da corte portuguesa, em 1808, ela foi um importante meio de difusão de informação, propaganda política e crítica: do Período Joanino ao Imperial. Esse percurso da gravura e sua função social — condicionada pelos avanços técnicos e pelas intensas mudanças históricas que se sucederam a partir da chegada de D. João — são analisados pela pesquisadora Renata Santos em “A imagem gravada” (Casa da Palavra, 144 páginas, R$ 62). — A gravura começou relacionada à imprensa. Mas ela tem uma possibilidade que vai além do texto, e ganhou autonomia, atingindo um público maior. E era muito barata, podia custar 80 réis, menos que um almoço — diz Renata, doutoranda em História Social na UFRJ. A criação da Imprensa Régia e do Arquivo Militar permitiu a produção de plantas, atlas, mapas, baralhos e ilustrações para livros científicos, através do buril (gravura em metal) e da xilografia (em madeira).
Ao mesmo tempo, a corte joanina já percebia o potencial da técnica como elemento de política de Estado, e divulgava a si mesma através de impressões como as de Charles Simon Pradier, gravador da Missão Artística Francesa, de 1816, que muito produziu a partir de desenhos de Jean-Baptiste Debret.Da propaganda política às charges e sátiras
Mas, como analisa Renata, esse potencial só foi mais bem explorado após a Independência, quando se tornou necessário manter o controle do poder. Em 1825, D. Pedro I comprou uma prensa e aqui instalou a primeira oficina de litografia, que permitiu a propaganda do Império em larga escala. Isso porque a técnica de gravação em pedra é de execução mais fácil, permitindo agilidade na produção. Ateliês litográficos particulares se espalharam pela cidade, incluindo o do suíço Johan Steinmann, gravador do Império.
Além das impressões oficiais, Steinmann retratou curiosos tipos sociais — como o militar Buonaparte, de uma infantaria só de negros — e, para a autora, foi o “precursor das gravuras de reportagem”. — Com seu olhar de estrangeiro, Steinmann consegue dar forma à diversidade social que vê aqui, um pouco como o Debret fez em seus desenhos. Essa produção é de um momento de transformação, ainda não está muito claro quem a consumia ou a quem se destinava.
O livro investiga ainda como, após a volta de D. Pedro I a Portugal, a função social da gravura se modifica. “Sai a propaganda e entra a crítica ao Estado”, em sátiras da conturbação política que marcou o período regencial. Nesse contexto, Renata destaca as charges políticas de Frederico Guilherme Briggs, gravadas a partir de desenhos de Araújo Porto Alegre, em 1840. Foi o mesmo ano da chegada ao país do daguerreótipo, o precursor da fotografia, que acabaria por deixar a gravura em segundo plano. — O processo utilizado na propaganda vai se transformando com a fotografia, que passou a ser usada pelo Estado para divulgar sua imagem — afirma Renata, que começou sua pesquisa pelo trabalho do suíço Georges Leuzinger, editor, fotógrafo e criador da maior empresa de impressão e litografia no país, no século XIX. — O trabalho de Leuzinger é muito representativo das transformações técnicas, de litografia, daguerreótipo e fotografia.
Todo o livro é ilustrado por gravuras, das mais simples às mais rebuscadas, de toda a primeira metade do século XIX. Renata, que pesquisou a maior parte das imagens na Biblioteca Nacional, quer mostrar como a comunicação visual, que ancora a sociedade de hoje, já existia séculos antes: — Na nossa concepção de progresso, o presente é mais evoluído que o passado. Mas, apesar das outras técnicas, já havia a idéia da reportagem, da propaganda política, da união de imagem e texto. -
[+] A vocação musical de uma cidade
O Globo/Prosa & Verso
Luiz Paulo Horta
12.04.2008
O Globo/Prosa & Verso
Luiz Paulo Horta
12.04.2008Vasco Mariz recupera a arte e os personagens Suzana Velasco do Rio do século XIXLuiz Paulo Horta
Em livro extremamente sedutor, o musicólogo Vasco Mariz conta a história do Rio de Janeiro musical no tempo de D. João VI. Quando a corte aqui chegou, o Rio já tinha densidade musical para produzir um gênio: o padre José Maurício. Mas D. João era um verdadeiro amante de música; e, com ele, a Capela Real assumiu dimensões inéditas. Na catedral da rua 1º de Março, José Maurício, nomeado mestre de capela, apresentou uma grande obra depois da outra. A música sacra que ele compunha traz a marca do classicismo vienense de Haydn e Mozart, apimentado com uns ares de modinha e sofrendo, mais tarde, a influência do gosto da época pelo virtuosismo vocal. Até que, em 1810, chega da Europa Marcos Portugal, o maior compositor português do seu tempo. Talvez se tenha exagerado um pouco a rivalidade entre Portugal e o nosso padre-mestre. Eles viviam em níveis diferentes: o compositor ilustre, chegado da Europa, não precisava fazer muita força para ocupar o centro do cenário, mais ainda sendo José Maurício um mulato, filho de escrava.
Mas as coisas só pioraram mesmo, para o padre, quando o “velho rei” foi embora: o Brasil de D. Pedro I não tinha tempo nem dinheiro para sofisticações musicais, e José Maurício mergulhou na obscuridadeA vida brilhante do Real Teatro de São João
Outra vertente dessa música de corte é a música profana. Insatisfeito com as instalações musicais do Rio de Janeiro, D. João manda construir o Real Teatro de São João, no lugar do atual João Caetano (Praça Tiradentes). E não só o teatro era belo, como havia de tudo para que ele funcionasse bem — inclusive os castrati, trazidos da Europa. Inaugurado em 1813, o teatro teve vida brilhante, como atestam visitantes de passagem pela corte. Ali se levaram as óperas de Rossini — “La Cenerentola”, “L’Italiana in Algeria”. Ali se fez o “Don Giovanni” de Mozart. Mas, em 1824, houve um incêndio que só deixou de pé as paredes.
De acordo com os novos tempos, resolveu-se fazer um teatro menor e menos luxuoso. Desde a partida de D. João, os melhores artistas já se haviam transferido para Buenos Aires. D. Pedro I cortou até o modesto auxílio financeiro que D. João dava ao padre José Maurício — que morreu em 1830, muito pobre, ouvindo na imaginação a grande música dos tempos do “velho rei”. -
[+] "Rio de D. João VI" é tema de seminário na Livraria da Travessa
O Globo Online
07.04.2008O Globo Online
07.04.2008Entre 14 e 18 de abril, o "Rio de Janeiro de Dom João VI" será tema de debates e de livros que serão lançados em seminário na Livraria da Travessa, em parceria com as editoras Casa da Palavra e Companhia das Letras. O seminário faz parte das comemorações dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil e do projeto "D. João VI no Rio", da Prefeitura do Rio de Janeiro.
A Livraria da Travessa fica na Rua Afrânio de Melo Franco 290, 2º piso do Shopping Leblon. A entrada é franca e os encontros começam às 20h.
Confira abaixo a programação:
Segunda-feira, 14/04
Noite de música no período joanino
Lançamento do livro "A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI", de Vasco Mariz, seguido de debate e autógrafos com o autor.
Terça-feira, 15/04
O Jardim Botânico e os naturalistas
Debate com a professora Ana Rosa de Oliveira e com Rosa Nepomuceno, autora do livro "O Jardim de D. João".
Quarta-feira, 16/04
As personagens da corte
Debate com a professora Francisca Azevedo, autora do livro "Carlota Joaquina - Cartas inéditas", e com o embaixador Alberto da Costa e Silva, coordenador geral da comissão "200 anos" da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Quinta-feira, 17/04
A imagem gravada
Lançamento do livro "A imagem gravada - a gravura no Rio de Janeiro entre 1808 e 1853", de Renata Santos.
Sexta-feira, 18/04
Imprensa, letras e circulação de idéias no Rio de Janeiro joanino
Palestra e debate com a Professora Isabel Lustosa sobre o inícioda Imprensa no Brasil.








