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    [+] Uma “Biblioteca” onde os livros são construídos a partir de outros livros

    O Globo – Segundo Caderno
    Guilherme Freitas
    03.12.2009

    O Globo – Segundo Caderno
    Guilherme Freitas
    03.12.2009

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    Gonçalo M. Tavares lança duas obras inspiradas em releitura de clássicos

    Num daqueles questionários que os jornalistas costumam infligir aos escritores, Gonçalo M. Tavares foi perguntado sobre como organizava sua biblioteca. Incapaz sequer de manter a conta dos volumes que possui, o escritor português se viu obrigado a criar novas fórmulas para descrever seu “método”:
    — Além das categorias clássicas como romance e poesia, minha lista tinha “livros empilhados”, “livros no chão”, “torres de livros” — brinca.
    Os livros que transbordam das prateleiras da casa e do ateliê de Gonçalo, são uma boa imagem para definir a obra do prolixo escritor, que teve mais de 20 livros publicados desde 2001, entre romances, ensaios, contos, novelas e poesia. Livros construídos a partir de outros livros, como fica claro em “Biblioteca” e “O senhor Breton e a entrevista”, lançados no Brasil simultaneamente pela Casa da Palavra.

    Breve história da literatura em forma de ficção

    Nos textos reunidos em “Biblioteca”, Gonçalo parte dos nomes dos autores clássicos para criar curtos parágrafos que evocam suas obras, nem sempre de formas evidentes. A impressão inicial é a de um “dicionário de escritores” — a obra é dividida em verbetes organizados alfabeticamente (“Anaxímenes de Mileto”, “André Breton”, “Antonin Artaud”) —, mas Gonçalo se apressa em desfazer essa noção. Se há textos claramente inspirados nos escritores (“Uma barata pode ser mais importante que um imperador”, anuncia o verbete de Clarice Lispector), há outros em que essa relação é misteriosa até mesmo para o próprio Gonçalo:
    — A ideia em “Biblioteca”, era fazer com que o nome de um autor que eu já havia lido, através do jogo entre memória e esquecimento, provocasse um texto. Como se o nome do autor fosse o catalisador de um texto. Ou como se o nome fosse apenas uma palavra que tem uma definição um bocado estranha — arrisca.
    Na “desorganizada” biblioteca de Gonçalo, há espaço para clássicos ocidentais, como Kafka (“Os líquidos não se dobram como se dobra um homem frente ao Estado. Tenho uma lei com alguns metros de espessura, e uma voz média, que interfere no fio elétrico do mundo como o pássaro no fio elétrico da sua zona”), e orientais, como Lao Tsé (“É difícil fazer silêncio falando”). E muitos brasileiros, entre eles Manoel de Barros, Nelson Rodrigues, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.
    A estratégia de tomar o nome de um autor como catalisador de um texto também guia “O senhor Breton e a entrevista”, mais um livro da série “O Bairro”, que já teve publicados no Brasil títulos como “O senhor Brecht”, “O senhor Calvino”, “O senhor Walser” e “O senhor Juarroz”, entre outros. O bairro criado por Gonçalo é a vizinhança por onde circulam esses personagens, cujas histórias são um tipo muito particular de ensaio literário, sugere o autor:
    — O Bairro começou com o senhor Valéry e foi crescendo. O que senti a partir de certa altura é que ele funciona como uma breve história da literatura em forma de ficção. É uma forma de agradecer o que recebi como leitor.

    Clarice pode ganhar livro da série “O Bairro”

    Inicialmente uma brincadeira despretensiosa, o Bairro transformou-se aos poucos num projeto que o próprio Gonçalo reconhece como interminável. Na contacapa de cada um dos livros da série, pode-se ver um esboço do Bairro, com indicações dos próximos escritores que poderão ganhar livros próprios, como Rimbaud, Virginia Woolf e George Orwell. E ainda há as “pressões diplomáticas” que Gonçalo diz receber de leitores de diversos países para a inclusão deste ou daquele autor local (aos brasileiros, sempre diz ser possível que a senhora Clarice em breve se mude para a vizinhança).
    O mais recente habitante do Bairro, inspirado no poeta e agitador surrealista André Breton, é um senhor recluso que se dedica a um tipo muito peculiar de entevista, na qual ele mesmo faz as perguntas e jamais dá respostas. Uma técnica que Gonçalo atribui não só ao escritor francês, mas à literatura em geral:
    — Vejo o romance como uma tentativa de investigar uma pergunta, algo que não se compreende. Ele parte de uma pergunta, e no fim temos as fundações que a sustentam. O problema não tem solução, mas o leitor está mais lúcido, entende melhor o problema.
    Gonçalo define o Bairro como uma “utopia literária”, onde os autores convivem sem qualquer distinção de nacionalidade, idade ou estilo. A definição lembra uma biblioteca, onde essa utopia se concretiza nas prateleiras habitadas por escritores de todas as épocas e lugares. Para Gonçalo, o Bairro e a biblioteca ilustram a relação entre a literatura e o tempo:
    — Gosto de pensar que em minha biblioteca ou em minha mochila podem estar um livro de Sêneca escrito há dois mil anos e outro que saiu há 15 dias. É algo que me agrada muito e que tem a ver com a ideia que faço do que são os livros sérios: aqueles em que o tempo deixa de ser importante.