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  • Do maxixe ao haxixe

    [+] Do maxixe ao haxixe

    Carta Capital
    Nirlando Beirão
    31.05.2006

    Carta Capital
    Nirlando Beirão
    31.05.2006

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    Intelectuais, artistas e boêmios tiveram a cocaína como companheira de viagem, em rotina cotidiana ou quase, até que se abateu sobre o branco pó das libações mundanas a pecha de droga interdita. Em 1931, a Liga das Nações, uma ONU avant la lettre, já alertava para o dano da morfina e assemelhados e, usando de prerrogativas policialescas, sugeria seu banimento, que, no Brasil, isso só aconteceu em 1938, por lei de um governo ditatorial

    Um livro precioso, organizado pela crítica Beatriz Resende e apresentado pelo sociólogo Luiz Eduardo Soares (Casa da Palavra, 146 págs.), vem mapear o lastro dos ?companheiros de ilusão?, palavras dela, na literatura brasileira ? a cocaína servindo de combustível para páginas empapadas de suor e inspiração de alguns de nossos melhores contistas.

    Outras drogas percorrem o arsenal literário, século XIX e início do XX, o haxixe, o ópio e até o lança-perfume (celebrado sem constrangimentos maiores pelo poeta Manoel Bandeira), mas é ?o vício elegante?, nas palavras de Benjamin Costallat (em O Segredo dos Sanatórios), que, pelo bem ou pelo mal, tem a precedência nos textos, reflexo com certeza, avalia Beatriz Resende, do prestígio social que a droga teve na belle époque. Não por acaso, Théo-Filho, em O Perfume de Querubina(de 1924), relaciona o pó que excita à vertigem da modernidade simbolizada pelos novos veículos de muitos cavalos ? o automóvel.

    A experiência dos excessos aqui nos trópicos pode parecer malaise de encomenda, cópia chinfrim dos tormentos existenciais dos Rimbauds e Baudelaires. Mas houve quem recusasse os paraísos artificiais independentemente dos maus bofes de uma atuante Liga da Moralidade. Olavo Bilac, por exemplo, fumou haxixe, tragou e não gostou. João do Rio entrou na atmosfera cavernosa de uma fumerie (de ópio), como aquela que Machado de Assis flagrara no Beco dos Ferreiros. Foi acometido de ímpetos assassinos ? ?a imperiosa vontade de apertar todos aqueles pescoços viscosos de cadáver onde o veneno gota a gota dessora?. Felizmente, passou.

  • Veja Recomenda

    [+] Veja Recomenda

    Revista Veja
    03.05.2006

    Revista Veja
    03.05.2006

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    A despeito do que o título pode sugerir, esse livro não faz a defesa - nem a crítica - das drogas. É uma coletânea de textos do fim do século XIX e início do XX sobre os então chamados vícios elegantes: cocaína, morfina e ópio. Organizada pela professora de literatura Beatriz Resende, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, traz crônicas, poemas e excertos de romances de figures como Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto e Manuel Bandeira - e de autores populares à época mas hoje esquecidos, como Benjamin Costallat. Alguns alertam contra os perigos dos narcóticos, enquanto outros exaltam as suas delícias. E um curioso painel de um período em que a cocaína era vendida em farmácias - e recomendada até para crianças.

  • Permissão para viajar

    [+] Permissão para viajar

    Folha de S. Paulo
    Joca Reiners Terron
    23.04.2006

    Folha de S. Paulo
    Joca Reiners Terron
    23.04.2006

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    Cocaína resgata a curiosidade e o interesse de escritores brasileiros, como João Ribeiro e Pagu, por drogas à época consideradas legais
    Leiam...! Noites de prazer. A ironia e o bom humor galante pelos melhores auctores"perversos. Profusamente illustrado em cores e doublets. À venda em todas as livrarias.
    Assim era anunciada nos primórdios do século 20 a Colecção Ninon de livros picantes, representando vivos quadros de passagens íntimas. Também esse era o tom de escândalo aplicado à viciosa literatura art déco de nossa belle époque tropical, reunida por Beatriz Resende em Cocaína - Literatura e Outros Companheiros de Ilusão. Além da importância do resgate de autores quase sempre esquecidos promovido pela antologia (apesar da popularidade que obtiveram em seu tempo), mais digno ainda de interesse é o objeto da escolha, rara oportunidade de revisão entre nós da importância do uso de drogas na engenharia do imaginário coletivo da sociedade daquele período específico.
    Banidos por décadas de editoras comerciais, autores como Benjamin Costallat, João do Rio (de vastíssima e irregular produção, aqui em alguns de seus melhores momentos extraídos de A Alma Encantadora das Ruas), José do Patrocínio Filho, João de Minas e Théo-Filho desfrutaram o auge de seu reconhecimento no instante imediatamente anterior ao modernismo, sendo essa a sua desdita e provável carimbada no passaporte para as mais recônditas prateleiras dos sebos.
    A dicção empolada e repleta de francofilias não sobreviveu às colheradas antropofágicas, e o que a moda ditava como supra-sumo da hora (em cópias complacentes do modelão que grassava na Europa) aos poucos se metamorfoseou em velharia. Não à toa a crônica de costumes presente no romance Enervadas, de madame Chrysanthème (pseudônimo da jornalista e feminista Cecília Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos), protótipo das melindrosas eternizadas por J. Carlos, culminou em injusto esquecimento. Não fosse a vívida personificação da personagem promovida pela jovem Pagu (também presente no livro com um fragmento de Parque Industrial, originalmente assinado com o codinome Mara Lobo), e estaríamos desprovidos da memória dessa insinuante figura feminina, precursora de ilibados liberalismos posteriores.
    No meu modo de ver, portanto, a não-inclusão de uma carta de Mário de Andrade relatando suas experiências com cocaína no Carnaval de 1923 a Pedro Nava (lamentada por Beatriz Resende no prefácio) apenas fortalece o recorte estético da seleção, atendo-se àquele momento que antecede a repressão à venda em farmácias de substâncias como a cocaína, iniciada em 1921 com a promulgação do decreto-lei 4.294.
    Mas, igualmente, se concentrando na ficção preponderante à época, ao mesmo tempo investida na propaganda e na prevenção da descoberta da euforia química por uma geração posteriormente perdida. Não há nenhum texto no livro que contenha a palavra traficante, tipo ainda por ser inventado naqueles tempos boêmios e indolores de outrora.

    Voyeurismo
    O bairro da cocaína! Botafogo, Copacabana, avenida Atlântica, Santa Teresa, Leblon, também tomam cocaína. Até Madureira já está contaminada... Mas a zona da irradiação do vício, a zona do comércio miserável do terrível tóxico, é a Lapa e a Glória. Entre dez meretrizes, nove são cocainômanas, alardeava Costallat, num estilo sensacionalista de parágrafos tão urgentes como a dependência.
    Excetuando-se a crônica Haxixe, de Olavo Bilac -texto inaugural da coletânea e provavelmente também da abordagem brasileira do assunto (é de 1905), em seu tom de fábula moral preventiva a serviço das más experiências advindas do uso do cânhamo-, todos os contos e poemas (há até mesmo uma canção de Sinhô) trazem inicialmente o traço do interesse voyeurístico pelo entorpecimento do outro (como os chineses opiômanos do formidável Visões dÓpio, de João do Rio, e de Os Fumantes da Morte, de Costallat), nem que o outro, no caso, seja uma prostituta, como no misógino e cruel A Tangente, de José do Patrocínio Filho.
    Não seria desproposital a comparação de tal histeria novidadeira aos shows de horrores como os de Phineas T. Barnum e seus freaks, e o passo seguinte seria mesmo o de adoção dessa excentricidade proporcionada pelo uso da cocaína e de outras drogas, permitindo assim ao usuário adquirir um certo charme da dor, uma esquisitice frívola e ingênua, típica da ignorância. São célebres os equívocos cometidos por Freud na aplicação terapêutica da cocaína em seu amigo Ernest von Fleischl, e de outra forma não poderia ser: o princípio ativo da cocaína foi isolado por Albert Nieman somente em 1860, e os efeitos colaterais de seu uso freqüente ainda não eram conhecidos então.
    Esse aspecto romântico da droga é ironizado com eficácia em O Segredo dos Sanatórios, de Benjamin Costallat, onde um recém-desintoxicado adquire contornos interessantes às moças, valorizando assim seu aspecto doentio. Recuperada e reinventada na obra de Dalton Trevisan e Valêncio Xavier, a origem belle époque da obra desses importantes autores contemporâneos também é entrevista nos contos de Cocaína, e isso não é pouco.

  • Esta coca é da boa

    [+] Esta coca é da boa

    Jornal do Brasil
    Álvaro da Costa e Silva
    22.04.2006

    Jornal do Brasil
    Álvaro da Costa e Silva
    22.04.2006

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    É outra cocaína. Não este veneno que hoje se compra, a vistas tantas, em qualquer esquina - não mais apenas nas favelas e morros - da cidade do Rio. Como explica a organizadora Beatriz Resende, a intenção da coletânea de textos Cocaína é apresentar uma literatura, na maioria dos casos, excluída. "São obras que falam do gosto, importado diretamente de Paris, pelos excessos", explica Beatriz. Participam do livro editado pela Casa da Palavra autores que sofreram e de certa maneira ainda sofrem com sua recusa levada a cabo pelo movimento modernista: Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto, Benjamin Costallat, Coelho Neto, José do Patrocínio Filho, Álvaro Moreyra, Théo-Filho e Chrysanthéme. Este último era o pseudônimo da jornalista e escritora Cecília Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos. Os trechos do seu romance Enervadas, cujo relançamento é urgente são a delícia da coleção.

  • Linhas de embriaguez

    [+] Linhas de embriaguez

    O Globo
    Miguel Conde
    22.04.2006

    O Globo
    Miguel Conde
    22.04.2006

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    O Rio da República Velha, que pretendia imitar a Paris moderna em suas virtudes (o disciplinamento do espaço urbano, o alargamento de ruas e avenidas), também reproduzia seus vícios. No início do século XX, os "Paraísos artificiais" de Baudelaire, eram o ponto de partida para as discussões dos letrados sobre os entorpecentes que os cariocas encontravam em fumeries (o ópio), na farmácia (a cocaína) ou em bares (o álcool). O uso do ópio e da cocaína era considerado, assim como o do álcool, imoral, mas não ilegal. Apenas durante a década de 1930 o consumo dessas substâncias seria definitivamente proibido. Já naquela época, surgia o debate entre os que pretendiam criminalizar a questão e os que defendiam uma abordagem médica, de assistência aos dependentes. Nesta discussão, os escritores têm participação importante. O uso de entorpecentes era retratado em contos, poemas, reportagens e romances. Alguns dos textos desse período, em que seriam definidos os fundamentos da política de drogas até hoje vigente no Brasil, foram reunidos pela crítica Beatriz Resende no recém-lançado "Cocaína, literatura e outros companheiros de ilusão" (Casa da Palavra). O volume registra as abordagens que escritores como Benjamin Costallat, Olavo Bilac, Lima Barreto e Manuel Bandeira deram ao tema.

  • Quer cocaína? Vá à farmácia

    [+] Quer cocaína? Vá à farmácia

    Revista de História da BN
    20.04.2006

    Revista de História da BN
    20.04.2006

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    Livro reúne textos da época em que a droga era comercializada livremente

    Na década de 1930, quem quisesse cheirar cocaína não precisaria subir os morros para comprar, era só ir à farmácia mais próxima. Isso mesmo: a droga era consumida em bares, pensões e bailes de Carnaval sem nenhuma repressão.
    Cheirar, à época, era uma forma de estar ligado aos hábitos cosmopolitas da França. A história só começaria a mudar em 1938, quando a cocaína teve o uso proibido por um decreto-lei.
    Beatriz Resende, professora da UFRJ especializada no modernismo, acaba de organizar uma coletânea intitulada Cocaína (Casa da Palavra, 152 pp., R$ 34,90), em que reúne textos de autores que tiveram alguma relação com a droga no começo do século XX. O livro tem prefácio do antropólogo Luiz Eduardo Soares e escritos de intelectuais como Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto e Manuel Bandeira.

  • Cocaína, uma discussão corajosa

    [+] Cocaína, uma discussão corajosa

    O Estado de S. Paulo
    Antonio Gonçalves Filho
    20.04.2006

    O Estado de S. Paulo
    Antonio Gonçalves Filho
    20.04.2006

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    Livro organizado pela professora Beatriz Resende reúne textos raros dos anos em que a droga era vendida em farmácias.
    Chico Buarque não está sozinho em sua defesa da descriminalização da maconha. O antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares, que assina o prefácio do livro Cocaína (Casa da Palavra, 152 págs., R$ 34,90), organizado pela professora Beatriz Resende, diz que a sociedade talvez venha a concluir que "a criminalização é sempre o pior caminho para reduzir os danos do abuso e controlar o consumo de substâncias que proporcionam prazer, mas cobram um preço elevado à saúde e à liberdade". Soares participa, na segunda, às 20h, de um debate com a organizadora do livro, que será lançado na Livraria da Travessa (Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema, Rio).
    Cocaína é um livro curioso. E corajoso. Reúne autores que experimentaram ou tiveram amigos e conhecidos envolvidos com a droga, de Olavo Bilac a Patrícia Galvão (Pagu), passando por João do Rio, Orestes Barbosa, Lima Barreto e Manuel Bandeira. A organizadora da coletânea, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro que pesquisa o modernismo brasileiro, reuniu no livro textos raríssimos, peças literárias a que poucos tinham acesso.
    O primeiro deles foi escrito em 1894 por Olavo Bilac. Chama-se Haxixe e já começa citando Os Paraísos Artificiais (1860) de Baudelaire, reunião de poemas sobre comedores de ópio que descreve sensações de personagens excitados com o efeito das drogas. O parnasiano Bilac, naturalmente, não era liberal como o poeta francês. Faz o personagem de seu conto concluir que os poderes do ópio estão longe dos encantos prometidos por Baudelaire.
    Contudo, o alerta de Bilac não desestimulou novos usuários. A professora Beatriz Resende observa que, na Primeira República, "o entusiasmo pela modernização vai fazer com que a idéia de decadência de costumes freqüentemente ligada ao ópio e ao haxixe seja substituída pela ambição da euforia encontrada no éter e na cocaína". Vale lembrar que, vendida nas farmácias para minimizar dores até meados dos anos 1930, a cocaína era consumida nos bares, nas pensões e anunciada sem restrições até ter seu consumo proibido por lei, em 1938, reforçando o decreto-lei de 1921 que coibia a venda de substâncias alucinógenas.
    A polêmica em torno da descriminalização começou em 1928, dois anos após a criação, no Rio, de uma delegacia especializada no comércio ilícito de entorpecentes. Uma carta enviada ao governo por farmacêuticos e laboratórios solicitou maior envolvimento oficial no tratamento de usuários e a abolição das penas de prisão. Mas a repressão recrudesceu e só reforçou o uso das drogas. Vivia-se, então, o clima da modernidade e a transgressão era norma para intelectuais.
    A elite cultural queria mostrar-se antenada com o espírito cosmopolita francês, segundo a organizadora do livro. Sobre esse assunto Beatriz Resende selecionou três contos de Benjamin Costallat, escritor popular nos anos 1920, para mostrar que, quanto maior a repressão, tanto maior era a difusão do uso da cocaína e da morfina não só entre artistas e escritores como na música popular.
    A Cocaína, samba (ainda chamado de canção-tango) composto por Sinhô em 1923, é o exemplo de como os músicos populares já tinham consciência dos males provocados pelo consumo da droga. Sua ligação com o submundo do crime e da prostituição seria depois retratada por outro compositor, Orestes Barbosa, na crônica A Favela, escrita justamente no ano da Semana de Arte Moderna, 1922. Em A Favela, o autor de Chão de Estrelas fala de duas cidades numa só: o Rio da alta roda de Botafogo, que toma ópio no beco dos Ferreiros, e da favela, dominada pela nata da malandragem, que já começava a vender droga malhada para os cariocas.
    No mesmo ano da Semana, Coelho Neto escreve (em Vício Novo) a favor da repressão às drogas, argumentando que o álcool, apesar de nocivo, não é tão perigoso como a cocaína, o ópio ou a morfina. Um ano depois da Semana, um de seus idealizadores, Mário de Andrade, vai ao Rio e experimenta a cocaína, revelando ao médico e escritor mineiro Pedro Nava suas impressões sobre a droga, consumida durante o carnaval, época em que se cheirava abertamente o éter, que circulava livremente nos salões. Manuel Bandeira até escreveu um poema sobre ele, em 1925, Não Sei Dançar, incluído na antologia. Na terça-feira gorda, uns tomavam éter, outros cheiravam cocaína, diz Bandeira. Jura o poeta que só tomava alegria, embora não diga se em frasco ou em pó.
    A partir da data em que Bandeira escreveu seu poema, os textos literários, segundo Beatriz Resende, "revelam preocupação sobretudo com os efeitos do ópio e da morfina, ao mesmo tempo em que a perversidade que envolve o comércio da cocaína vendida clandestinamente começa a ficar clara". Sobre isso fala a crônica de Benjamin Costallat, No Bairro da Cocaína (1924), em que ele conta a história da parisiense Gaby, dona de uma pensão na praia da Glória onde os toxicômanos se reuniam e "aspiravam pitadas de pó em companhia de mulheres". Gaby, segundo o autor, seria incapaz de socorrer alguém com fome, mas venderia a última peça de roupa, a última jóia, para alimentar seu vício - e o dos outros. Gaby era a sacerdotisa de uma nova religião, a cocaína, conclui Costallat.
    É o mesmo Costallat que constata, numa outra crônica, o advento de uma outra espécie, os egressos de sanatórios, que jamais assumem ter passado por um deles para se curar da cocaína. "A sociedade não se vexa com seus vícios, vexa-se com a divulgação do seu tratamento", escreve, encerrando a peça literária com a história de uma linda garota pervertida pelo companheiro cocainômano e internada num manicômio. Infelizmente, para sempre. Desnecessário lembrar que esse é também o destino de muitos alcoólatras. A escolha arbitrária entre as drogas que são proibidas e as que são toleradas, segundo o antropólogo Luiz Eduardo Soares, "explica porque convivemos com as tragédias provocadas pelo alcoolismo e o tabagismo sem que ninguém ouse postular a criminalização do consumo".