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[+] A vocação musical de uma cidade
O Globo/Prosa & Verso
Luiz Paulo Horta
12.04.2008
O Globo/Prosa & Verso
Luiz Paulo Horta
12.04.2008Vasco Mariz recupera a arte e os personagens Suzana Velasco do Rio do século XIXLuiz Paulo Horta
Em livro extremamente sedutor, o musicólogo Vasco Mariz conta a história do Rio de Janeiro musical no tempo de D. João VI. Quando a corte aqui chegou, o Rio já tinha densidade musical para produzir um gênio: o padre José Maurício. Mas D. João era um verdadeiro amante de música; e, com ele, a Capela Real assumiu dimensões inéditas. Na catedral da rua 1º de Março, José Maurício, nomeado mestre de capela, apresentou uma grande obra depois da outra. A música sacra que ele compunha traz a marca do classicismo vienense de Haydn e Mozart, apimentado com uns ares de modinha e sofrendo, mais tarde, a influência do gosto da época pelo virtuosismo vocal. Até que, em 1810, chega da Europa Marcos Portugal, o maior compositor português do seu tempo. Talvez se tenha exagerado um pouco a rivalidade entre Portugal e o nosso padre-mestre. Eles viviam em níveis diferentes: o compositor ilustre, chegado da Europa, não precisava fazer muita força para ocupar o centro do cenário, mais ainda sendo José Maurício um mulato, filho de escrava.
Mas as coisas só pioraram mesmo, para o padre, quando o “velho rei” foi embora: o Brasil de D. Pedro I não tinha tempo nem dinheiro para sofisticações musicais, e José Maurício mergulhou na obscuridadeA vida brilhante do Real Teatro de São João
Outra vertente dessa música de corte é a música profana. Insatisfeito com as instalações musicais do Rio de Janeiro, D. João manda construir o Real Teatro de São João, no lugar do atual João Caetano (Praça Tiradentes). E não só o teatro era belo, como havia de tudo para que ele funcionasse bem — inclusive os castrati, trazidos da Europa. Inaugurado em 1813, o teatro teve vida brilhante, como atestam visitantes de passagem pela corte. Ali se levaram as óperas de Rossini — “La Cenerentola”, “L’Italiana in Algeria”. Ali se fez o “Don Giovanni” de Mozart. Mas, em 1824, houve um incêndio que só deixou de pé as paredes.
De acordo com os novos tempos, resolveu-se fazer um teatro menor e menos luxuoso. Desde a partida de D. João, os melhores artistas já se haviam transferido para Buenos Aires. D. Pedro I cortou até o modesto auxílio financeiro que D. João dava ao padre José Maurício — que morreu em 1830, muito pobre, ouvindo na imaginação a grande música dos tempos do “velho rei”. -
[+] "Rio de D. João VI" é tema de seminário na Livraria da Travessa
O Globo Online
07.04.2008O Globo Online
07.04.2008Entre 14 e 18 de abril, o "Rio de Janeiro de Dom João VI" será tema de debates e de livros que serão lançados em seminário na Livraria da Travessa, em parceria com as editoras Casa da Palavra e Companhia das Letras. O seminário faz parte das comemorações dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil e do projeto "D. João VI no Rio", da Prefeitura do Rio de Janeiro.
A Livraria da Travessa fica na Rua Afrânio de Melo Franco 290, 2º piso do Shopping Leblon. A entrada é franca e os encontros começam às 20h.
Confira abaixo a programação:
Segunda-feira, 14/04
Noite de música no período joanino
Lançamento do livro "A música no Rio de Janeiro no tempo de D. João VI", de Vasco Mariz, seguido de debate e autógrafos com o autor.
Terça-feira, 15/04
O Jardim Botânico e os naturalistas
Debate com a professora Ana Rosa de Oliveira e com Rosa Nepomuceno, autora do livro "O Jardim de D. João".
Quarta-feira, 16/04
As personagens da corte
Debate com a professora Francisca Azevedo, autora do livro "Carlota Joaquina - Cartas inéditas", e com o embaixador Alberto da Costa e Silva, coordenador geral da comissão "200 anos" da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Quinta-feira, 17/04
A imagem gravada
Lançamento do livro "A imagem gravada - a gravura no Rio de Janeiro entre 1808 e 1853", de Renata Santos.
Sexta-feira, 18/04
Imprensa, letras e circulação de idéias no Rio de Janeiro joanino
Palestra e debate com a Professora Isabel Lustosa sobre o inícioda Imprensa no Brasil.
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[+] Livro analisa gravuras no período Joanino
Folha de S.Paulo
22.03.2008Folha de S.Paulo
22.03.2008Chega às livrarias na próxima semana outro livro que aborda a construção da imagem do Brasil no século 19. "A Imagem Gravada", de Renata Santos, descreve a vinda da gravura com os navios que trouxeram a família real, no fim de 1807. Prensas, tipos e prelos teriam vindo na nau Medusa.
A doutoranda em história social da UFRJ mostra que a técnica existia em Portugal essencialmente associada à tipografia, à edição de livros — o que era proibido no Brasil até a chegada de dom João 6º.
O que predominou no período joanino foi uma concepção portuguesa de gravura, para a difusão do saber (botânica, conhecimentos científicos). Essa gravura tinha raízes na Oficina do Arco do Cego, criada em Portugal no século 18 e extinta no início do século 19, quando foi incorporada à Impressão Régia. Esta foi instituída no Brasil em maio de 1808, inaugurando a vida editorial no Brasil.
Foi com dom Pedro 1º que a gravura adquiriu capacidade técnica semelhante à adotada na Europa, com a litografia. O imperador importou uma prensa e convidou o suíço Johann Jacob Steinmann para fundar o Ateliê Litográfico dentro do Arquivo Militar, em 1825. Isso fazia parte de sua estratégia de afirmar a imagem do país como nação, logo após a Independência. O foco da produção, no entanto, ainda estava longe da criação artística e privilegiava a cartografia, com sentido estratégico e militar. (MS) -
[+] Brasileiros em Nova York
Observatório da imprensa
Paulo Lima
18.03.2008
Observatório da imprensa
Paulo Lima
18.03.2008O que não falta nas livrarias são livros sobre Nova York, escritos por e para brasileiros. Guias de turismo, relatos de viagens e aventuras. Nova York bem ali, na próxima esquina, para todos os bolsos, gostos e sonhos. Mas poucos emocionarão tanto quanto Nova York do Oiapoque ao Chuí, da jornalista carioca Tânia Menai. O livro reúne 23 relatos na primeira pessoa de brasileiros que escolheram "a cidade que nunca dorme" para realizar um objetivo de vida. Músicos, diaristas, cabeleireiros, empresários, jornalistas – todos foram atraídos pelo ideal de terra da promissão.
A própria Tania Menai poderia ser personagem do seu livro. Radicada em Nova York desde 1995, ela mudou-se para a cidade com o propósito inicial de estudar e ficar somente três meses. Como todo imigrante que buscou a big apple para expandir seus horizontes, Tania viveu histórias de desafios e superações. Ela integrou a primeira equipe de brasileiros do Wall Street Journal Americas, foi relações públicas de Lily Safra e fez cursos diversos, usufruindo a efervescência cultural que só uma cidade como Nova York é capaz de oferecer. Atualmente Tania Menai colabora para as revistas Veja, Exame, piauí, Bravo!, Superinteressante, TPM e Trip, onde mantém o blog Só em Nova York
A princípio planejado como documentário, o projeto acabou se transformando em livro, para que pudesse atingir um número maior de leitores. O critério para escolha dos personagens foi que tivessem profissões diferentes, não fossem amigos íntimos da autora e morassem em Nova York. Embora revelem graus diferenciados de adaptação ao duro ritmo de vida nova-iorquino, todas as entrevistas impressionam pelos exemplos de perseverança e esforço, alguns deles no limite do sobre-humano. Alguns personagens são mais conhecidos do público brasileiro (e norte-americano), como o fotógrafo Vik Muniz, a cantora Maucha Adnet e a modelo Alessandra Ambrósio. Contudo, independentemente de serem famosos ou anônimos, todos os relatos marcam pela demonstração de coragem.
O livro desfaz mitos. O primeiro, alimentado pela imprensa, é que imigrante brasileiro em Nova York – e, por extensão, nos Estados Unidos – é sinônimo de alguém que veio de Minas Gerais. Na verdade, o universo é bem mais amplo e nele cabem paulistas, paranaenses, cariocas, gaúchos, maranhenses e cearenses. Outro mito é o que credita a Nova York a facilidade de se ganhar em dólar e levar uma vida de glamour, desmentido pela crueza dos relatos. "Esta cidade nos exige muito, talvez muito mais do que nos imaginássemos capazes de oferecer", diz Tania Menai nesta entrevista concedida por e-mail.
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Como surgiu o projeto? Quais foram as dificuldades para realizá-lo?
Tania Menai – Minha vontade inicial era fazer um documentário. Mas só para reunir a equipe levou dois meses – todo mundo aqui é sempre ocupadíssimo. Então resolvi fazer um livro e acho que, neste caso, foi até melhor. Livro é mais fácil de distribuir do que documentários. O processo foi super-prazeroso. As pessoas receberam a idéia com bastante entusiasmo – o único quebra-cabeça foi arrumar tempo na agenda de todos eles. Parece que nesta cidade não existe a expressão "tempo livre"! As fotos e ilustrações também foram feitas por brasileiros daqui, então todos estavam na mesma sintonia. A maior dificuldade, no entanto, foi na hora da edição, no Rio de Janeiro – minha impressão foi de que as revisoras não foram orientadas adequadamente. Trata-se de relatos em primeira pessoa, que mantêm sotaques e palavras em inglês. Deu um certo trabalho para fazer os revisores de texto entenderem estas peculiaridades.
Por alguma razão, algum relato ficou de fora do livro?
T.M. – Sim, alguns infelizmente não entraram. Não tive espaço para todos – então entraram os que já estavam prontos e um ficou de fora porque os amigos que leram antes acharam o personagem um pouco arrogante. Então, tirei. O critério era: os personagens terem profissões diferentes, não serem meus amigos íntimos e que morarem em Nova York. Mas no site do livro, as pessoas podem contar suas histórias – nós postamos todas.
Você mora em Nova York há mais de uma década. Esses relatos lhe proporcionaram um olhar diferente sobre a cidade? O que você aprendeu com eles?
T.M. – Não vi a cidade com um olhar diferente – apenas confirmei o que já sentia por ela. Aprendi que todo mundo passa por ciclos e situações semelhantes, independente da classe social ou profissão. Esta cidade nos exige muito, talvez muito mais do que nos imaginássemos capazes de oferecer. Alguns amigos que moram aqui, e que leram o livro, contaram que sublinharam frases de tanto que se identificaram com os sentimentos relatados.
Você acredita que os desafios de viver em Nova York se manifestam da mesma maneira para todos que procuram a cidade, independente da origem étnica?
T.M. – Sim. É um DNAzinho que tem nesta gente que vem pra cá – e isso independe da nacionalidade. Pode ser um paquistanês ou um mexicano. Mas pode acreditar que é um paquistanês e um mexicano que não têm nada de acomodados, que querem mais e não têm medo da possibilidade de recomeçar a vida ou de enfrentar preconceitos, um novo idioma ou uma nova cultura. Não é fácil para ninguém, principalmente no primeiro ano. Às vezes, para dar um passo para frente, temos que dar dois para trás.
Algum personagem do livro a emocionou de uma forma especial? Por quê?
T.M. – Sim. O relato da Maucha Adnet contando sobre a morte do Tom Jobim – especificamente na parte em que o piloto que levava o corpo dele para o Rio disse no alto-falante que o tempo estava nublado porque o Rio amanheceu chorando. Sou carioca, não me segurei. E também no relato do Guto, engraxate. O cara é um lutador. Hoje ele está numa situação melhor do que na época da entrevista.
Com os depoimentos, tem-se a impressão de que com muito trabalho e persistência é possível ter alguma chance em Nova York. O livro não poderia funcionar também como um incentivo a potenciais imigrantes, embora esse não seja seu objetivo?
T.M. – Ele pode ser um incentivo, sim. Mas também pode desmistificar aquela idéia de que tudo é glamour, tudo é dólar e tudo é fácil. Acho que a sinceridade destes relatos mostra todos os lados da moeda – e são mais de dois!
Uma conhecida frase de Tom Jobim abre o livro: "Morar em Nova York é bom, mas é uma merda. Morar no Rio é uma merda, mas é bom." De alguma maneira, você discordaria de Tom?
T.M. – É a frase mais sábia que ele disse! A gente vive comparando uma terra e outra. E ele resumiu de uma forma brilhante. Por exemplo, eu morro de saudades da praia do Leblon, da informalidade, dos sorrisos, da família. Por outro lado, o Brasil te exige carteira de identidade, CPF, PIS, título de eleitor, carimbos de cartório (tudo isso apenas para você perder tempo e dinheiro – não há função nenhuma, a não ser empregar gente nos empregos públicos). Que coisa arcaica! Aqui, nos EUA, você tem apenas o seu número do social security e pronto. Também fico ofendida no Brasil a cada vez que tenho que preencher meus dados no verso do cheque – é o país da desconfiança. Por outro lado, nos EUA o pessoal da imigração também é emburrado. É disso que o Tom falava. O Vik Muniz fala sobre isso no livro. Segundo ele, não existe este Shangri-La.
Um aspecto curioso do livro é o contraste entre o "jeitinho" e a desorganização estrutural no Brasil e a competitividade e o profissionalismo em Nova York. Como você vivencia essas diferenças em seu trabalho como jornalista freelance?
T.M. – O Brasil tem tanto para oferecer, é um país tão rico – é uma pena que tanta gente boa saia de lá para refazer a vida fora por causa da falta de oportunidades e desorganização, como você falou. Acho que o país ainda não se deu conta da perda desta força motriz que sai com cada imigrante. Neste aspecto, eu já sou nova-iorquina há anos. Por exemplo, em Nova York tem-se respeito pelo tempo do outro. E isso é uma coisa que eu não me acostumo mais no Brasil. O descompromisso e o pouco caso me irritam – deve ter um monte de gente que me acha chata. Aqui, se você não tiver pontualidade na hora de chegar a uma entrevista, na hora de responder a uma mensagem ou telefonema, você está fora. E é por isso que a cidade funciona. Ninguém perde tempo tendo que pedir duas vezes. Até na hora de redigir um e-mail as pessoas esperam praticidade. Pode até se tornar numa coisa fria, mas é trabalho. E no trabalho eles não brincam.
Como é o seu cotidiano de jornalista freelance vivendo no centro do mundo? Como é sua relação com os editores brasileiros?
T.M. – Não tenho rotina – trabalho em casa e saio para entrevistas, palestras, ou cursos. A cidade é o meu escritório. Ontem mesmo fui ao New York Times assistir a uma palestra com colunistas que escrevem sobre Nova York. Tento absorver o máximo da cidade. Já a relação com meus editores é o pilar do meu trabalho. Tenho os prediletos, claro – são normalmente os que têm uma visão de mundo um pouco mais ampla, então não preciso me esticar ao propor uma pauta. Sempre brinco que tenho uma "dupla vida de Véronique", como no filme francês. Porque da mesma forma que convivo com os brasileiros, via e-mail, convivo bem com os norte-americanos. Tenho ótimas relações com alguns assessores de imprensa e com as pessoas que eventualmente se envolvem em alguma matéria.
O pós-11 de setembro dificultou de algum modo sua atuação como jornalista em Nova York?
T.M. – Não. Pelo contrário, na época fomos os que mais trabalhamos, tirando os bombeiros e médicos. Mas acho que, diplomaticamente, o visto dado a jornalistas brasileiros passou a valer apenas um ano – o pessoal tem que ir ao Brasil todos os anos para renovar o visto. Tenho passaporte alemão, então não passo por isso.
E a convivência entre os nova-iorquinos? Dizem que as pessoas se tornaram mais solidárias após a tragédia do World Trade Center...
T.M. – Sim, mas apenas no dia 12 de setembro. No dia 13, todo mundo voltou a olhar para o seu próprio umbigo novamente. Essa é uma piada que se fala por aqui. Mas é verdade!
Se você retornasse hoje para o Brasil, o que gostaria de levar de Nova York? E o que não levaria de jeito nenhum?
T.M. – Certamente levaria as fotos dos momentos incríveis que vivi aqui, os livros que comprei e utensílios para casa e cozinha, que são de primeira qualidade – até porque meu namorado é chef. Levaria também o profissionalismo, a experiência multicultural e o caderninho de telefone, porque o que mais vale nesta vida são os contatos e os amigos. Não levaria o inverno, de jeito nenhum. Acho que nunca poderia morar em Porto Alegre.
Se você fosse definir Nova York numa palavra, qual seria?
T.M. – Energia.
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[+] David Toscana ganha prêmio de narrativa da Casa de las Américas
09.03.2008

09.03.2008
O exército iluminado garantiu a David Toscana o prêmio de narrativa José María Arguedas, da prestigiosa instituição cubana Casa de las Américas. O prêmio foi conferido a Rubem Fonseca, em 2005 e António Skármeta em 2003, entre outros. Segue um trecho da justificativa dos jurados: "Después de evaluar los libros nominados, la Casa de las Américas decidió otorgar el Premio de narrativa José María Arguedas, por recuperar uno de los conflictos más intensos de su país a través del delirante relato de unos seres insignificantes decididos a cambiar la historia, a la novela El ejército iluminado,de David Toscana (México).
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[+] Um símbolo com passado e futuro
O Globo, Prosa & Verso
André Luis Mansur
08.03.2008
O Globo, Prosa & Verso
André Luis Mansur
08.03.2008Obra lembra as histórias e a importância do Jardim Botânico desde sua criação
Símbolo dos mais marcantes da presença do príncipe regente D. João no Rio de Janeiro, há 200 anos, o Jardim Botânico permanece como uma das maiores atrações turísticas da cidade. E Rosa Nepomuceno, autora de “O jardim de D. João”, que freqüenta o lugar desde a infância, conta essa história dando ênfase aos cientistas que passaram por lá e fizeram do espaço no coração da Zona Sul carioca um dos mais queridos da cidade. D. João, uma espécie de “Nabucodonosor dos trópicos”, mandou adquirirem o terreno onde ficava o engenho de Rodrigo de Freitas — às margens pantanosas e infestadas de mosquitos da lagoa que mais tarde levaria o nome do antigo dono da fazenda — em decreto do dia 13 de junho de 1808. Ali seriam instalados o Real Horto e a Real Fábrica de Pólvora. Sem estradas ou trilhas decentes, aquela região era completamente inóspita para os cariocas, que se concentravam na área central da cidade. Para mostrar como o Real Horto se desenvolveu, Rosa utiliza um termo que não existia na época: a biopirataria. Afinal, o roubo de mudas e sementes era mais do que comum e o horto foi criado por razões puramente econômicas, pois D. João, influenciado pelo ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares, queria criar um jardim de aclimatação para as especiarias, tão preciosas na Europa e que eram buscadas na distante Índia. As especiarias, como o cravo, pimenta e a canela, eram fundamentais para a conservação dos alimentos numa época sem geladeiras ou isopores.
Nas grandes navegações, elas eram fundamentais para que a carne, já de qualidade duvidosa, não estragasse de vez. Das primeiras plantas, chegadas em 1809 contrabandeadas pelo oficial Luís de Abreu e Paiva, até os dias atuais, quando o Jardim Botânico, ocupando área bem inferior à original e sofrendo a ação contínua dos “gafanhotos” (visitantes que insistem em degradar o local), Rosa cita diretores importantes como Frei Leandro do Sacramento, Barbosa Rodrigues, Pacheco Leão. Cita também botânicos que se aventuraram pelo Brasil e no exterior em busca de mudas e sementes que enriqueceriam o arboreto do jardim, como Freire Allemão, Carl von Martius, Johann von Spix e Auguste Saint-Hilaire. Todos fundamentais para que o jardim se desenvolvesse de forma harmônica e seguindo preceitos científicos e não apenas econômicos.
Histórias como a do cultivo do chá, feito por 300 chineses que não revelavam sua técnica a ninguém, e que depois seria transferido para a Fazenda de Santa Cruz; a visita de Albert Einstein em 1926, quando, segundo dizem, ele teria abraçado e beijado um pé de jequitibá-rosa, dão uma leveza ao texto e o equilibram com as informações mais técnicas, indispensáveis a um estudo deste porte. Ao mesmo tempo em que conta a história do jardim, a autora o insere na evolução urbana da cidade, que em meados do século XIX começa a se acelerar, principalmente após a chegada dos bondes e diligências, que levou mais gente e, com isso, mais problemas, àquela região ainda meio selvagem. O mais importante neste livro, que conta com uma descrição detalhada das principais árvores, é valorizar não apenas o aspecto estético e a importância turística do Jardim Botânico, mas principalmente o seu caráter de espaço de estudos científicos, reunindo profissionais do mais alto nível e contando, graças também ao forte apoio de empresas particulares, com equipamentos de última geração. Este trabalho invisível aos visitantes é que talvez dê ao antigo “jardim das especiarias” de D. João o suporte necessário para que ele passe dos 200 anos cada vez mais rejuvenescido.
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[+] Escritora brasileira lança livro em NY
Brazilian Voice
06.03.2008Brazilian Voice
06.03.2008O exemplar “Nova York do Oiapoque ao Chuí” conta histórias de imigrantes
A Editora Casa da Palavra e Galeria Latincollector convida toda a comunidade brasileira nos EUA para prestigiar o lançamento do livro intitulado: “Nova York do Oiapoque ao Chuí”, da escritora Tânia Menai. Além da autora, também vão estar presentes a ilustradora Joana Penna e alguns personagens do livro. O evento vai acontecer no dia 6 dia março, próxima quinta-feira, das 6 às 9pm, no Latincollector 37 W 57th – 4º andar.
“Nova York do Oiapoque ao Chuí”
A autora Tânia Menai conta no seu site (www.nychui.com), que o livro nasceu depois de anos de vivência em New York, “trabalhando como jornalista senti que a mídia não dava muito espaço às histórias de imigrantes brasileiros. O que saía em jornais ou revistas eram casos extremos, e o cotidiano desses brasileiros? O que lhes fazem deixar a casa, o cafezinho e a comida da mãe para enfrentar a cidade mais competitiva do mundo? Sentem saudade? Solidão? Quais são seus maiores desafios? Querem voltar para o Brasil? O que Nova York lhes ensinou? E vice-versa”, explica ela.
A jornalista diz que foi atrás destas respostas buscando personagens pela cidade e conta que estabeleceu três critérios: ter profissões diferentes entre si, morar na cidade de Nova York e não pertencer ao seu grupo mais íntimo de amigos. “Alguns eu já conhecia, mas outros foram indicados por conhecidos. Todos, sem exceção, receberam o projeto sorrindo.
Talvez seja a necessidade de ser ouvido e ter com quem compartilhar tantas experiências. Achar tempo na agenda desta gente foi missão quase impossível, mas entrevistei cerca de 30 pessoas.
Por questões de espaço, apenas 23 deles entraram no livro”, revela Tânia.
De acordo com a escritora, os entrevistados tiveram liberdade de escolher o local para o bate-papo e para as fotos (tiradas em dias diferentes aos da entrevista). Não houve pré-entrevistas, cada um foi ouvido uma vez. Os relatos são todos escritos em primeira pessoa, mantendo, inclusive, as palavras em inglês, coisa que faz parte da fala de todos. “Meses depois, convidei para o projeto a ilustradora Joana, que também mora em Nova York. Numa bela tarde, sentadas no chão de uma livraria, tivemos a idéia de ela pintar a quadra onde cada personagem mora ou trabalha. Tudo isso foi brilhantemente paginado pela Sylvinha, que vive no
Rio de Janeiro, conta ela.
Sobre a escritora
Tânia Menai colabora para revistas como Veja, Exame, piauí, Bravo!, Super Interessante, Viagem e Turismo e Expressions. É autora do blog “Só em Nova York“ no site da revista Trip e de uma coluna mensal na revista TPM. Ela já colaborou para a Rádio CBN e o site NoMínimo, e integrou a primeira equipe do Wall Street Journal Americas. No ano 2000, recebeu o Prêmio Abril e em 2006, publicou seu primeiro artigo no The New York Times. Formada pela PUC-Rio e com cursos na New York University, já entrevistou Steven Spielberg, Rudolph Giuliani, Shimon Peres, Umberto Eco, Larry King, Kurt Masur, Carlos Santana, Gael García Bernal, Adrien Brody, além de vencedores do Prêmio Nobel e CEOs de grandes corporações. -
[+] O que se esconde no íntimo
Diário Catarinense
Dorva Rezende
28.02.2008Diário Catarinense
Dorva Rezende
28.02.2008Coletânea de contos Freud e O Estranho foi organizada por Braulio Tavares
Um dos principais escritores e críticos de ficção científica e poesia do Brasil, Braulio Tavares vem organizando, nos últimos anos, para a editora carioca Casa da Palavra, a coleção Contos Fantásticos, com narrativas que se tornaram célebres (ou mesmo relatos pouco conhecidos, mas importantíssimos) por transitar pela fronteira entre o real e o imaginário.
O primeiro volume foi Páginas de Sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), uma seleção de incríveis histórias de autores nacionais que contemplam o absurdo, a fantasia, o horror, o irreal, impressões de mundos estranhos, ilógicos, que tentam descobrir um país com narrativas que não necessariamente precisam se ater ao nosso tão presente e constante realismo. E o time de autores fantásticos selecionados por Braulio Tavares não era nada desprezível: Machado de Assis, Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Carlos Drummond de Andrade, Humberto de Campos, Lygia Fagundes Telles, Murilo Rubião, Orígenes Lessa, Berilo Neves e André Carneiro, o decano da ficção científica brasileira, entre outros.
A segunda coletânea organizada para a Casa da Palavra, publicada em 2005, trouxe os autores que influenciaram, de alguma maneira, a obra do mais famoso escritor argentino. Contos Fantásticos no Labirinto de Borges reuniu histórias de escritores que ou estavam presentes na estupenda Antología de la literatura fantástica, que Jorge Luis Borges organizou para a Editorial Sudamericana, na metade da década de 1960, junto com os amigos Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, ou faziam parte de suas leituras habituais. Textos que auxiliaram Borges a criar os seus labirintos literários, os seus jardins dos caminhos que se bifurcam, o seus alephs que continham todo um universo feito de imagens e memórias. Peças de autores como Ambrose Bierce, Leon Bloy, Nelson Bond, Marcel Schwob. H.G. Wells (um dos preferidos do argentino), G.K. Chesterton, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, May Sinclair, Ellery Queen, Ray Bradbury, Arthur Machen, Lord Dunsany, Don Juan Manuel.
Narrativas que provocam desconforto no leitor
O projeto do terceiro volume da coleção foi ainda mais ambicioso. Freud e O Estranho: Contos fantásticos do inconsciente tem como ponto de partida o texto O Estranho (Das Unheimlich), de 1919, uma análise feita por Sigmund Freud do conto O homem de areia, do escritor, músico e crítico alemão E.T.A. Hoffmann (1776-1822), que, como não poderia deixar de ser, foi incluído na coletânea.
Heimlich, em alemão, significa doméstico, familiar, confortável, aconchegante. Exacerbando o sentido da palavra, heimlich também pode ser algo secreto, oculto, escondido dentro da casa, longe do conhecimento de alguém. Unheimlich seria, portanto, o não-familiar, algo que exprime, nas palavras do pai da psicanálise, "tudo aquilo que faz alguém se sentir pouco à vontade no mundo de nossa experiência normal, aquilo que não merece confiança, que é misterioso, esquisito, desconfortavelmente estranho".
A seleção de contos que provocam este desconforto, despertam o que está inconsciente, feita por Braulio Tavares, inicia com o relato O papel de parede amarelo, da norte-americana Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), uma das primeiras feministas, que se suicidou ao fim da luta contra um câncer. Conto de terror de inspiração gótica, narra a história da desagregação mental de uma mulher que se instala numa mansão vitoriana e começa a enxergar padrões difusos e fantasmagóricos no papel de parede da casa.
A casa assombrada também aparece no conto A aranha, do alemão Hans Heinz Ewers (1871-1943), numa variante do tema, o da casa fatídica, na qual ninguém pode permanecer sem que algo terrível lhe aconteça (um argumento muito utilizado nos filmes de terror atuais). Imigrante irlandês que lutou e morreu na Guerra da Secessão, Fitz-James OBrien (1828-1862) escreveu alguns dos primeiros contos de ficção científica e, no mais famoso deles, A lente de diamante, ele descreve o cinema pelo menos 50 anos antes de sua invenção. Em O quarto perdido, um desregrado boêmio (algo de autobiográfico está presente no conto) vê transfigurarem-se os objetos que estão à sua volta, o espaço íntimo se altera, abrindo-se brechas na parede que permitem o acesso a um espaço transdimensional. No conto de OBrien, a casa (o quarto) é a mente que segue por estranhos labirintos regidos por leis próprias e desconhecidas.
Em A máscara de prata, do britânico Hugh Walpole (1884-1941), a casa de uma mulher solitária é invadida e tomada pela família e pelos rudes amigos de um jovem pintor, e ela acaba prisioneira em seu próprio lar. Autor de O Golem (romance que inspirou um poema de Borges), sobre a lenda judaica do homem-escravo feito de barro, o vienense Gustav Meyrink (1868-1932) comparece com o fantástico conto O mestre, que condensa em sua estrutura quatro tipos de material narrativo - saga familiar, terror gótico, revelação mística e romance picaresco - , e no qual o autor-narrador adota o presente narrativo para reproduzir o estado mental do protagonista, um jovem nobre que resolve fugir da opressão da mansão familiar, para quem o fluxo do tempo se detém.
O homem de areia, de Hoffmann, em que o personagem de uma inocente história infantil adquire outras (e estranhas) personalidades, tem uma estrutura fragmentada, moderna, com pequenas histórias que se sucedem e que são características da fase mais moderna do Romantismo alemão, uma propensão ao fantástico, à metalinguagem e a relação com a tecnologia, tendências literárias que seriam muito exploradas desde então. Os demais contos do livro também abordam temas que nos levam para além da lógica cotidiana. Entre os mais famosos, estão A pele vermelha, de Bram Stocker (autor de Drácula), e Uma aparição, de Guy de Maupassant. Segundo Braulio Tavares, o fantástico e o inconsciente são vasos comunicantes, uma vez que a psicanálise e a literatura compartilham um mesmo solo comum, a linguagem. -
[+] Os Pichicegos
Entrelinhas, TV Cultura
Joca Reiners Terron
15.02.2008Entrelinhas, TV Cultura
Joca Reiners Terron
15.02.2008Em 1982, há 25 anos atrás portanto, ocorreu a Guerra das Malvinas, tentativa frustrada por parte do governo militar argentino do General Leopoldo Gualtieri de recuperar terras ocupadas à força pelo Reino Unido em 1883 e de ganhar alguma sobrevida para o regime militar então enfraquecido.
A derrota terminou colaborando para a restauração da democracia como forma de governo, mas também deixou marcas na já bastante trágica alma de nossos vizinhos. Não custa também lembrar que em 1983 a vitória britânica reelegeu a conservadora Margaret Thatcher ao Parlamento inglês.
Existe, porém, quem nunca tenha caído no teatro farsesco montado pelos militares liderados por Galtieri. Em “Os pichicegos”, escrito em 1982 e publicado somente anos depois, Rodolfo Fogwill constrói uma demolidora história de ceticismo em relação aos sentimentos patrióticos de ocasião que conduziram a Argentina à guerra.
Os estranhos animais do título, os “pichicegos”, são parentes do tatu, aquele bicho de carapaça que vive enfiado em buracos dentro da terra. E é assim que também vivem os “pichis”, um grupo de desertores do exército argentino: debaixo da terra coberta pela neve que cai abundantemente naquelas regiões austrais.
Sem nenhum apelo aos sentimentos típicos despertados pelas guerras, tais como honra e lealdade, os “pichis” só pensam numa única coisa: em sobreviver. Para isto apelam a todos os expedientes, desde se livrarem de companheiros doentes até negociarem “num mercado quase inverossímil em que se trocam ações de espionagem ou intervenções bélicas por pilhas para lanternas, cigarros e rações.”
É o que afirma Beatriz Sarlo no prefácio ao livro, texto crítico publicado 12 anos após a primeira edição e que resgatou a obra de Fogwill diante da opinião pública de seu país:
“Os pichis são uma colônia de sobreviventes dos quais se ausentaram todos os valores, exceto aqueles que podem se traduzir em ações que permitam conservar a vida. Se o nó da guerra é liquidar o inimigo, o nó da colônia pichi é evitar, a qualquer preço, que isso aconteça com os membros da colônia.”
É certo que em “Os pichicegos” nem mesmo as traições são levadas a sério pelos desertores. Como não reconhecem entre si nenhum traço de nacionalidade que os una — há até mesmo um uruguaio entre eles, recrutado por equívoco —, eles também não carregam o peso de nenhuma culpa.
É tal o desespero em “Os pichicegos” que até mesmo a eterna rivalidade com o Brasil é desprezada. Numa passagem do livro, os soldados conversam sobre o que mais gostariam de fazer. Os anseios são parecidos: sexo, rever os parentes e churrascos. Até que um deles se sai com o seguinte:
“— Ser brasileiro.
— O quê: negro?” — outro diz.
— Qualquer coisa. Mas brasileiro!”
Assim como a guerra e a boa literatura, “Os pichicegos” não é um romance feito de bons sentimentos. -
[+] Contos do inconsciente
Le Monde Diplomatique
Gregório Dantas
15.02.2008Le Monde Diplomatique
Gregório Dantas
15.02.2008Foi provavelmente a partir do sucesso da antologia organizada por Ítalo Moriconi, Os 100 melhores contos brasileiros do século (Editora Objetiva, 2000) que as antologias de contos viraram moda no mercado editorial brasileiro. Não que haja algo de errado com isso, muito pelo contrário: essas antologias, quando bem organizadas, são meios importantes para a divulgação de literatura de qualidade. [...]
Neste contexto, Bráulio Tavares tem feito um trabalho bastante interessante com a Editora Casa da Palavra. Sempre com ilustrações de Homero Cavalcanti, Tavares organizou, primeiramente, Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), cujo maior mérito é recuperar textos quase esquecidos, como “Os olhos que comiam carne”, de Humberto de Campos, e colocá-los ao lado de autores contemporâneos, como Rubens Figueiredo e Heloísa Seixas. O resultado é um panorama que, mesmo sem ser exaustivo, dá uma boa mostra das diferentes vertentes do fantástico nacional.
Depois, veio uma idéia à primeira vista inusitada: recolher, em uma antologia, contos cujos temas se aproximassem do universo literário de Jorge Luís Borges. O livro, Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005), é muito bom e, de fato, consegue achar uma linha de contato entre contos de diferentes épocas, que representassem algumas das leituras mais caras a Borges: de Edgar Allan Poe a Franz Kafka, passando por Hawthorne e Chesterton.
Mas o título do último livro organizado por Bráulio Tavares é ainda mais inusitado: Freud e o estranho – contos fantásticos do inconsciente. O tema, agora, é o célebre ensaio “O estranho” (“Das Unheimlich”, 1919), em que Freud analisa o conto de E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia”. Tavares reúne, então, histórias anteriores ou contemporâneas de Freud e que desenvolvam temas presentes no referido ensaio. Como sempre, estão reunidos alguns grandes autores, como o próprio Hoffmann, Guy de Maupassant e Arthur Schnitzler, e contistas menos conhecidos, como Charlotte Perkins Gilman e F. Marion Crawford.
Gênero amplo
Em seu prefácio, Bráulio Tavares explica que o termo “inconsciente”, tendo se popularizado imensamente, pode abranger um número muito variado de histórias. Essa amplitude está presente também na própria acepção de “literatura fantástica” utilizada aqui: ao contrário do que pregam alguns teóricos, para os quais o fantástico é um gênero datado e com regras bastante definidas, Tavares toma o gênero em sentido mais amplo, entendendo como fantástica “qualquer modalidade não realista da narrativa”, o que inclui contos de fada, a ficção científica, além dos contos de terror propriamente ditos. Essa amplitude é, na verdade, um índice de liberdade criativa:
Como a linguagem dos sonhos, o Fantástico se permite qualquer tipo de livre associação, deslocação, condensação de imagens ou de cenas, paradoxos do tempo e do espaço, de acordo com a intuição do autor. Permite lidar com criaturas, lugares e circunstâncias inexistentes em nosso mundo cotidiano. Nesse sentido, o Fantástico não é uma fuga ou um recuo diante do Realismo, mas um passo além, contando histórias que o Realismo não pode contar pela sua limitação auto-imposta.
Não à toa, Freud recorre à literatura fantástica para descrever “o estranho”, “aquela categoria de assustador que remete ao que é conhecido, velho, e há muito familiar”. Bráulio Tavares, porém, deixa de lado as análises psicanalíticas e se preocupa em elencar aqueles temas nos quais, segundo Freud, o Estranho pode ocorrer com mais freqüência: o retorno do reprimido, a indefinição entre fantasia e realidade, a loucura, o sonho, membros decepados que tomam vida, o retorno dos mortos, as repetições inexplicáveis, o autômato e sua semelhança com o homem.
Deste vasto repertório, o tema mais comum da coletânea é a animação de objetos supostamente inanimados. O resultado é irregular, e algumas vezes bastante ingênuo, como no caso de “Inexplicável”, de L. G. Moberly: uma mulher conta como ela e o marido são assombrados por uma mesa, entalhada com imagens de crocodilos, e que exala um cheiro forte de pântano. Aparentemente, uma das formas de madeira toma vida. Efeito semelhante é provocado pelo primeiro conto do livro, “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman, que também trata de um casal mudando-se para uma nova casa. Como convém ao gênero fantástico, ele é um médico, cético, que “não tem paciência para crenças, odeia superstições e ridiculariza abertamente qualquer conversa envolvendo coisas que não podem ser vistas e traduzidas em números”, enquanto ela ― que narra a história em um diário ― sofre de alguma perturbação psicológica que o médico define como histeria, e que a torna suscetível ao inexplicável. E, neste caso, o sobrenatural manifesta-se através de um estranho papel de parede, cujos desenhos escondem formas humanas. Mais especificamente, imagens de uma ou de várias mulheres rastejando, forçando sua saída para fora do desenho. A leitura mais evidente para o conto é feminista, com a imagem do papel de parede metaforizando a condição da narradora.
Contos inofensivos
Algumas histórias, como estas, trazem clichês bastante evidentes. No conto “Anima” ― na verdade uma história bastante interessante, apesar de um ou outro lugar comum ― um dos personagens conclui deste modo a reflexão sobre a existência de um “ghoul”, um espírito maligno: “Posso acreditar que não exista nenhum em Rhode Island ― o cônsul disse. ― Estamos na Pérsia, e a Pérsia fica na Ásia”. É bastante comum nos contos fantásticos que os eventos sobrenaturais transcorram em locais distantes do imaginário europeu, o que não é necessariamente ruim, e pode ser literariamente eficiente (é claro que esse artifício respeita uma noção de “exótico” muitas vezes datada e caricata, comum no discurso colonialista). Mas expor didaticamente esse procedimento equivale a transformá-lo naquilo que o próprio organizador, evocando a opinião de Freud, chama de “fórmulas que um leitor experimentado podia perceber num relance”. Quanto mais evidente a fórmula do conto, mais “domesticado” e inofensivo o efeito de estranhamento, menos perturbador o efeito do fantástico. Lembremo-nos que a maioria os contos da antologia é da virada do século 19 para o 20, quando as formas do conto fantástico já estavam cristalizadas há muito no imaginário do leitor. No já citado conto “Inexplicável”, a ingenuidade chega a ponto da personagem narradora se dirigir diretamente ao leitor, supostamente “estimulando-o” com uma interrogação: “Você consegue encontrar alguma explicação?”.
Há contistas, porém, que conseguem provocar um efeito de terror bastante eficiente a partir de conflitos aparentemente ingênuos. Como no caso do conto de Bram Stocker, “A pele-vermelha”, em que um evento banal ― a morte acidental de um filhote de gato ― provoca desdobramentos e um desfecho impressionante. O mistério do conto está na sugestão de que a gata vingativa esteja tomada pelo espírito de um índio pele-vermelha, capaz da vingança mais cruel. O resultado é sangrento, destoante do tom idílico do começo da história: na gradual transição entre o idílico e o horrível é que se encontra a qualidade do conto.
Em outros casos, a saída é o humor. Este parece ser o caso de “A caveira que gritava”, de F. Marion Crawford (ainda que o humor talvez não seja de todo proposital) e, principalmente, “A besta de cinco dedos”, de William F. Harvey, uma pérola do humor negro. A besta do título é, obviamente, uma mão decepada, a materialização de um tema muito em voga no início do século 20, a escrita automática (proposta pelos surrealistas) e a dissociação mental. O diretor da adaptação cinematográfica chegou a ser acusado de plágio por Luis Buñuel, para quem o tema da mão decepada era bastante caro.
Merecem destaque ainda os contos de Maupassant e Schnitzler, este último conterrâneo de Freud, com quem manteve uma relação de amizade e correspondência. Em uma carta curiosa reproduzida por Tavares, Freud explica a Schnitzler que havia evitado sua companhia por temer encontrar-se com seu duplo. Freud reconhecia nas criações do escritor muito do seu próprio pensamento sobre o inconsciente, as convenções sociais, a relação entre amor e morte. Pode-se dizer que a obra de Schnitzler despertava no pai da psicanálise uma sensação de estranha familiaridade.
Clássicos inesquecíveis
Freud e o estranho – contos do inconsciente, não é, enfim, tão bom quanto seu antecessor, Contos fantásticos no labirinto de Borges. Neste, mesmo nos contos mais fantasiosos, como os de Ray Bradbury e H. G. Wells, havia um efeito de fantástico bastante incomum, que fugia dos clichês do gênero. Mas a presente antologia, mesmo sendo mais irregular, não deixa de ser interessante. Em primeiro lugar, pela caprichada apresentação do volume, com notas bastante explicativas acompanhando os contos, além de comentários reunidos ao final do volume. Neste aspecto, a cultura “fantástica” do organizador se destaca, quando ele traça interessantes relações entre autores distantes, como Julio Cortazar e Hugh Walpole, E. T. A. Hoffmann e Philip K. Dick, Cleveland Moffett e Guimarães Rosa. Além disso, a antologia pode ser muito útil aos leitores de Freud, considerando que reúnem alguns contos citados em “O estranho”, como “A aranha” e “Inexplicável”, história que sequer é nomeada por Freud, mas cujo enredo lhe serve de exemplo.
Mas, acima de tudo, como acontece nos melhores contos fantásticos, há certas imagens que, finda a leitura do volume, deverão acompanhar o leitor: a aparição do conto de Maupassant, “A máscara de prata” velando pelo sono tumultuado de sua proprietária, a misteriosa moça à janela em “A aranha” e, claro, os olhos arrancados do autômato em “O homem de areia”, sem dúvida um clássico absoluto do fantástico, e o melhor texto desta antologia.









