• RSS

Notícias

  • Comer bem: Um fio de Azeite, de Rosa Nepomuceno

    [+] Comer bem: Um fio de Azeite, de Rosa Nepomuceno

    Blog Deixa sair
    Sônia Hirsch
    17.04.2010

    Blog Deixa sair
    Sônia Hirsch
    17.04.2010

    enviar para um amigo

    A moça da foto é a jornalista Rosa Nepomuceno, expert em ervas e especiarias e, modéstia à parte, minha amiga da vida inteira, que acaba de lançar o livro Um fio de azeite (Casa da Palavra/Senac) - e não é por outra razão que aparece acariciando folhas de oliveira na região da Toscana, Itália.
     
    Rosinha fez uma viagem para fazer o livro, olha só que maravilha. Saiu com o amigo e chef Marcelo Scofano fuçando, anotando, fotografando, comendo e depois organizou tudo num trabalho que se lê babando. 
     
    Só para vocês terem uma ideia: "O mundo do azeite tem vocabulário próprio, bastante rico. Diz-se que um óleo é frutado suave, médio ou intenso, adocicado, amendoado, amargo, picante, fresco, maduro, rústico, elegante, delicado, leve, harmonioso,equilibrado, desequilibrado, robusto, espesso, fino. Associam-se aromas e sabores não apenas ao das azeitonas, mas também às percepções 'de fundo', que os italianos chamam de retrogusto - a ervas, folhas secas ou mato recém-cortado (diz-se 'herbáceo'), a flores ('floral'), vegetais (tomate, alcachofra), frutas (maçã verde ou outra fruta madura, até mesmo banana ou frutos secos, como amêndoas e avelãs)."
     
    Faz lembrar a minúcia sensorial da degustação de vinhos e tem até copinho próprio para degustar. Mas, ao contrário dos vinhos, azeite bom é azeite novo. E aí se esclarece um ponto sempre nebuloso para nós, leigos: a acidez do azeite aumenta com a passagem do tempo. O ideal é consumi-lo num prazo de dois anos. Assim, aquela garrafinha linda e caríssima com azeite extravirgem de acidez 0,1% que você está guardando há tempos no armário já pode estar com muito mais acidez do que um azeite vagaba ali da esquina.
     
    Outro ponto que Rosa esclarece muito bem: azeite pode perfeitamente ser aquecido até a temperatura de 180oC sem perder suas qualidades. Acima disso faz fumaça, e qualquer gordura que faça fumaça já dançou, é jogar fora e começar de novo. Ela diz que os extravirgens são bem adaptáveis às altas temperaturas, "por sua resistência, estabilidade química e alto conteúdo de antioxidantes, mas para as frituras pode-se utilizar o sansa". Sansa, explica, é a palavra italiana para definir a massa formada por caroços e peles das azeitonas e resíduos do óleo (de 3 a 6%) que ficam nas mós (de pedra) ou máquinas de prensagem; após um duplo refino o óleo é misturado com azeite virgem e apresenta, nesse momento, acidez de 0,5%.
     
    Recomendações importantes, entre muitas outras: na hora da compra, escolha o azeite mais jovem e dê preferência aos que são engarrafados na origem, em vidro escuro.
     
    Um livro para ler degustando e presentear como se presenteia um bom azeite. De quebra, uma epígrafe que não posso deixar de copiar aqui: "O êxito não depende da sorte, depende da escolha feita. O êxito é um caminho, não um destino."

  • A bela cantada

    [+] A bela cantada

    Carta Capital
    Carlos Leonam e Ana Maria Badaró
    01.03.2010


    Carta Capital
    Carlos Leonam e Ana Maria Badaró
    01.03.2010

    enviar para um amigo

    "O Rio é uma das cidades mais cantadas do planeta. Talvez, perca somente para Paris. O misticismo da capital francesa também fez sucumbir compositores brasileiros, mas não sem clara ironia: – "Paris, Paris je t’aime/, mas eu gosto mais do Leme". A rima impagável é do carioca Alberto Ribeiro e do mineiro Alcir Pires Vermelho.

    Essa é uma das curiosidades de Canções do Rio (Casa da Palavra, 134 págs., R$ 37), livro coordenado pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho. A obra oferece cinco verdadeiras aulas de geo-política musical carioca. A leitura é tão prazerosa como ligar uma vitrola e, com um vinil caindo sobre o outro, deixar tocar o que há de melhor. Em hi-fi.

    A história da moderna música brasileira começa no início do século XX. Até então, fazia-se música no Rio, mas não sobre o Rio, seus bairros, morros, favelas, praias e sua gente. Como inspiradora, a cidade encontra registros nos primórdios dos anos 1900, seguida da chamada "era de ouro", das marchinhas, samba, bossa nova, pop, funk e rap.

    Herivelto Martins, Benedito Lacerda, João de Barro, Paulo da Portela, Tom Jobim, Moacyr Luz, Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Tim Maia, Claudinho e Buchecha e Marcelo D2 são, em diferentes tempos e gêneros, alguns dos trovadores das belezas e mazelas da cidade. Ordenados cronologicamente, os ensaios são de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Suckman e Silvio Essinger.

    Ao fim da leitura de cada módulo é difícil desligar a vitrola na nossa cabeça. E passamos o dia, senão vários dias, sob o domínio de canções que viraram instituições nacionais e internacionais. E descobre-se que André Filho tomou emprestado do poeta maranhense Coelho Neto a expressão "cidade maravilhosa" para compor aquela que de tanto ser a cara do Rio foi eleita seu hino oficial.

    Mas, dentre tantas, que música tem a cara do Rio? Por mais referências à cidade nas obras que entraram para a história da MPB cada um pode fazer a sua listinha interminável. Como os perfumes e os sabores, a música reconstrói lugares, devolve momentos e ressuscita pessoas, principalmente se morreram – de uma forma ou de outra. Tem gente que adora dizer "fulano morreu para mim." Pois sim. Está vivinho só que não dá a menor bola para quem anuncia o defunto.

    Esses solavancos n’alma causados pela música ocorrem quase sempre à revelia. A pessoa não tem querer. Já entrou num táxi e escutou no rádio uma música que deposita o passado no presente, ali na sua frente? E sobre o asfalto quente da cidade em pleno meio-dia de um verão à 2010 começa uma dança perturbadora. Putz! Desliga isso, motorista. Ou aumenta isso, meu caro, e silêncio, por favor.

    Um beijo bom de sol
    O tema é a música e a cidade. Pois nenhum grupo cantou tanto o Rio como Os Cariocas chamando pelo nome a musa ou lhe rendendo honras com notas de sol e de mar. Criado em 1946, o grupo, sempre aberto às tendências musicais, foi um dos principais intérpretes da bossa nova e nos anos 60 era certeza de sucesso, gravando Tom, Baden, Carlos Lyra, Menescal e os irmãos Valle, entre outros tops da MPB.

    Os Cariocas, liderados pelo talento de Severino Filho, remanescente da formação original, voltam com um novo álbum neste fevereiro mais que solar. Nossa Alma Canta, clara alusão a Samba do Avião, de Tom Jobim, traz 15 faixas clássicas, jamais gravadas pelo hoje quarteto completado por Hernane Castro, Neil Teixeira e Elói Vicente. Destaque para E nada Mais, do saudoso Durval Ferreira e Lula Freire, e Estrada do Sol, de Tom e Dolores Duran. Neste CD, Os Cariocas ainda sacramentaram as visitas de João Donato, Milton Nascimento, Eumir Deodato e Roberto Menescal. "

     

     

  • Maravilhosa e inspiradora de composições

    [+] Maravilhosa e inspiradora de composições

    Veja Rio
    Livia de Almeida
    02.02.2010

    Veja Rio
    Livia de Almeida
    02.02.2010

    enviar para um amigo

    No livro Canções do Rio, os jornalistas Sérgio Cabral, Ruy Castro, João Máximo, Silvio Essinger e Hugo Sukman, mais o compositor Nei Lopes, fazem um apanhado da produção carioca. Quatro deles destacam a musica emblemática do tema que abordam na obra.

    Nei Lopes (samba) — No fundo do Rio, de Nei Lopes e Guinga
    “Ela foi feita com um misto de paixão e bronca. Moro há dez anos em Seopédica e de lá vejo o Rio com olhos mais realistas. É uma cidade bonitinha e má, que joga suas mazelas para a periferia.”

    Hugo Sukman (MPB dos anos 60 aos 90) — Tiro de misericórdia, de João Bosco e Aldir Blanc
    “É uma canção pioneira. Ainda em 1977, quando ninguém falava disso, Aldir conta de forma brutal a história de um personagem carioca que seria tristemente banalizado nos anos seguintes: o menino soldado do tráfico.”

    Sérgio Cabral (marchinhas) — Touradas de Madri, de João de Barro e Alberto Ribeiro
    “Tomei conhecimento dessa musica no Maracanã, durante a goleada do Brasil sobre a Espanha na Copa de 1950. Ela chegou aos meus ouvidos primeiramente como um murmúrio e, em poucos minutos, era cantada por uma multidão de 200.000.”

    Silvio Essinger (rap, rock e funk) — Eu sou o Rio, do Black Future
    “Uns malucos que batiam ponto na boate Crepúsculo de Cubatão resolveram faze um samba-exaltação. Deu no samba-punk Eu sou o Rio, um passo adiante na Copacabana Blade Runner do Fausto Fawcett.”

  • Nos campos do azeite

    [+] Nos campos do azeite

    Revista Gosto
    Luiz Carlos Zanoni
    01.02.2010

    Revista Gosto
    Luiz Carlos Zanoni
    01.02.2010

    enviar para um amigo

    Os 350 quilômetros ente Roma e a cidade de Viareggio, às margens do Mediterrâneo, cruzam dois paraísos dos amantes da boa mesa, a Úmbria e a Toscana. Rosa Nepomuceno saboreou sem pressa esse roteiro, com o olhar especialmente atento às plantações que proporcionam um dos ingredientes mais valorizados pela culinária contemporânea. Um fio de azeite (Editoras Casa da Palavra e Senac Rio, 2009) é uma incursão por olivais e velhos moinhos em que as centenárias pedras de granito usadas para macerar as azeitonas são quase objetos de devoção. O leitor visita produtores artesanais, provando os azeites que fazem e conhecendo os porquês dos diferentes aromas e paladares. E outras lições são dadas em passagens por feiras, mercados, trattorias e cozinhas de casas de família. Rosa Nepomuceno, que além de especialista em condimentos é também jornalista, detalha as diferentes classes de azeites e ensina como avaliá-las. O chef Marcelo Scofano completa a obra com receitas de pratos tradicionais da Toscana e Úmbria, todos regiamente regados com os bons azeites regionais.

  • Cantos que só eu sei

    [+] Cantos que só eu sei

    TAM nas nuvens
    01.02.2010

    TAM nas nuvens
    01.02.2010

    enviar para um amigo

    Original do Brás, por Guilherme Studart
    “Tenho um dos hobbies mais deliciosos do mundo. A mais de uma década, percorro os bares e botequins do Rio para degustar petiscos. Curto botequins badalados como o Bracarense, do Leblon, mas uma das maiores revelações dos últimos anos para mim é o Original do Brás (Rua Guaporé, 680, 21/3866-1313), quase escondido no bairro de Brás de Pina, na Zona Norte carioca. Já elegi a empada de camarão de lá como a melhor da cidade. Gosto de ir nos sábados à tarde, sem hora para sair. Os donos, o José Carlos e a Zilma, recebem como ninguém, transformando o bar num lugar de onde não dá vontade de ir embora”

    O economista carioca Guilherme Studart assina, há cerca de cinco anos, o Guia Rio Botequim. A edição lançada em dezembro passado conta com uma seleção de 200 botequins avaliados com cotações e comentários.

  • Um retrato cantado e fiel do Rio

    [+] Um retrato cantado e fiel do Rio

    O Estado de S. Paulo
    Lucas Nobile
    30.01.2010

    O Estado de S. Paulo
    Lucas Nobile
    30.01.2010

    enviar para um amigo

    Imagine você que um sujeito tem a ideia de contar a história de uma cidade por meio de letras de músicas e, para isso, decide convocar craques para fazê-lo. Foi o que Marcelo Moutinho fez ao convidar verdadeiros "camisas 10" a escreverem sobre o Rio de Janeiro. Para organizar Canções do Rio - A Cidade em Letra e Música (Ed. Casa da Palavra, 136 págs., R$ 37), o jornalista pediu que João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger lhe enviassem textos inéditos sobre gêneros que cantaram a ex-capital federal.

    Confiando que as músicas que há tempos falaram em seus versos sobre o Rio de Janeiro têm o poder de traçar um retrato histórico fiel da cidade, Moutinho sempre demonstrou preocupação de que seu livro transmitisse isso ao leitor de uma forma muito mais leve do que acadêmica. Objetivo integralmente alcançado. Com um time desse de escritores, a leitura flui de nem ver o tempo passar. "Essa é a diferença da ciência, que cabe ao historiador, para a arte, representada pela música. É o mesmo poder da literatura de construir e refletir a imagem de um local. Até o nome Cidade Maravilhosa surgiu de uma música. Os textos de João do Rio e Lima Barreto eram verdadeiras crônicas da cidade. Não é à toa que Noel Rosa e João do Rio serão homenageados neste ano pela Vila Isabel e pelo Império Serrano", diz Moutinho.

    Ao longo do ano passado, cada autor cuidou do estilo musical com o qual tem maior envolvimento. Sendo assim, o livro tem sua abertura transformada em um verdadeiro mergulho histórico, encampado pelo conhecimento do jornalista João Máximo sobre os primórdios da música popular no País seguindo até a Era de Ouro. Assim como se faz em todo o livro, o capítulo inicial serve para apresentar verdades históricas e desbancar uma infinidade de mitos. Em seu texto, o jornalista lembra que, antes de ser cantado, o Rio de Janeiro era homenageado por músicas tocadas sem versos. "A maioria não tinha verso, como o choro Na Glória. Com a letra, o retrato da cidade acabou ficando mais objetivo", conta Marcelo Moutinho. João Máximo cita uma infinidade de canções de compositores declaratórias ao Rio, como Noel Rosa que, ao contrário do que se pensa, cantou muito mais a Penha do que a sua Vila Isabel. Também sobram exemplos saborosos de Geraldo Pereira, Moreira da Silva e Herivelto Martins, abusando do cenário da Praça Onze, e Wilson Batista e Benedito Lacerda, entoando a Lapa.

    O mesmo voo panorâmico sobre canções que falaram do Rio se dá com outros gêneros e seus respectivos especialistas. Contando com belíssimo trabalho de produção, com fotos históricas e montagens de capas de discos ilustradas com os nomes dos autores como se eles fossem os artistas, Sérgio Cabral analisa as marchinhas cariocas desde os tempos de Chiquinha Gonzaga com sua Ó Abre Alas, do cordão Rosas de Ouro.

    Da mesma maneira, o samba é destrinchado pelo compositor e pesquisador Nei Lopes. A bossa nova é interpretada por Ruy Castro, desvendando pela enésima vez mitos acerca do gênero, como a tremenda balela de que ela teria sido criada por jovens no apartamento de Nara Leão. Um texto com tom de ironia, com trechos como: "Talvez por isso as pessoas vivam querendo saber: "Mas afinal, quando começou a bossa nova?" Ninguém pergunta isso sobre o maxixe, o xaxado ou o chachachá. Da bossa nova, no entanto, exige-se o dia e a hora exatos do seu nascimento, com certidão passada em cartório." A canção moderna é estudada por Hugo Sukman, com direito a uma ponte entre os sentidos da palavra "arrastão": da composição antológica de Vinicius de Moraes e Edu Lobo aos saques nas praias. E, por fim, rock, rap e funk ganham texto de Silvio Essinger, com letras de Fausto Fawcett, Marcelo D2 e MV Bill.

    "Não há dúvidas de que o Rio foi a cidade mais cantada do País. Fazer um livro deste sobre São Paulo seria tão rico quanto, mas seria diferente", diz Moutinho.

  • Música, cerveja gelada e Carnaval: três livros com o melhor do Rio de Janeiro

    [+] Música, cerveja gelada e Carnaval: três livros com o melhor do Rio de Janeiro

    Portal Uai
    Luisa Brasil
    28.01.2010

    Portal Uai
    Luisa Brasil
    28.01.2010

    enviar para um amigo

    No Carnaval, não há cidade que fique mais em evidência no Brasil - e no mundo - do que o Rio de Janeiro. Não por acaso, a cidade é o palco de três livros lançados recentemente, cada um abordando temas que muito agradam os cariocas: o Carnaval, a música e os botequins.

    Em Sambas de enredo - história e arte, lançado neste mês pela editora Civilização Brasileira, os autores Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas destrincham o gênero que começou a se popularizar na década de 30 e se tornou um dos símbolos máximos do carnaval brasileiro por volta da década de 60.

     

    Por meio de histórias e curiosidades, Mussa e Simas fazem uma viagem pelo gênero que já prestou homenagens a diversas personalidades brasileiras (entre elas, Santos Dumont foi o mais homenageado até hoje, ressalta Mussa) e às belezas e tradições do país. Infelizmente, após a conclusão da jornada, Mussa não vê um futuro muito otimista para o gênero, que caiu num empobrecimento temático e lírico nas últimas duas décadas:


    "O samba de enredo passa uma certa crise que tem a ver com vários fatores. Os enredos têm ficado muito parecidos em função da perda de qualidade. Este sempre foi um gênero épico e ele nao tem tido mais esse cárater, deixando de representar seu assunto fundamental. O desfile de escola de samba sempre foi coisa séria, nao é lugar para a pessoa pular, sacudir, como as letras de samba ficam estimulando hoje. Outro motivo é a perda de importância do samba enredo dentro dos quesitos para julgar a escola campeã", explica Mussa.



    O escritor relembra que os temas épicos começaram quando, durante a 2ª Guerra, as escolas de samba eram obrigadas a falar sobre o Brasil. O clima de exaltação permaneceu mesmo com o fim da Guerra, e a partir daí, sambistas correram aos livros didáticos para encontrar fontes de inspiração pra seus sambas.

    ''Quando a Guerra acabou, as escolas de samba haviam crescido, e como nessa época não existiam os carnavalescos, o pessoal das escolas de samba ia aos livros escolares para buscar os temas, então era Castro Alves, Santos Dumont, Tiradentes. Eram esses vultos da história oficial do Brasil.''

    No final da década de 50, surgiram enredos mais emocionais que se relacionavam menos com a história oficial e se aproximavam dos movimentos populares. Temas que exaltavam o negro e o folclore brasileiro, manifestações populares de todo o Berasil ganharam espaço. É a época onde o samba épico atinge seu auge. É a partir da década de 90 que Mussa identifica o esgotamento e o empobrecimento do gênero que desembocaram no cenário pouco animador de hoje em dia:

    "Os carnavalescos começaram a a buscar enredos abstratos, sobre microcosmos, energia, sol, mar. Só que isso não está rendendo bons frutos, porque o samba enredo foi estruturado para a temática épica'', afirma Mussa, que faz um apelo por uma mudança na forma como o samba enredo é produzido e julgado hoje em dia, sob risco de o gênero cair em ostracismo.


    Em um tom mais animador, outro autor que lança um olhar sobre a música é Marcelo Moutinho, organizador do livro Canções do Rio - a cidade em letra e música, publicado também neste mês pela editora Casa da Palavra. O livro faz um retrospecto de como o Rio de Janeiro foi fonte de inspiração para compositores brasileiros de diferentes gêneros e épocas, do final do século XIX até os dias atuais.

    Para montar esse mosaico, Marcelo Moutinho contou com especialistas na área, que escreveram artigos sobre cada gênero. João Máximo escreveu sobre as primeiras manifestações musicais envolvendo o Rio, ainda no fim do século XIX, até a Era de Ouro do Rádio. Sérgio Cabral cuidou das marchinhas, Nei Lopes do Samba, Ruy Castro da Bossa Nova,  Hugo Sukman da Canção Moderna e Silvio Essinger do rock, rap e funk. Pelos cinco cinco capítulos, é possível ir além do Rio ''cidade maravilhosa'', eternizado nas marchinhas de Carnaval e do Rio ''garota de Ipanema'' cantado pelos mestres da Bossa Nova e repetido à exaustão até hoje:

    ''O cronista Marques Rebello tinha uma frase que dizia que o Rio de Janeiro é uma cidade com muitas cidades dentro, porque cada bairro tem uma personalidade muito própria e eu acredito que isso fica muito claro na música'', afirma Marcelo Moutinho.


    Foi dentro destes vários ''Rios de Janeiro'' que os compositores brasileiros acharam inspiração para criar um vasto repertório que perpassa diferentes gêneros e olhares.


    Mais do que as praias, belas moçoilas e paisagens deslumbrantes, o Rio dos compositores brasileiros é uma cidade permeada por conflitos e paradoxos que unem esses olhares que podem parecer tão distantes. Pois se hoje dizem que o funk é a voz da periferia carioca, o mesmo já poderia se dizer das marchinhas, no início do século XX:


    "Na própria marchinha, que é pré-Bossa Nova, você tinha muito essa crônica crítica da cidade. Algumas falando 'de dia falta água, de noite falta luz', mas tratando o problema de forma jocosa. No encontro da MPB com o samba, que acontece no Zicartola, quando Zé Keti se aproxima da Nara, já havia um discurso muito crítico, mas que não era totalmente protagonizado por pessoas advindas dessas regiões mais pobres. Isso acontece com a popularização do funk'', afirma Moutinho.

     

    Independentemente do tom de exaltação, sátirico ou de prosa dado pelos compositores, a história do Rio cantado acaba sendo pretexto para o leitor passear pelos principais gêneros musicais popularizados no Brasil contemporâneo. 

     

    reproducao internet / ww.americanas.com
     



    Rio Botequim 2010

    Samba-enredo, Bossa Nova, Marchinhas... para acompanhar uma boa música, nada melhor do que uma boa cerveja, e bem gelada. Para completar a visita ao Rio de Janeiro (e à livraria), recomenda-se ainda o Rio Botequim 2010, guia de bares, botecos e botequins que chega em sua oitava edição como uma boa referência para os amantes da cerveja gelada e da descontração dos botequins cariocas.

     

    Este ano, a principal novidade do Guia é que os melhores bares ganharam cotações, medidas de uma a três estrelas. Chegar no topo é difícil. Dos cerca de 200 bares avaliados, somente nove receberam a nota máxima de três estrelas. Apesar de englobar bares de todos os bairros da cidade, os mas bem avaliados se concentram na região Sul da cidade.


    Para avaliar cada bar, os critérios usados são a comida, a higiene, a bebida, o atendimento e o ambiente, bem ao estilo do nosso mineiríssimo Comida di Buteco.

    Os bares são separados por bairros e classificados em nove categorias: pé-sujo, pé-limpo, tradicional, adega, informal, popular, bar e armazém e mercearia. Apesar de vir em edição bilingue, em português e inglês, o Guia não é indicado somente para turistas. 

     

    Serviço

     

    Rio Botequim 2010

    Guilherme Studart

    Editora Casa da Palavra

    R$ 43,00 (preço sugerido)

     

    Sambas de enredo - história e arte

    Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas

    Editora Civilização Brasileira

     

    Canções do Rio - a cidade em letra e música

    Eduardo Moutinho (org.)

    Editora Casa da Palavra

    R$37,00

  • Uma cidade em tensão entre o sonho e o real

    [+] Uma cidade em tensão entre o sonho e o real

    O Globo – Segundo Caderno
    Leonardo Lichote
    27.01.2010

    O Globo – Segundo Caderno
    Leonardo Lichote
    27.01.2010

    enviar para um amigo

    “Canções do Rio”reúne ensaios sobre como a musica popular retratou a metrópole, suas ruas e personagens

    Do subúrbio de Noel Rosa (“Não há quem tenha/Mais saudades lá da Penha/Do que eu, juro que não”) ao de Marcelo D2 (“Nascido em São Cristóvão, morador de Madureira/Desde pequeno acostumado a subir ladeira”), da beira-mar de Tom Jobim (“Eu, você, nós dois/Sozinhos nesse bar à meia luz/eE uma grande lua sai do mar/Parece que esse bar já vai fechar”) à do Paralamas do Sucesso (“As meninas do Leblon não olham mais pra mim”), do paraíso de Paulo da Portela (“Como é linda nossa Guanabara/Joia rara”) ao purgatório de Fernanda Abreu (“Capital do sangue quente do Brasil/Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”). É essa a cartografia traçada em “Canções do Rio — A cidade em letra e música” (Casa da Palavra), que reúne ensaios sobre os olhares que a musica popular lançou sobre a cidade ao longo do último século. Retratos de uma musa “bonitinha e má”, como definiram Guinga e Nei Lopes em “No fundo do Rio”.
    — O que se percebe pelo livro, acompanhando as canções que tratam do Rio, é a permanente tensão entre a cidade idílica e a real — aponta Marcelo Moutinho, organizador de “Canções do Rio”. — É claro que os problemas, a violência, começam a aparecer com mais força nas últimas décadas. Mas desde o início, várias marchinhas e sambas faziam referências, por exemplo, à falta de luz ou às condições miseráveis das favelas.
    Moutinho conta que, mais que falar das canções que comentam o Rio como um todo, interessava a ele as que tinham locais da cidade como cenário:
    — Marques Rebelo tem uma frase que diz que “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. Cada pedaço seu retrata um pequeno detalhe de sua vida, um personagem. Essa visão colabora muito para o livro.

    Das marchinhas ao funk, passando pela Bossa Nova

    “Canções do Rio” apresenta seis ensaios, com recortes diferentes sobre esse cancioneiro. “Dos primórdios à Era de Ouro — a cabocla de Caxangá sob o luar de Paquetá”, de João Máximo, dá conta das primeiras aparições do Rio nos versos da música popular. Sérgio Cabral, em “As marchinhas — Elas contam tudo”, avalia a produção desse gênero carioquíssimo, nascido, explica ele, no andaraí. Compositor que tira do Rio muito de sua inspiração, Nei Lopes assina o ensaio “O samba — Cidade, quem te fala é um sambista”, no qual usa Freud para falar da relação do samba com a cidade. Em “A bossa nova — Brigas, nunca mais”, Ruy Castro se detém no gênero cujo habitat natural foi o sal, o sol, o sul do Rio. Hugo Sukman, em “A canção moderna — Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, analisa os caminhos e descaminhos da cidade cantada desde “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes até o arrastão — assalto coletivo, símbolo da violência carioca hoje. Por fim, “Rock, rap e funk — E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger fala do Rio retratado nos últimos anos, por vozes da Zona Sul e das periferias.
    — É interessante acompanhar essa trajetória da cidade — nota Moutinho. — No texto de João Máximo, sobre os primeiros anos, aparece muito o caráter idílico. Ele ressalta, por exemplo, que muitas das músicas feitas sobre os morros, louvando-os, eram compostas por artistas do asfalto. É a visão ensolarada que prevalece na bossa nova, apesar de artistas como Carlos Lyra, que já tinham um olhar voltado para a igualdade social, mais crítico. Mesmo assim, são olhares quase inocentes, cheio de dicotomias. O ensaio de Hugo Sukman faz essa ponte do idílio para a cidade violenta. O rock da década de 1980 também faz essa mudança da cidade leve, praieira, hedonista, para a da desigualdade social, de “Alagados”, por exemplo. Já o samba, tratado por Nei Lopes, sempre teve essa dualidade, até por ter nascido perseguido. Como o funk, aliás, que retrata uma cidade que não está contemplada nem pelo samba.

    “Saudades da Guanabara” e “Rio 40 graus” são sínteses

    Algumas canções aparecem em mais de um ensaio, recorrentes na reflexão que se faz sobre o Rio cantado — e as mudanças pelas quais ele passou ao longo das décadas. Talvez as duas mais citadas sejam “Saudades da Guanabara” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro) e “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer).
    — “Saudades da Guanabara” é saudosa, mas sem deixar de ser esperançosa. E “Rio 40 graus” é a síntese dessas duas faces da cidade, “purgatório da beleza e do caos”. Está aí a força de ambas — acredita Moutinho. — Fausto Fawcett e Aldir Blanc, em suas obras, falam com freqüência dessa cidade que vive em permanente tensão.

    O caso é que, até a década de 1970, as escolas de samba ainda eram um pouquinho ingênuas; e a alvorada lá no morro ainda era uma beleza. Parodiando o saudoso e querido Carlos Cachaça, eu diria que, no morro, naquela época, ninguém chorava (tanto), não havia (tanta) tristeza, e ninguém sentia (tanto) dissabor. Os motivos, deixemos para os cientistas políticos e sociais. Mas o fato é que o buraco ficou muito mais quente (até por conta do advento do “micro-ondas”); a serrinha ficou mais afiada; e o macaco menos engraçado. E o samba, é claro, fotografou a mudança: “O galo já não canta mais no Cantagalo/A água já não corre mais na Cachoeirinha/Menino não pega mais manga na Mangueira/E agora que cidade grande é a Rocinha!”
    Nei Lopes, em “Canções do Rio”

    Não só o chopinho, mas a batata frita, a praia, a paquera e a descontração do Rio foram reabilitados pelo rock na paisagem da musica popular. Toda uma nova geografia foi incorporada às canções. “Quem sabe eu te encontro/De noite no Baixo?” perguntava o amazonense Vinicius Cantuária, ex-baterista do grupo O Terço, na canção “Lua e Estrela”. Altos e Baixos (em especial o Baixo Leblon, com seus bares, nos quais a história da boemia carioca prosseguiu anos 1980 adentro) não faltaram na poesia do carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, cantor do Barão Vermelho, outra das significativas bandas de rock surgidas na época. “Eu conheci um cara/Num bar do Leblon/Foi se apresentando/Eu sou o Billy Negão/A turma da Baixada/Sabe que eu sou durão”, relatava ele em “Billy Negão”, musica do primeiro disco do Barão.
    Silvio Essinger, em “Canções do Rio”

     

  • Um programaço

    [+] Um programaço

    Coluna Gente Boa - O Globo
    Joaquim Ferreira dos Santos
    18.01.2010


    Coluna Gente Boa - O Globo
    Joaquim Ferreira dos Santos
    18.01.2010

    enviar para um amigo

    Uma roda de samba na livraria Folha Seca, Na Ouvidor, as 14h do dia de São Sebastião, lança “Canções do Rio”. Marcelo Moutinho, Ruy Castro, João Máximo, Nei Lopes, Hugo Sukman e Silvio Essinger contam a História da música carioca de Chiquinha Gonzaga a Claudinho e Buchecha.

  • Uma “Biblioteca” onde os livros são construídos a partir de outros livros

    [+] Uma “Biblioteca” onde os livros são construídos a partir de outros livros

    O Globo – Segundo Caderno
    Guilherme Freitas
    03.12.2009

    O Globo – Segundo Caderno
    Guilherme Freitas
    03.12.2009

    enviar para um amigo

    Gonçalo M. Tavares lança duas obras inspiradas em releitura de clássicos

    Num daqueles questionários que os jornalistas costumam infligir aos escritores, Gonçalo M. Tavares foi perguntado sobre como organizava sua biblioteca. Incapaz sequer de manter a conta dos volumes que possui, o escritor português se viu obrigado a criar novas fórmulas para descrever seu “método”:
    — Além das categorias clássicas como romance e poesia, minha lista tinha “livros empilhados”, “livros no chão”, “torres de livros” — brinca.
    Os livros que transbordam das prateleiras da casa e do ateliê de Gonçalo, são uma boa imagem para definir a obra do prolixo escritor, que teve mais de 20 livros publicados desde 2001, entre romances, ensaios, contos, novelas e poesia. Livros construídos a partir de outros livros, como fica claro em “Biblioteca” e “O senhor Breton e a entrevista”, lançados no Brasil simultaneamente pela Casa da Palavra.

    Breve história da literatura em forma de ficção

    Nos textos reunidos em “Biblioteca”, Gonçalo parte dos nomes dos autores clássicos para criar curtos parágrafos que evocam suas obras, nem sempre de formas evidentes. A impressão inicial é a de um “dicionário de escritores” — a obra é dividida em verbetes organizados alfabeticamente (“Anaxímenes de Mileto”, “André Breton”, “Antonin Artaud”) —, mas Gonçalo se apressa em desfazer essa noção. Se há textos claramente inspirados nos escritores (“Uma barata pode ser mais importante que um imperador”, anuncia o verbete de Clarice Lispector), há outros em que essa relação é misteriosa até mesmo para o próprio Gonçalo:
    — A ideia em “Biblioteca”, era fazer com que o nome de um autor que eu já havia lido, através do jogo entre memória e esquecimento, provocasse um texto. Como se o nome do autor fosse o catalisador de um texto. Ou como se o nome fosse apenas uma palavra que tem uma definição um bocado estranha — arrisca.
    Na “desorganizada” biblioteca de Gonçalo, há espaço para clássicos ocidentais, como Kafka (“Os líquidos não se dobram como se dobra um homem frente ao Estado. Tenho uma lei com alguns metros de espessura, e uma voz média, que interfere no fio elétrico do mundo como o pássaro no fio elétrico da sua zona”), e orientais, como Lao Tsé (“É difícil fazer silêncio falando”). E muitos brasileiros, entre eles Manoel de Barros, Nelson Rodrigues, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.
    A estratégia de tomar o nome de um autor como catalisador de um texto também guia “O senhor Breton e a entrevista”, mais um livro da série “O Bairro”, que já teve publicados no Brasil títulos como “O senhor Brecht”, “O senhor Calvino”, “O senhor Walser” e “O senhor Juarroz”, entre outros. O bairro criado por Gonçalo é a vizinhança por onde circulam esses personagens, cujas histórias são um tipo muito particular de ensaio literário, sugere o autor:
    — O Bairro começou com o senhor Valéry e foi crescendo. O que senti a partir de certa altura é que ele funciona como uma breve história da literatura em forma de ficção. É uma forma de agradecer o que recebi como leitor.

    Clarice pode ganhar livro da série “O Bairro”

    Inicialmente uma brincadeira despretensiosa, o Bairro transformou-se aos poucos num projeto que o próprio Gonçalo reconhece como interminável. Na contacapa de cada um dos livros da série, pode-se ver um esboço do Bairro, com indicações dos próximos escritores que poderão ganhar livros próprios, como Rimbaud, Virginia Woolf e George Orwell. E ainda há as “pressões diplomáticas” que Gonçalo diz receber de leitores de diversos países para a inclusão deste ou daquele autor local (aos brasileiros, sempre diz ser possível que a senhora Clarice em breve se mude para a vizinhança).
    O mais recente habitante do Bairro, inspirado no poeta e agitador surrealista André Breton, é um senhor recluso que se dedica a um tipo muito peculiar de entevista, na qual ele mesmo faz as perguntas e jamais dá respostas. Uma técnica que Gonçalo atribui não só ao escritor francês, mas à literatura em geral:
    — Vejo o romance como uma tentativa de investigar uma pergunta, algo que não se compreende. Ele parte de uma pergunta, e no fim temos as fundações que a sustentam. O problema não tem solução, mas o leitor está mais lúcido, entende melhor o problema.
    Gonçalo define o Bairro como uma “utopia literária”, onde os autores convivem sem qualquer distinção de nacionalidade, idade ou estilo. A definição lembra uma biblioteca, onde essa utopia se concretiza nas prateleiras habitadas por escritores de todas as épocas e lugares. Para Gonçalo, o Bairro e a biblioteca ilustram a relação entre a literatura e o tempo:
    — Gosto de pensar que em minha biblioteca ou em minha mochila podem estar um livro de Sêneca escrito há dois mil anos e outro que saiu há 15 dias. É algo que me agrada muito e que tem a ver com a ideia que faço do que são os livros sérios: aqueles em que o tempo deixa de ser importante.