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[+] Uma cidade em tensão entre o sonho e o real
O Globo – Segundo Caderno
Leonardo Lichote
27.01.2010O Globo – Segundo Caderno
Leonardo Lichote
27.01.2010“Canções do Rio”reúne ensaios sobre como a musica popular retratou a metrópole, suas ruas e personagens
Do subúrbio de Noel Rosa (“Não há quem tenha/Mais saudades lá da Penha/Do que eu, juro que não”) ao de Marcelo D2 (“Nascido em São Cristóvão, morador de Madureira/Desde pequeno acostumado a subir ladeira”), da beira-mar de Tom Jobim (“Eu, você, nós dois/Sozinhos nesse bar à meia luz/eE uma grande lua sai do mar/Parece que esse bar já vai fechar”) à do Paralamas do Sucesso (“As meninas do Leblon não olham mais pra mim”), do paraíso de Paulo da Portela (“Como é linda nossa Guanabara/Joia rara”) ao purgatório de Fernanda Abreu (“Capital do sangue quente do Brasil/Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”). É essa a cartografia traçada em “Canções do Rio — A cidade em letra e música” (Casa da Palavra), que reúne ensaios sobre os olhares que a musica popular lançou sobre a cidade ao longo do último século. Retratos de uma musa “bonitinha e má”, como definiram Guinga e Nei Lopes em “No fundo do Rio”.
— O que se percebe pelo livro, acompanhando as canções que tratam do Rio, é a permanente tensão entre a cidade idílica e a real — aponta Marcelo Moutinho, organizador de “Canções do Rio”. — É claro que os problemas, a violência, começam a aparecer com mais força nas últimas décadas. Mas desde o início, várias marchinhas e sambas faziam referências, por exemplo, à falta de luz ou às condições miseráveis das favelas.
Moutinho conta que, mais que falar das canções que comentam o Rio como um todo, interessava a ele as que tinham locais da cidade como cenário:
— Marques Rebelo tem uma frase que diz que “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. Cada pedaço seu retrata um pequeno detalhe de sua vida, um personagem. Essa visão colabora muito para o livro.Das marchinhas ao funk, passando pela Bossa Nova
“Canções do Rio” apresenta seis ensaios, com recortes diferentes sobre esse cancioneiro. “Dos primórdios à Era de Ouro — a cabocla de Caxangá sob o luar de Paquetá”, de João Máximo, dá conta das primeiras aparições do Rio nos versos da música popular. Sérgio Cabral, em “As marchinhas — Elas contam tudo”, avalia a produção desse gênero carioquíssimo, nascido, explica ele, no andaraí. Compositor que tira do Rio muito de sua inspiração, Nei Lopes assina o ensaio “O samba — Cidade, quem te fala é um sambista”, no qual usa Freud para falar da relação do samba com a cidade. Em “A bossa nova — Brigas, nunca mais”, Ruy Castro se detém no gênero cujo habitat natural foi o sal, o sol, o sul do Rio. Hugo Sukman, em “A canção moderna — Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, analisa os caminhos e descaminhos da cidade cantada desde “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes até o arrastão — assalto coletivo, símbolo da violência carioca hoje. Por fim, “Rock, rap e funk — E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger fala do Rio retratado nos últimos anos, por vozes da Zona Sul e das periferias.
— É interessante acompanhar essa trajetória da cidade — nota Moutinho. — No texto de João Máximo, sobre os primeiros anos, aparece muito o caráter idílico. Ele ressalta, por exemplo, que muitas das músicas feitas sobre os morros, louvando-os, eram compostas por artistas do asfalto. É a visão ensolarada que prevalece na bossa nova, apesar de artistas como Carlos Lyra, que já tinham um olhar voltado para a igualdade social, mais crítico. Mesmo assim, são olhares quase inocentes, cheio de dicotomias. O ensaio de Hugo Sukman faz essa ponte do idílio para a cidade violenta. O rock da década de 1980 também faz essa mudança da cidade leve, praieira, hedonista, para a da desigualdade social, de “Alagados”, por exemplo. Já o samba, tratado por Nei Lopes, sempre teve essa dualidade, até por ter nascido perseguido. Como o funk, aliás, que retrata uma cidade que não está contemplada nem pelo samba.“Saudades da Guanabara” e “Rio 40 graus” são sínteses
Algumas canções aparecem em mais de um ensaio, recorrentes na reflexão que se faz sobre o Rio cantado — e as mudanças pelas quais ele passou ao longo das décadas. Talvez as duas mais citadas sejam “Saudades da Guanabara” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro) e “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer).
— “Saudades da Guanabara” é saudosa, mas sem deixar de ser esperançosa. E “Rio 40 graus” é a síntese dessas duas faces da cidade, “purgatório da beleza e do caos”. Está aí a força de ambas — acredita Moutinho. — Fausto Fawcett e Aldir Blanc, em suas obras, falam com freqüência dessa cidade que vive em permanente tensão.O caso é que, até a década de 1970, as escolas de samba ainda eram um pouquinho ingênuas; e a alvorada lá no morro ainda era uma beleza. Parodiando o saudoso e querido Carlos Cachaça, eu diria que, no morro, naquela época, ninguém chorava (tanto), não havia (tanta) tristeza, e ninguém sentia (tanto) dissabor. Os motivos, deixemos para os cientistas políticos e sociais. Mas o fato é que o buraco ficou muito mais quente (até por conta do advento do “micro-ondas”); a serrinha ficou mais afiada; e o macaco menos engraçado. E o samba, é claro, fotografou a mudança: “O galo já não canta mais no Cantagalo/A água já não corre mais na Cachoeirinha/Menino não pega mais manga na Mangueira/E agora que cidade grande é a Rocinha!”
Nei Lopes, em “Canções do Rio”Não só o chopinho, mas a batata frita, a praia, a paquera e a descontração do Rio foram reabilitados pelo rock na paisagem da musica popular. Toda uma nova geografia foi incorporada às canções. “Quem sabe eu te encontro/De noite no Baixo?” perguntava o amazonense Vinicius Cantuária, ex-baterista do grupo O Terço, na canção “Lua e Estrela”. Altos e Baixos (em especial o Baixo Leblon, com seus bares, nos quais a história da boemia carioca prosseguiu anos 1980 adentro) não faltaram na poesia do carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, cantor do Barão Vermelho, outra das significativas bandas de rock surgidas na época. “Eu conheci um cara/Num bar do Leblon/Foi se apresentando/Eu sou o Billy Negão/A turma da Baixada/Sabe que eu sou durão”, relatava ele em “Billy Negão”, musica do primeiro disco do Barão.
Silvio Essinger, em “Canções do Rio” -
[+] Um programaço
Coluna Gente Boa - O Globo
Joaquim Ferreira dos Santos
18.01.2010
Coluna Gente Boa - O Globo
Joaquim Ferreira dos Santos
18.01.2010Uma roda de samba na livraria Folha Seca, Na Ouvidor, as 14h do dia de São Sebastião, lança “Canções do Rio”. Marcelo Moutinho, Ruy Castro, João Máximo, Nei Lopes, Hugo Sukman e Silvio Essinger contam a História da música carioca de Chiquinha Gonzaga a Claudinho e Buchecha.
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[+] Uma “Biblioteca” onde os livros são construídos a partir de outros livros
O Globo – Segundo Caderno
Guilherme Freitas
03.12.2009O Globo – Segundo Caderno
Guilherme Freitas
03.12.2009Gonçalo M. Tavares lança duas obras inspiradas em releitura de clássicos
Num daqueles questionários que os jornalistas costumam infligir aos escritores, Gonçalo M. Tavares foi perguntado sobre como organizava sua biblioteca. Incapaz sequer de manter a conta dos volumes que possui, o escritor português se viu obrigado a criar novas fórmulas para descrever seu “método”:
— Além das categorias clássicas como romance e poesia, minha lista tinha “livros empilhados”, “livros no chão”, “torres de livros” — brinca.
Os livros que transbordam das prateleiras da casa e do ateliê de Gonçalo, são uma boa imagem para definir a obra do prolixo escritor, que teve mais de 20 livros publicados desde 2001, entre romances, ensaios, contos, novelas e poesia. Livros construídos a partir de outros livros, como fica claro em “Biblioteca” e “O senhor Breton e a entrevista”, lançados no Brasil simultaneamente pela Casa da Palavra.Breve história da literatura em forma de ficção
Nos textos reunidos em “Biblioteca”, Gonçalo parte dos nomes dos autores clássicos para criar curtos parágrafos que evocam suas obras, nem sempre de formas evidentes. A impressão inicial é a de um “dicionário de escritores” — a obra é dividida em verbetes organizados alfabeticamente (“Anaxímenes de Mileto”, “André Breton”, “Antonin Artaud”) —, mas Gonçalo se apressa em desfazer essa noção. Se há textos claramente inspirados nos escritores (“Uma barata pode ser mais importante que um imperador”, anuncia o verbete de Clarice Lispector), há outros em que essa relação é misteriosa até mesmo para o próprio Gonçalo:
— A ideia em “Biblioteca”, era fazer com que o nome de um autor que eu já havia lido, através do jogo entre memória e esquecimento, provocasse um texto. Como se o nome do autor fosse o catalisador de um texto. Ou como se o nome fosse apenas uma palavra que tem uma definição um bocado estranha — arrisca.
Na “desorganizada” biblioteca de Gonçalo, há espaço para clássicos ocidentais, como Kafka (“Os líquidos não se dobram como se dobra um homem frente ao Estado. Tenho uma lei com alguns metros de espessura, e uma voz média, que interfere no fio elétrico do mundo como o pássaro no fio elétrico da sua zona”), e orientais, como Lao Tsé (“É difícil fazer silêncio falando”). E muitos brasileiros, entre eles Manoel de Barros, Nelson Rodrigues, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.
A estratégia de tomar o nome de um autor como catalisador de um texto também guia “O senhor Breton e a entrevista”, mais um livro da série “O Bairro”, que já teve publicados no Brasil títulos como “O senhor Brecht”, “O senhor Calvino”, “O senhor Walser” e “O senhor Juarroz”, entre outros. O bairro criado por Gonçalo é a vizinhança por onde circulam esses personagens, cujas histórias são um tipo muito particular de ensaio literário, sugere o autor:
— O Bairro começou com o senhor Valéry e foi crescendo. O que senti a partir de certa altura é que ele funciona como uma breve história da literatura em forma de ficção. É uma forma de agradecer o que recebi como leitor.Clarice pode ganhar livro da série “O Bairro”
Inicialmente uma brincadeira despretensiosa, o Bairro transformou-se aos poucos num projeto que o próprio Gonçalo reconhece como interminável. Na contacapa de cada um dos livros da série, pode-se ver um esboço do Bairro, com indicações dos próximos escritores que poderão ganhar livros próprios, como Rimbaud, Virginia Woolf e George Orwell. E ainda há as “pressões diplomáticas” que Gonçalo diz receber de leitores de diversos países para a inclusão deste ou daquele autor local (aos brasileiros, sempre diz ser possível que a senhora Clarice em breve se mude para a vizinhança).
O mais recente habitante do Bairro, inspirado no poeta e agitador surrealista André Breton, é um senhor recluso que se dedica a um tipo muito peculiar de entevista, na qual ele mesmo faz as perguntas e jamais dá respostas. Uma técnica que Gonçalo atribui não só ao escritor francês, mas à literatura em geral:
— Vejo o romance como uma tentativa de investigar uma pergunta, algo que não se compreende. Ele parte de uma pergunta, e no fim temos as fundações que a sustentam. O problema não tem solução, mas o leitor está mais lúcido, entende melhor o problema.
Gonçalo define o Bairro como uma “utopia literária”, onde os autores convivem sem qualquer distinção de nacionalidade, idade ou estilo. A definição lembra uma biblioteca, onde essa utopia se concretiza nas prateleiras habitadas por escritores de todas as épocas e lugares. Para Gonçalo, o Bairro e a biblioteca ilustram a relação entre a literatura e o tempo:
— Gosto de pensar que em minha biblioteca ou em minha mochila podem estar um livro de Sêneca escrito há dois mil anos e outro que saiu há 15 dias. É algo que me agrada muito e que tem a ver com a ideia que faço do que são os livros sérios: aqueles em que o tempo deixa de ser importante.
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[+] Movimento dos bares
O Globo - Coluna Gente Boa
Joaquim Ferreira dos Santos
03.12.2009O Globo - Coluna Gente Boa
Joaquim Ferreira dos Santos
03.12.2009Festa na Lapa lança a nova, e caprichada, edição do guia Rio Botequim
Donos de botequim contabilizavam os prejuízos com a lei antifumo no lançamento do guia Rio Botequim, de Guilherme Studart, editado pela Casa da Palavra, anteontem,no Circo Voador. “Meu movimento caiu 30%”, contava Rosana Santos, do Bar Luiz, que ganhou duas estrelas. “Vou lançar menu degustação, com mini-porções, pra recuperar a clientela”. Ela, que recentemente trocou a bandeira do chope da Brahma pela Sol, quer começar a vender long neck premium
“Os bares estão colocando curral para fumante na calçada para o cliente não usar a desculpa do cigarro para sair sem pagar”, comentava Guilherme Feijó, sócio do Brazooca, citando o Balneário, Lapa, como um dos que adotaram a estratégia. Outro motivo de queixa dos donos de boteco era a proibição das mesas na calçada, problema de nove entre dez deles.
Denise Barbosa de Oliveira, do Sabor da Morena, em Botafogo, teve que fechar o bar durante 25 dias para se adequar às exigências da prefeitura. “Entendo que não pode virar bagunça, mas carioca gosta de sentar na esquina, mesinha na calçada é a cara do Rio”, dizia ela, feliz com a única estrela que levou.
O esquema de dar estrelas aos bares indicados no guia, novidade dessa edição, causou polêmica. O Bip Bip ganhou a sua estrela. “Bar não é só serviço, é a ambiência: purrinha, conversa fora, falar de mulher, de política... Isso o Bip Bip tem de sobra”, elogiava o jornalista Paulo Thiago, fã do tradicional e carioquíssimo bar de Copacabana. Junto com Jaguar e Moacyr Luz, entre outros, Paulo integrou o conselho do guia.
Guilherme Studart listou 195 bares na publicação, sendo que 100 nunca haviam entrado e muitos são de fora da Zona Sul. Esse aspecto do guia, aliás, contava com ferrenhos defensores. “As pessoas acham que o subúrbio não tem bares com condições de atender bem, mas há muitos”, defendia José Carlos Garcia, dono do Original do Brás, em Brás de Pina, que ganhou três estrelas. “O Rio não é só Leblon e Ipanema”, comentava Kadu Tomé, do Bracarense, com três estrelas. “O Muzzarela está no guia e Caxias, antigamente, nem era considerada”.
Outra mudança é no perfil de donos de bar. As irmãs Gabrielle e Izabelle Magalhães, herdeiras do Adonis, em Benfica, são duas louraças de 20 e poucos anos provando que a visão do bigodudo gordo atrás do balcão está cada vez mais distante, embora a tradição continue, já que elas são a terceira geração da família a trabalhar ali. “Esse negocio de que beber chope engorda é papo furado”, dizia, olhando para Gabrielle, o secretario de Turismo Antônio Pedro Figueira de Mello, que representava o prefeito no evento.
A jovem Carine Rezende, do Amendoeira, em Maria da Graça, assumiu o negócio do pai em abril, apos a morte dele. Kadu Tomé, que toca o Braca junto com a mãe, Rosa, dizia que “A alma do bar é quem está atrás do balcão, mas sempre vai ter empresário achando que é um super negócio e que não sabe nem fritar um bolinho.”
Falava-se de compra e venda de bares. O Enchendo Lingüiça, de Fernando Breschnick, que ganhou duas estrelas, vai abrir filial em Brasília. “Dizem que lingüiça e acordo político ninguém deve ver fazendo”, brincava Fernando, “pois eu vou pra terra dos políticos ensinar a fazer lingüiça”.
Paulo Barbosa, do Petit Paulette, também comemorava a expansão de seu bar, que há um mês passou de 18 para 50 lugares. Agora ele prepara novos pratos, como o Angulette, “um angu à baiana, fechado em dois discos de polenta, e empanado com queijo parmes”o".
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[+] Lorde dos botecos
O Globo – Rio Show
Nelson Vasconcelos
06.11.2009O Globo – Rio Show
Nelson Vasconcelos
06.11.2009Expert em pés-sujos, Guilherme Studart, nome por trás do “Rio Botequim”, degusta champanhe, aprecia musica clássica e vai a bons restaurantes
O carioca Guilherme Studart tem coração boêmio e cabeça de economista. A combinação deu certo. Resultou no boêmio mais bem organizado do Rio, para sorte de quem tem o acompanhado por restaurantes, botecos e até mercearias de toda a cidade. Toda Mesmo. Nos últimos cinco anos, esteve em pelo menos 600 casas do tipo. Registrou-as todas em planilhas, com respectivos cardápios, comentários etc. Informação preciosa, mas nada sigilosa. Pelo contrario. No próximo dia 17, ele lança o guia “Rio Botequim”, com nada menos que 200 desses destinos.
Apesar da grandiosidade da obra, seria errado pensar que Guilherme, de 45 anos, vive o dia inteiro encostado em balcões de botecos. Funcionário do BNDES, ele está “emprestado” para a Agencia Nacional do Cinema (Ancine). Não falta trabalho. Falta é tempo livre — que o disciplinado Guilherme, naturalmente, aproveita ao máximo.
Como bom flâner, diz ele que não há nada melhor para a saúde que caminhadas no Aterro do Flamengo ou sessões de pilates. São essenciais para desestressar. E pensar na vida.
Também é de olho no equilíbrio do corpo que Guilherme almoça, com freqüência, em restaurantes de comida macrobiótica — espécie de contraponto incomum entre a turma do copo. Ele não deixa de visitar, por exemplo, o Metamorfose, no Centro.
Outra pedida é o veterano Astrodome, também no Centro.
— Meu preferido lá é um prato indonésio: o nasi goreng, espécie de risoto de camarão com carne de poço e muitos temperos — diz ele, que tampouco abre mão do Azumi (no balcão), do Casual Retrô e da pizzaria Stravaganze.
No quesito culinária, Guilherme conta com uma vantagem sobre a maioria dos mortais: não tem qualquer restrição gastronômica. Come de tudo. Respeita o pastel de jacaré da Pastel Mania, na Ilha, tanto quanto a codorna recheada do chef Claude Troigros. Há alguns anos, no México, fez degustação de insetos, incluindo larvas, grilos e ovas de formigas. E repetiu. É extensa a lista de esquisitices que ele provou e aprovou.
Foi assim, pois, acostumado a exóticos sabores de várias latitudes, que Guilherme resolveu criar caravanas gastronômicas pelo Rio. A primeira foi em maio de 2006. Desde então, foram dez, cada qual com seu tema principal. Os melhores bolinhos de bacalhau da cidade. Ou as melhores codornas. Ou empadas. Ou jilós (!). Sucesso. Já participaram cerca de 200 pessoas — incluindo nomes exigentes da gastronomia, como Troigros e as nossas Luciana Fróes e Deise Novakoski. Só peso pesado.
E vem mais caravana por aí. Os pedidos e as sugestões são variados. Só que, envolvido com o “Rio Botequim”, Guilherme não tem dado conta de tudo. Mas continua inventando roteiros.
Acredite: Guilherme Studart não ganha dinheiro com as caravanas gastronômicas. Divertir-se com a brincadeira já é o bastante. Cobra o que é justo e divide os custos.
E olha que cada caravana dessas dá um trabalho insano. Tem que criar roteiro, convidar a turma, reservar lugares, confirmar, reconfirmar, cronometrar tudo para evitar desconfortos. E nada sai errado, todo mundo adora. No início, ele alugava uma van para viabilizar a festa. Agora tem que alugar um ônibus. Ou dois.
Mas se engana quem pensa que a vida de Guilherme é só chope. Não é. Também tem vinho, espumante, cachaças. Tudo a seu tempo, na dose certa, em boa companhia. Ele é sócio-fundador ou participante de confrarias etílico-gastronômicas. Abre garrafas de champanhe usando um sabre afiado. Talento raro.
Outro talento: Guilherme bebe, mas mantém a linha. Sempre muito atencioso, é um gentleman na linha do seu pai, o saudoso Eduardo, boêmio daqueles de sumir nos dias de carnaval. Saiu daí, pois, o gosto do nosso flâneur pelos bares e pelos blocos de rua. E entra aí o outro componente químico dele: a mãe, Aracéli, é economista e, para o bem de todos, administrava as finanças da casa.
Também está no sangue dele o gosto pela boa cozinha e, por extensão, pelas comidinhas de botequim — seu assunto predileto, inclusive nos almoços com a família. Registre-se: estamos falando de um sujeito família, que não perde aniversário das tias nem o Natal com suas sobrinhas. E não se esquece de levar quitutes e petiscos para sua companheira, Maria Amaral, depois das pesquisas e caravanas.
Guilherme começou a ficar conhecido no circuito carnavalesco do Rio em 2002, quando passou a divulgar, por email, suas planilhas com horários e roteiros dos blocos de rua. Tarefa complicada, mas tirou de letra. Na década de 90, ele foi assessor do Ministério da Fazenda à época da criação do Plano Real. Depois disso, ficou quatro anos em Londres. Estudou muito, rodou pela Europa, virou campeão de pingue-pongue da London Business School e, quando quietou, tornou-se executivo de um grande banco.
— Londres é espetacular. Ela oferece tudo e vai se revelando aos poucos para quem vive lá — lembra Guilherme, que se sentiu em casa naquela cidade irrequieta. Aproveitou o que pode até que resolveu retornar para a casa propriamente dita. Havia muito a fazer por aqui.
Desde que voltou, em 1998, ele vive a cidade. Não perde as temporadas do Municipal ou da Sala Cecília Meireles. Conhece cinema a fundo. Ainda por cima, toca piano clássico e dança tango! De quebra, é um trocadilhista rápido no gatilho, daqueles bem irritantes.
É por essas e outras que não é exagero dizer que Guilherme é um carioca como poucos. À sua maneira, mostra que o Rio não pode teimar em manter-se uma cidade partida. Eis sua grande mensagem.O valor da boemia científica na ascensão dos botecos
Juarez BecozaAntes de mais nada: Guilherme Studart é meu guru. Não o único; talvez o mais importante. A razão, você, caro leitor, viu ou verá nas páginas que seguem. Alem de economista de renome, gastrônomo conceituado, connaisseur experimentado e “carnavólogo” pós-graduado, o homem é um boêmio científico. Um botequeiro cerebral, que usa a disciplina não só para curtir sem excessos sua paixão mas também para compartilhar experiências etílico-gastronômicas. Antes, com os amigos, em suas planilhas de Excel. Agora, com o mundo, nas páginas do “Rio Botequim”. Graças a ele e outros visionários — como o jornalista Paulo Thiago de Mello, primeiro autor do guia — pé-sujo no Rio de Janeiro hoje é coisa séria, muito séria.
É por causa do trabalho de gente como Guilherme Studart que existem colunas como a minha, por exemplo. Ou caravanas botequeiras, invenção mineira que ele ajudou a virar mania no Rio. Isso tudo, junto, contribui para faze a cultura do botequim trilhar o mesmo caminho pelo qual passou o samba: conquistar a classe média e virar negocio lucrativo. As famílias de espanhóis, portugueses, cearenses e paraibanos — principais players desse mercado — que o digam. Principalmente aquelas poucas que, ao crescer e aparecer, souberam respeitar a própria tradição e não transformaram o velho e lindo salão engordurado num banheirão novinho em folha. Nem trocaram o São Jorge na parede por uma TV de LCD.Pé-sujo bilíngüe e sem fronteiras
A peregrinação em busca do bar perfeito pode se um trabalho poderoso — mas é, sobretudo, um trabalho. Exige disciplina e espírito aventureiro. E é assim que Guilherme Studart circula pelo Rio e por outras cidades, sempre atrás de algo comestível (ou bebível) que valha a pena ser conhecido pelos mais acomodados. Haja sola de sapato, haja metrô, trem, táxi. E estômago.
— O segredo é experimentar tudo — diz ele. — Mas vale a pena. Os botequins são o verdadeiro tesouro da cidade, e contam um pouco da sua história.
O resultado de tanto empenho está na oitava edição do guia “Rio Botequim 2010”, que está saindo pela Casa da Palavra. O livro apresenta, ou reapresenta, os melhores bares do Rio & arredores, segundo uma comissão organizada por Guilherme, da qual fizeram parte notórios boêmios como Jaguar e Moacyr Luz, alem da nossa prata da casa: Juarez Becoza e Paulo Thiago de Mello. Coube a eles distribuir duas ou três estrelas para as 50 melhores casas.
Serão 200 endereços. A maioria é de novatos: 140 bares nunca estiveram em qualquer edição anterior do guia — que é publicado desde 1998 e agora sai bilíngüe.
Entre os estreantes temos nomes como Copao de Ouro (2260-8979), em Ramos, famoso por seus pastéis de camarão com catupiry; Cachambeer (2501-8465), no Cachambi, idem por sua costela; Enchendo Lingüiça (2576-5727), no Grajaú, com sua gastronomia alemã de boteco (leia-se joelho de porco e afins); Original do Brás (3866-1313), em Brás de Pina, vencedor da primeira edição do Comida di Buteco, em 2008; ou Aconchego Carioca (2273-1035), na Praça da Bandeira, aquele do bolinho de feijoada.
Também há destinos na Zona Oeste: Nordestino Carioca (3412-3353), em Jacarepaguá, que serve uma codorna de respeito; Bar do Seu Tomé (3283-5657), no Recreio, que oferece bolinho de abóbora com carne-seca. Outra novidade do guia é a seção de arredores, com bares do interior do Estado do Rio.
Para fazer parte do guia, houve uma eleição considerando vários critérios. Se antigamente a primeira preocupação dos guias era julgar a qualidade da bebida, hoje leva-se em conta todo o ambiente do bar — inclusive os banheiros, ponto delicado em estabelecimentos de todo o mundo. O “Rio Botequim” classificou as casa em Pé-Sujo, Pé-Limpo, Tradicional, Adega, Restaurante Informal, Popular, Bar, Armazém e Mercearia.
No fim das contas, o guia tem tudo para se tornar uma referência, assim como nas edições anteriores.Como salvar um domingo chinfrim
Foi num tremendo esforço de reportagem que acompanhei Guilherme Studart numa visita a bares da Ilha do Governador, na tarde de um domingo chocho de outubro. Era a primeira ronda de apuração para o próximo guia de botequins — posto que o de 2010 já está pronto.
Ouvindo no carro o CD do Jota Canalha, fomos a cinco bares, incluindo a Mercearia Nossa Senhora da Ajuda. De olho na Lei Seca, Guilherme Studart não bebeu qualquer chope. Nem era esse seu objetivo, e sim descobrir segredos da chamada baixa gastronomia. Baixa? Que nada. Encontramos boas surpresas.
Mais detalhes? Só no próximo guia. Mas uma coisa é certa: a ronda salvou meu domingo.
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[+] O lugar do malandro
O Globo – Prosa & Verso
Leonardo Lichote
24.10.2009O Globo – Prosa & Verso
Leonardo Lichote
24.10.2009Curto, com a rapidez de quem quer acabar logo com a entrevista e voltar ao samba&cerveja&amigos de onde foi arrancado pelo toque do celular naquela tarde de segunda-feira, zeca Pagodinho se define em poucas palavras:
— Não sou malandro, sou otário com sorte.
Depois da pausa de meio segundo, explica sem cravar, mantendo-se na indefinição da zona cinza.
— Otário com sorte é malandro duas vezes.
Malandro modelar, Zeca faz — meio inconsciente, meio consciente de seu papel — mais que uma gaiatice quando solta seu aforismo de botequim. A dubiedade, o ato de traçar fronteiras, faz parte da ética e da estética da malandragem — e, mais que isso, de seu senso de sobrevivência. Na sua fala, Zeca reflete o primeiro samba-resposta de Noel Rosa para Wilson Batista, na famosa polêmica que envolveu os sambistas na década de 1930. Noel propões que “o povo civilizado” não chame o seu antagonista de malandro, e sim, de “rapaz folgado”. Embutido na provocação, ia um conselho para que o colega se livrasse do termo, que atrai a atenção da polícia e engessa o verdadeiro malandro — exatamente a estratégia de Zeca.
“Rapaz folgado”, o samba de Noel, é um dos exemplos que ilumina e é iluminado por “No fio da navalha — malandragem na literatura e no samba” (Casa da Palavra/Faperj), de Giovanna Dealtry, com lançamento segunda-feira, às 19h, na Livraria DaConde (Leblon). Ao propor uma investigação sobre as representações do malandro e, sobretudo, como ele se mantém como “traço distintivo de nossa cultura”, o estudo traz à tona o debate sobre o personagem num momento em que Brasil e rio (berço da malandragem clássica) parecem querer, oficialmente, deixa-lo para trás. Na esfera nacional, o caminho que o Brasil traça rumo ao status de “pais desenvolvido” passa pelos crivos técnicos — sem espaço para a informalidade, terreno do malandro — do Banco Mundial e do Comitê Olímpico Internacional. Na cidade, policia pacificadora na favela e choques de ordem no asfalto procuram tomar o espaço do “jeitinho” nas negociações cotidiana das ruas.
Nesse contexto, como fica no imaginário nacional a figura do malandro? Em que medida ele ainda é um traço desejável de nosso caráter nacional? Temos que nos livrar dele para chegarmos ao futuro anunciado há décadas por Stefan Zweig? Ou, pelo contrário, a malandragem é nossa marca de originalidade, a força que permitirá ao Brasil chegar a novas soluções? Nesta reportagem, conversamos com atores sociais que vão do antropólogo Roberto DaMatta (autor de “Carnavais, malandros e heróis”, estudo fundamental e inaugural do tema) ao secretário municipal de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem (coordenador da política de choques de ordem). O dialogo entre as diferentes perspectivas, mais que cravar certezas, trafega em territórios maleáveis, de limites fluidos — ora ele é vilão, ora é herói, ora ambos. Malandro, enfim, é malandro.
Mito samba entre política e tráfico
Questionada e louvada, malandragem busca se redesenhar frente às questões do século XXI
Não é a primeira vez que é cogitado o fim da malandragem — e, consequentemente, de seu valor como síntese da nação. Chico Buarque já constatara que “aquela tal malandragem já não existe mais”(1977), assim como Hugo Carvana retratara o derradeiro malandro em “Vai trabalhar, vagabundo” (1973). Mais recentemente, o romance “Cidade de Deus” (1997), de Paulo Lins, levado ao cinema por Fernando Meirelles (2002), parece marcar o ponto em que o malandro tem que escolher qual a sua facção — eliminando, assim, o trânsito que o caracteriza.
— A morte de Bené, em “Cidade de Deus” é emblemática — afirma o cientista social Paulo Jorge Ribeiro. — Era ele que dialogava com todos e, fundamentalmente, controlava o ímpeto de Zé Pequeno. Quando se dá sua morte no romance, a lógica da violência explode.
Se o caos da ultraviolência não parece ser o território propício para a malandragem, não menos hostil a ela é o ordenamento estrito desejado pelos choques de ordem. Afinal, o malandro não sobrevive na ausência de leis, , mas também não se cria num espaço onde elas sejam imperativas a ponto de não poderem ser contornadas. É o que o antropólogo Roberto DaMatta explica em “Carnavais, malandros e heróis”, que completa três décadas neste ano:
— Tentei decifrar ali a malandragem como sintoma de uma sociedade fascinada por leis, regras e normas, mas sempre para o “outro” — diz DaMatta. — O malandro é esse sujeito: finge que não sabe a lei e não rompe com ela., ficando por cima ou por baixo das normas.
Ao olhar do poder público que promove os choques de ordem, o papel do malandro é o de fera domesticada — a espontaneidade e o improviso servem para vender a imagem da cidade-sede da Olimpíada de 2016, por exemplo, mas não se admitem “efeitos colaterais”.
— Quem para o carro na calçada, compra CD e DVD pirata e não respeita as leis é um grande mané — diz Rodrigo Bethlen, secretario municipal de Ordem Pública. — Dar propina ao guarda para evitar a multa não é jeitinho, é crime. Parar em cima da calçada não é solução para falta de vagas, pois impede a circulação dos pedestres, principalmente idosos, mães com carrinhos e cadeirantes. Malandro hoje é quem vai à Lapa, para uma noitada e deixa o carro em casa ou volta de carona com amigos que não bebem.
Ordem urbana à parte, conclui-se que o malandro “permitido” no rio do choque de ordem (e no Brasil no qual a cidade se insere) é um tanto anódino. Bethlen apresenta bons números como resultado (aumento em 80% da arrecadação da taxa cobrada de ambulantes e bares que ocupam calçadas com mesas). Para o escritor Alberto Mussa, porém, políticas do tipo tolerância zero estão fadadas ao fracasso por aqui:
— É pela malandragem que conseguimos sobreviver à massacrante ordem pública. Se nosso povo fosse ordeiro já teria desaparecido. Para que certas políticas tenham sucesso, as autoridades é que tem que ser malandras. Deixar, disfarçadamente, pontos de fuga. Se não se consegue dar emprego às pessoas, não se pode reprimir completamente o trabalho ilegal dos ambulantes. Basta reprimir de vez em quando, mansamente.
A “repressão malandra” sugerida por Mussa atravessa nossa história. O caso do sambista João da Bahiana, nas primeiras décadas do século XX, é representativo: após ter o pandeiro apreendido pela polícia, ele ganhou um novo, presenteado pelo amigo (e senador) Pinheiro Machado, que lhe fez uma dedicatória. “Daí para frente, o pandeiro, antes instrumento que denunciava João da Bahiana como músico e, por conseqüência, desordeiro, passa a protegê-lo da mesma perseguição policial”, escreve Giovanna Dealtry.
Já nos anos 1970, no regime militar, a malandragem era vista como força de oposição à ditadura (numa revisão que a esquerda fazia do malandro clássico, como peça de resistência ao Estado Novo). O malandro deixava de ser o indivíduo agindo em causa própria — responsável só por si, figura destacada da massa — para se tornar um representante do povo.
Hoje, cercado — de um lado pela substituição da navalha romântica da velha Lapa pelos fuzis do tráfico, e de outro pelo desejo repressor do Estado que quer ser moderno —, o malandro chega ao século XXI num beco sem saída. Teria a validade do mito, enfim, vencido? Uma resposta surge, recorrendo-se novamente a Chico Buarque, que, em “O malandro”, diz: “O cadáver/Do indigente/é evidente/Que morreu/E no entanto/Ele se move/Como prova/O Galileu”.
O que DaMatta reafirma 30 anos apos “Carnavais...” (“As teses do livro estão mais de pé do que nunca”) e o que Giovanna defende em seu “No fio da navalha” é exatamente a permanência do mito. Modificando-se, como ocorre desde o século XIX, data de seus primeiros registros, em peças de Martins Pena e em obras como “Memórias de um sargento de milícias”.
— A malandragem não é algo passível de ser encerrado. Nossas aspirações e medos têm nela seu lugar de problematização. Mais do que o explicarmos, é o malandro que nos explica — acredita Paulo Jorge Ribeiro. — É um ritual sempre reapresentado. Se o malandro está em crise, não é porque está em extinção, mas sim devido às novas questões que se interpõem a ele.
DaMatta sintetiza:
— Temos mudado, mas permanecido os mesmos. O que muda, muda porque há algo que fica. E vice-versa.
Giovanna segue o raciocínio.
— Sai de cena o personagem do malandro tipificado, o sambista de terno branco, e entra em cena uma malandragem espraiada pela nossa cultura — afirma Giovanna. — Aliás, essa malandragem já está presente em nossa literatura desde o século XIX. É o mesmo espírito que vamos encontrar décadas depois na Lei de Gerson. E que ainda é admirada em muitos setores da sociedade como sinônimo de esperteza, astúcia...
Termos como “esperteza”, “astúcia”, e “Lei de Gerson” quase insinuam a palavra “política”. Para DaMatta, se fizéssemos uma enquete popular, a política seria apontada como o terreno preferencial da malandragem hoje. Fernando Meirelles acredita que as representações do mito seguem essa percepção:
— Vem aí um novo ciclo de filmes retratando os malandros de colarinho branco. Há muitos projetos sobre isso pipocando — nota o cineasta. — O arquétipo perfeito deste tipo de malandro é o Zé Sarney. O próprio senador tem uma frase genial que coroa seu papel de modelo de malandragem: “Em minha defesa tenho a minha biografia”. A frase é um mimo em termos de ambigüidade malandra.
O modelo maior da malandragem na política brasileira é Getúlio Vargas. Charges notabilizavam sua capacidade de se sair bem de situações difíceis, ter o poder da lábia, ficar bem com todos. Sua relação duplaface com os malandros é exemplar: ele mudou o Código Penal para passar a vadiagem de crime para contravenção (um ato ilícito menor), mas, paradoxalmente, aumentou a pena.
O presidente Lula é apontado como herdeiro de Vargas. Giovanna destaca sua capacidade de circular com desenvoltura.
— Lula está sempre com um chapéu ou boné da região ou do grupo pra quem ele está falando — destaca Giovanna.— Ele sai de uma imagem dura, fixa, do operário e torna-se múltiplos.
Do político que “mete a mão na coisa pública” ao que sabe se tornar múltiplo há uma distancia. Ambos estão sob o guarda-chuva da malandragem? Ou seja, há separação possível, hoje, ente malandro e bandido? Ivana Bentes, teórica de cinema, vê no tráfico de Cidade de Deus apenas “malandros-otários”, assim como Mussa, que diz que falta ao traficante “elegância e ironia”. Giovanna, porém, defende que a violência sempre foi intrínseca ao malandro, desde antes de Madame Satã.
— Prepondera na nossa sociedade uma visão romantizada do malandro. Como se, comparado com as facções criminosas de hoje, o malandro dos anos 30 e 40 fosse quase um ingênuo. Mas a violência é indissociável do malandro. Por outro lado, o malandro ostenta o orgulho de conseguir seus ganhos através da lábia. A palavra malandra, sedutora, é um diferencial da figura típica do bandido.
Essa imprecisão, que serve à ideia fluida do que é o malandro, é vista pelo sociólogo Jessé de Souza como indicativa da fragilidade do próprio conceito da malandragem, que, diz, “mais esconde do que esclarece”.
— Mitos nacionais possuem essa realidade: um lado “positivo”, que poduz sentimento de pertencimento, e um lado “negativo”, que esconde contradições —determina Souza. — Essas noções são falsas porque unem coisas muito distintas. A malandragem nas classes altas não tem nada a ver com a malandragem de quem não tem acesso aos recursos escassos na sociedade. Nosso debate intelectual é pobre e conservador e glamouriza, precisamente com motes como “malandragem”, uma realidade perversa.
As representações do malandro, porém, incorporam por vezes a realidade da miséria. O romance “Desabrigo”, de Antônio Fraga, é destacado por Giovanna como o melhor exemplo disso. Mas a imagem que temos quase sempre é a do terno branco ou a do Macunaíma sedutor. E é ela que Ivana recorre para pensar o malandro hoje:
— Mais do que nunca o sivirismo, a informalidade são a base da economia e da criação. O malandro, entendido como essa inteligência, popular brasileira, extraordinária, desconcertante, vital, é a base da cultura, o verdadeiro pré-sal do país.
Zeca também mostra acreditar no lugar do malandro hoje, ao falar da “maior malandragem de sua vida”:
— A gente agora, aqui no bar. Só amigo falando de samba, ouvindo Zeca e tomando uma cerveja. É aqui, agora.
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[+] Para seguir a trilha dos heróis
O Globo - Globinho
Willian Helal Filho
17.10.2009O Globo - Globinho
Willian Helal Filho
17.10.2009Ídolos do esporte contam sobre seus primeiros passos em livro que serve de motivação para quem sonha com as Olimpíadas
Conhecer as histórias de alguns heróis brasileiros é um bom começo para os pequenos esportistas que sonham com uma vaga nas Olimpíadas do Rio, em 2016. No recém-lançado Manual do pequeno atleta (Casa da Palavra), de Rosane Araújo, 18 ídolos, como a saltadora Maurren Maggi e o nadador César Cielo, descrevem seus primeiros passos. O judoca Flávio Canto, medalha de bronze nos jogos de Atenas, em 2004, també, está no livro e, conversando com o Globinho, deu um recado especial:
— Faltam sete anos pra as Olimpíadas do rio. Quando comecei a lutar judô, em 1989, faltavam sete anos para os Jogos de Atlanta, e eu consegui me classificar. Tem que acreditar, traçar metas e se dedicar.
Além das Olimpíadas de Atlanta, de 1996, Flávio representou o Brasil em Sidney (2000) e Atenas (2004). Hoje, coordena o Instituto Reação, uma ONG que ensina judô em comunidades de baixa renda. Durante as aulas e no texto que escreveu para o Manual do pequeno atleta, ele fala tanto de seus acertos quanto dos erros:
— Você leva para a vida as situações que encara no esporte. No judô, o atleta cai e se levanta, assim como na vida. Por maior que seja o tombo, temos que estar preparados para ficar de pé outra vez.
No manual, um grupo de personagens fictícios liderados por Tico, um garoto muito esperto, vai atrás das histórias dos 18 atletas. Os jogadores de basquete Oscar Schimidt e Janeth, o craque do handebol Bruno Souza, , o ginasta Diego Hypólito, o herói dos gramados Zico e o tenista Gustavo Kuerten são algumas das feras que narram suas histórias nesse livro. O Globinho resumiu só algumas delas nesta reportagem. Divirta-se!
César Cielo: O primeiro nadador a ganhar medalha de ouro em Olimpíadas (Pequim – 2008) já foi um judoca iniciante. Vestiu um quimono pela primeira vez aos 7 anos, mas essa fase durou pouco, pois ele não gostava de esporte de contato. Aos 8, o paulista estava na piscina. César sempre foi muito obstinado e detestava perder. Hoje ele diz que já aprendeu a lidar com a derrota.
Janeth: Quando viu as veteranas Hortência e Paula defendendo o Brasil num mundial, em 1983, essa paulista de Carapicuíba se apaixonou pelo basquete. Janeth tinha 13 anos. Um ano depois, já estava na seleção paulista, praticando muito. Se, num dia de treino, acertava sem arremessos, no seguinte tentava 110. Foi toda essa dedicação que a levou à seleção brasileira, onde foi uma campeã, e ao Houston Comets, time da Liga Americana de Basquete Profissional.
Flávio Canto: Ele era baixinho e encrenqueiro, mas tudo mudou quando o pequeno Flávio, de 13 anos, viu o judoca Aurélio Miguel receber sua medalha de ouro, nas Olimpíadas de 1988, em Seul (Coréia do Sul). Ele gostava de natação, mas entrou no judô logo depois. No início, queria aprender para se defender dos grandalhões na escola, mas viu que o esporte ensinava muito mais. Graças ao quimono, Flávio se tornou autoconfiante e tranqüilo. “Quem entra no judô não briga mais”, garante ele.
Maurren Maggi: Essa brasileira de São Carlos, São Paulo, tornou-se uma heroína ao ganhar medalha de ouro no salto em distância nas Olimpíadas do ano passado, em Pequim, China. Mas as amigas do tempo de colégio não se surpreenderam. Quando pequena, Maurren era campeã de pular elástico (tinha sempre um na bolsa) e também adorava pular corda. Ela não parava quieta e, lá pelos 16 anos, achou no atletismo uma maneira de concentrar sua energia.
Diego Hypólito: Ele foi influenciado pela irmã mais velha, a ginasta Danielle Hypólito. Só que tinha um problema: Diego enxergava mal (tinha 15 graus de hipermetropia e astigmatismo). Como não gostava de óculos, o paulista competia vendo os aparelhos dobrados. Na hora do salto, enxergava duas mesas em vez de uma, e os amigos tinham que mostrar qual era a real. Hoje, ele usa lentes de contato e, assim, tornou-se bicampeão mundial no solo, em 2005 e 2006.
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[+] Antes da fama
Jornal do Brasil - Revista de Domingo
11.10.2009Jornal do Brasil - Revista de Domingo
11.10.2009Livro infantil revela os segredos dos esportistas
Perseverança, pequenos leitores. é o que prega o Manual do pequeno atleta (Ed. Casa da Palavra, R$ 32), da jornalista Rosane Araújo (com Sílvia Marta Vieira), ilustrado por Axel Sande. São relatos de 18 ídolos do esporte nacional, dicas sobre esporte e historinhas curiosas.
— Oscar Schimidt, jogador de basquete, já tinha 1,85 m com apenas 13 anos e era tímido por causa de seu tamanho. Foi por meio do basquete que começou a se soltar, mesmo tendo que usar as calças de cortina que a mãe mandava fazer.
— Fernando Meligeni, tenista, não tinha amigos na escola porque falava castelhano. Entrou para a turma quando começou a jogar tênis, aos 8 anos.
— Tande, jogador de vôlei: como diziam que para ser bom mesmo tinha que dormir com a bola, o atleta decidiu levar ao pé da letra. Será que é mesmo a chave do sucesso?
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[+] Subversão da linguagem pela palavra
Diário de Pernambuco
Thiago Corrêa
18.09.2009Diário de Pernambuco
Thiago Corrêa
18.09.2009Um lado bom das antologias é poder comparar o trabalho de diversos escritores a partir de um mesmo parâmetro. No caso do Dicionário amoroso da Língua Portuguesa, organizado pelos escritores Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, a linha de partida foi a escolha de uma única palavra que sintetizasse a intimidade entre o autor e o idioma português. A relação fundamentada na linguagem aproximou 35 escritores de cinco países e quatro continentes, cada um com diferentes histórias, idades e visões reunidas em um mesmo livro.
Uma diversidade geográfica e etária que se traduziu na amplitude das escolhas, indo do termo Porra à Morte, do Bosque ao Deserto, do Fogo à Sombra, da inventada Calicrati à pisoteada Sandália, da Palavra ao Silêncio. Apesar da variedade e até da relação contraditória dos temas, quase um terço dos autores se limitou a sugestão do nome do projeto e resolveram descrever um verbete, adotando o formato de dicionário.
Alguns levam isso a sério, caindo na armadilha da linguagem funcional na tentativa de explicar o termo escolhido. É o caso de Serendipidade (onde Bruna Lombardi desperdiça o teor poético do termo no uso de uma linguagem técnica), Casa (crônica repetitiva de Fabrício Carpinejar) e, principalmente, Verdade, do português Desidério Murcho, que deveria estar numa coletânea de ensaios filosóficos.
Mas a repetição do formato não chega a ser uma camisa-de-força aos que optaram pelo padrão acadêmico ou de dicionário. Mesmo assumindo uma estrutura esquemática de tópicos, o verbete Morte, do poeta carioca Armando Freitas Filho, consegue se diferenciar apresentando novas maneiras de compreender o fim da vida. Do ponto de vista acadêmico, vale lembrar o texto Moderno, do poeta Antônio Cícero. Embora tenha optado em escrever um ensaio, Cícero o faz com a inteligência de quem consegue sintetizar sentimentos em versos, tentando explicar um termo que revela vontade de não ser nada.
Esses casos fazem pensar que o problema não é a forma nem o assunto a ser tratado, e sim a capacidade dos autores em subverter a linguagem. No centro da questão está somente a palavra e a maneira como os autores as utilizam. Fernando Molica, por exemplo, transforma a explicação do seu verbete Buceta (assim mesmo, com u) numa crônica através de um texto leve, corriqueiro e inteligente, tão malicioso quanto divertido. Já o angolano Ondjaki mergulha na poesia para oferecer maneiras incomuns de enxergar a Sandália.
Outros escritores nem se preocuparam com as miudezas das explanações, partiram logo para a criação. Assim, os verbetes viraram temas, detalhes ou apenas títulos, um barbante para ser puxado e costurado em forma de palavras no papel. Um caminho que se revelou vários. Desembocou nas experimentações linguísticas do gaúcho Amílcar Bettega em Neve, do moçambicano Guita Jr. em Fogo e do carioca Paulo Henriques Britto em Peteleco; na originalidade do baiano Antônio Torres em fazer uma autobiagrafia da Saudade; no espírito crítico da carioca Heloisa Seixas em Espelho e no olhar delicado da portuguesa Tatiana Salem Levy em Deserto.
Como em Pernambuco também se escreve o português, fomos representados na antologia por Marcelino Freire e Raimundo Carrero. Embora siga na Sombra, a força narrativa de Carrero é iluminada pelo rigor técnico no emprego das palavras, no uso de elipses e de uma lógica infantil (que nos lembra as brincadeiras do protagonista de O amor não tem bons sentimentos); tudo no devido lugar, pensado para manter o ritmo e a tensão do enredo.
Uma preocupação que Freire (na condição de ex-aluno das oficinas de Carrero) também tem, mas seu texto se destaca pela maneira de subverter, indiretamente, a proposta da antologia. Ao focar no termo Palavra, o pernambucano rejeita o sentido de união comunicativa da língua portuguesa e elege como tema a dificuldade de se expressar nesse idioma de solitários.
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[+] Dicionário de escolhas íntimas
Jornal do Brasil
Lúcia Bettencourt
22.08.2009Jornal do Brasil
Lúcia Bettencourt
22.08.2009Do verbete ao conto, da poesia ao ensaio, as palavras que compõem o Dicionário amoroso da língua portuguesa, organizado por Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, receberam um tratamento que as resgatou do uso diário, já desgastadas e sem lustro. Examinadas e explicadas, transformadas, expostas em vitrines ou escondidas entre obsessivas repetições, elas saem de seu marasmo e recuperam as forças.
No primeiro verbete, um conto de Marcelo Moutinho, a palavra escolhida (água) se esconde por trás de uma cortina que “insistia em fechar”. Apenas uma única vez se deixa surpreender e, no entanto, está presente nos ladrilhos suados, na toalha molhada, no banho a portas fechadas. E, com força de enxurrada, pinga nas lágrimas que suspeitamos terem sido engolidas pelos dois personagens da breve e poderosíssima história. Já no verbete sobre a incomum serendipidade (Bruna Lombardi), o sentimento se ausenta. Um pseudocientificismo nos oferece significado e etimologia do prazer da descoberta do desconhecido, gerando uma reflexão sobre a dificuldade de explicar a emoção. De pura emoção, quase um grito de lembrança, tratam os verbetes violeta e rosa (Paulo Brody, Jorge Rocha), que viram gente, mais que gente, uma amante e uma avó querida e saudosa. A saudade de Antonio Torres, por sua vez, se personifica para explicar, sem pressa e com humores, sua existência na língua, reverberando em versos e modinhas, em fatos da história e nas histórias dos fatos.
Algumas palavras são trazidas pelas mãos de nativos de Portugal Angola ou Moçambique. Assim sendo, o insecto apresentado por Rui Lage vem acompanhado de um ferrão, que nos atrai o olhar enquanto passeia pelo “tecto” . No sobreiro (Jorge Reis-Sá), que pouco conhecemos no Brasil, brotam as lembranças de casas e de outras árvores, que sempre trarão em si as marcas do sobreiro esguio, metáfora da vida.
Seja na singular árvore que António José Teixeira ergue num lamento contra o progresso que as devasta, como no bosque desenhado por Daniel Maia-Pinto Rodrigues entre as névoas da fé do passado, a leitura do dicionário é uma viagem que encetamos através da língua em diferentes sotaques e dicções. Liberados de uma ordem alfabética que nos permita juntar fogo e neve (Guita Jr. e Amilcar Bettega), misturamos sensações e despertamos em nós o prazer de meditar sobre nosso idioma. Qual a palavra mais bela, a fundamental? Oblívio, para Alexei Bueno, morte para Armando Freitas Filho, vocábulos profundos como o vicio de Flávio Izhaki que nos consome vida e pensamento, termos de reflexão – um espelho (Heloisa Seixas) que nos revela – ou um silêncio (Ana Paula Tavares) que traduz ainda mais que seu rompimento.
O “dicionário de palavras íntimas”, como o definem os organizadores, não recua diante da intimidade. A mais contundente talvez seja buceta, preferida por Fernando Molina, seguida de porra, escolha de João Melo. Ambos desenvolvem suas palavras em contos que suavizam as opções e nos apiedam face aos personagens escravizados aos signos que os identificam.
“De palavras vivemos, com palavras morremos”…, lembram-nos os organizadores. Desmontando o significante, o poeta Henrique Rodrigues recria você, desfiando o pronome para lhe insuflar novos significados, enquanto Jorge Fernandes Silveira recompõe rio, numa interessante justaposição, evocadora da cidade partida, compósita, fragmentada. Paulo Henriques Britto tudo desfaz num peteleco, Glauco Mattoso, de sola, nos confronta com a sensação de eternidade que se grava na humilhação sofrida.
A surpresa de encontrar a palavra inventada por José Luís Peixoto – calicatri –, aberta em opções, oferecida como flor desabrochada, convive com a misteriosa palavra de Marcelino Freire, adiada até o final. Entre significantes suaves, duas mulheres rompem as expectativas e introduzem uma, Tatiana Salem Levy, o deserto na solidão que evoca, outra, Adriana Lisboa, a guerrilha que eclode no aprendizado de vida, sem estratégias, aproveitando o oco, o vazio, a falta de ordem.
O prazer de (re)conhecer as palavras, de encontrá-las em novas situações e de refletir sobre elas é estimulado pela bela edição, em capa dura, com ilustrações em que o significante se transforma em sua própria interpretação. Como vem acompanhado de ímãs com os termos, para que os leitores se aventurem a combinar e experimentar com cada um dos verbetes, é possível imaginar o condor de Mariana Ianelli saindo da noite onde exibe sua arte e angústia para a madrugada de Luís Cardoso, clara, esperançosa, grávida de vida.
Deixando que a sombra carreriana nos acompanhe – como fugir ao destino? – calçamos a sandália, com Ondjaki, para viajar, na companhia de Manuela Costa Ribeiro, por estradas interiores em que a poeira (Francisco José Viegas) que levantamos se defina em desenhos de lembranças eternizadas no agora. E, como nos ensina o verbete assinado por António Cícero, moderno, esse é o tempo em que vivemos, o eterno agora, que nos assusta e inquieta. Mas, o que fazer? Desidério Murcho nos responde: “Onde há palavra, há verdade”. O dicionário, amorosamente, nos desperta a consciência de que nosso idioma é uma espécie de casa (Fabrício Carpinejar). Existimos na língua que nos possui.
* Escritora







