Notícias
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[+] Maravilhosa e inspiradora de composições
Veja Rio
Livia de Almeida
02.02.2010Veja Rio
Livia de Almeida
02.02.2010No livro Canções do Rio, os jornalistas Sérgio Cabral, Ruy Castro, João Máximo, Silvio Essinger e Hugo Sukman, mais o compositor Nei Lopes, fazem um apanhado da produção carioca. Quatro deles destacam a musica emblemática do tema que abordam na obra.
Nei Lopes (samba) — No fundo do Rio, de Nei Lopes e Guinga
“Ela foi feita com um misto de paixão e bronca. Moro há dez anos em Seopédica e de lá vejo o Rio com olhos mais realistas. É uma cidade bonitinha e má, que joga suas mazelas para a periferia.”
Hugo Sukman (MPB dos anos 60 aos 90) — Tiro de misericórdia, de João Bosco e Aldir Blanc
“É uma canção pioneira. Ainda em 1977, quando ninguém falava disso, Aldir conta de forma brutal a história de um personagem carioca que seria tristemente banalizado nos anos seguintes: o menino soldado do tráfico.”
Sérgio Cabral (marchinhas) — Touradas de Madri, de João de Barro e Alberto Ribeiro
“Tomei conhecimento dessa musica no Maracanã, durante a goleada do Brasil sobre a Espanha na Copa de 1950. Ela chegou aos meus ouvidos primeiramente como um murmúrio e, em poucos minutos, era cantada por uma multidão de 200.000.”
Silvio Essinger (rap, rock e funk) — Eu sou o Rio, do Black Future
“Uns malucos que batiam ponto na boate Crepúsculo de Cubatão resolveram faze um samba-exaltação. Deu no samba-punk Eu sou o Rio, um passo adiante na Copacabana Blade Runner do Fausto Fawcett.”
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[+] Nos campos do azeite
Revista Gosto
Luiz Carlos Zanoni
01.02.2010Revista Gosto
Luiz Carlos Zanoni
01.02.2010Os 350 quilômetros ente Roma e a cidade de Viareggio, às margens do Mediterrâneo, cruzam dois paraísos dos amantes da boa mesa, a Úmbria e a Toscana. Rosa Nepomuceno saboreou sem pressa esse roteiro, com o olhar especialmente atento às plantações que proporcionam um dos ingredientes mais valorizados pela culinária contemporânea. Um fio de azeite (Editoras Casa da Palavra e Senac Rio, 2009) é uma incursão por olivais e velhos moinhos em que as centenárias pedras de granito usadas para macerar as azeitonas são quase objetos de devoção. O leitor visita produtores artesanais, provando os azeites que fazem e conhecendo os porquês dos diferentes aromas e paladares. E outras lições são dadas em passagens por feiras, mercados, trattorias e cozinhas de casas de família. Rosa Nepomuceno, que além de especialista em condimentos é também jornalista, detalha as diferentes classes de azeites e ensina como avaliá-las. O chef Marcelo Scofano completa a obra com receitas de pratos tradicionais da Toscana e Úmbria, todos regiamente regados com os bons azeites regionais.
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[+] Cantos que só eu sei
TAM nas nuvens
01.02.2010TAM nas nuvens
01.02.2010Original do Brás, por Guilherme Studart
“Tenho um dos hobbies mais deliciosos do mundo. A mais de uma década, percorro os bares e botequins do Rio para degustar petiscos. Curto botequins badalados como o Bracarense, do Leblon, mas uma das maiores revelações dos últimos anos para mim é o Original do Brás (Rua Guaporé, 680, 21/3866-1313), quase escondido no bairro de Brás de Pina, na Zona Norte carioca. Já elegi a empada de camarão de lá como a melhor da cidade. Gosto de ir nos sábados à tarde, sem hora para sair. Os donos, o José Carlos e a Zilma, recebem como ninguém, transformando o bar num lugar de onde não dá vontade de ir embora”
O economista carioca Guilherme Studart assina, há cerca de cinco anos, o Guia Rio Botequim. A edição lançada em dezembro passado conta com uma seleção de 200 botequins avaliados com cotações e comentários.
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[+] Um retrato cantado e fiel do Rio
O Estado de S. Paulo
Lucas Nobile
30.01.2010O Estado de S. Paulo
Lucas Nobile
30.01.2010Imagine você que um sujeito tem a ideia de contar a história de uma cidade por meio de letras de músicas e, para isso, decide convocar craques para fazê-lo. Foi o que Marcelo Moutinho fez ao convidar verdadeiros "camisas 10" a escreverem sobre o Rio de Janeiro. Para organizar Canções do Rio - A Cidade em Letra e Música (Ed. Casa da Palavra, 136 págs., R$ 37), o jornalista pediu que João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger lhe enviassem textos inéditos sobre gêneros que cantaram a ex-capital federal.
Confiando que as músicas que há tempos falaram em seus versos sobre o Rio de Janeiro têm o poder de traçar um retrato histórico fiel da cidade, Moutinho sempre demonstrou preocupação de que seu livro transmitisse isso ao leitor de uma forma muito mais leve do que acadêmica. Objetivo integralmente alcançado. Com um time desse de escritores, a leitura flui de nem ver o tempo passar. "Essa é a diferença da ciência, que cabe ao historiador, para a arte, representada pela música. É o mesmo poder da literatura de construir e refletir a imagem de um local. Até o nome Cidade Maravilhosa surgiu de uma música. Os textos de João do Rio e Lima Barreto eram verdadeiras crônicas da cidade. Não é à toa que Noel Rosa e João do Rio serão homenageados neste ano pela Vila Isabel e pelo Império Serrano", diz Moutinho.
Ao longo do ano passado, cada autor cuidou do estilo musical com o qual tem maior envolvimento. Sendo assim, o livro tem sua abertura transformada em um verdadeiro mergulho histórico, encampado pelo conhecimento do jornalista João Máximo sobre os primórdios da música popular no País seguindo até a Era de Ouro. Assim como se faz em todo o livro, o capítulo inicial serve para apresentar verdades históricas e desbancar uma infinidade de mitos. Em seu texto, o jornalista lembra que, antes de ser cantado, o Rio de Janeiro era homenageado por músicas tocadas sem versos. "A maioria não tinha verso, como o choro Na Glória. Com a letra, o retrato da cidade acabou ficando mais objetivo", conta Marcelo Moutinho. João Máximo cita uma infinidade de canções de compositores declaratórias ao Rio, como Noel Rosa que, ao contrário do que se pensa, cantou muito mais a Penha do que a sua Vila Isabel. Também sobram exemplos saborosos de Geraldo Pereira, Moreira da Silva e Herivelto Martins, abusando do cenário da Praça Onze, e Wilson Batista e Benedito Lacerda, entoando a Lapa.
O mesmo voo panorâmico sobre canções que falaram do Rio se dá com outros gêneros e seus respectivos especialistas. Contando com belíssimo trabalho de produção, com fotos históricas e montagens de capas de discos ilustradas com os nomes dos autores como se eles fossem os artistas, Sérgio Cabral analisa as marchinhas cariocas desde os tempos de Chiquinha Gonzaga com sua Ó Abre Alas, do cordão Rosas de Ouro.
Da mesma maneira, o samba é destrinchado pelo compositor e pesquisador Nei Lopes. A bossa nova é interpretada por Ruy Castro, desvendando pela enésima vez mitos acerca do gênero, como a tremenda balela de que ela teria sido criada por jovens no apartamento de Nara Leão. Um texto com tom de ironia, com trechos como: "Talvez por isso as pessoas vivam querendo saber: "Mas afinal, quando começou a bossa nova?" Ninguém pergunta isso sobre o maxixe, o xaxado ou o chachachá. Da bossa nova, no entanto, exige-se o dia e a hora exatos do seu nascimento, com certidão passada em cartório." A canção moderna é estudada por Hugo Sukman, com direito a uma ponte entre os sentidos da palavra "arrastão": da composição antológica de Vinicius de Moraes e Edu Lobo aos saques nas praias. E, por fim, rock, rap e funk ganham texto de Silvio Essinger, com letras de Fausto Fawcett, Marcelo D2 e MV Bill.
"Não há dúvidas de que o Rio foi a cidade mais cantada do País. Fazer um livro deste sobre São Paulo seria tão rico quanto, mas seria diferente", diz Moutinho. -
[+] Música, cerveja gelada e Carnaval: três livros com o melhor do Rio de Janeiro
Portal Uai
Luisa Brasil
28.01.2010Portal Uai
Luisa Brasil
28.01.2010No Carnaval, não há cidade que fique mais em evidência no Brasil - e no mundo - do que o Rio de Janeiro. Não por acaso, a cidade é o palco de três livros lançados recentemente, cada um abordando temas que muito agradam os cariocas: o Carnaval, a música e os botequins.
Em Sambas de enredo - história e arte, lançado neste mês pela editora Civilização Brasileira, os autores Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas destrincham o gênero que começou a se popularizar na década de 30 e se tornou um dos símbolos máximos do carnaval brasileiro por volta da década de 60.Por meio de histórias e curiosidades, Mussa e Simas fazem uma viagem pelo gênero que já prestou homenagens a diversas personalidades brasileiras (entre elas, Santos Dumont foi o mais homenageado até hoje, ressalta Mussa) e às belezas e tradições do país. Infelizmente, após a conclusão da jornada, Mussa não vê um futuro muito otimista para o gênero, que caiu num empobrecimento temático e lírico nas últimas duas décadas:
"O samba de enredo passa uma certa crise que tem a ver com vários fatores. Os enredos têm ficado muito parecidos em função da perda de qualidade. Este sempre foi um gênero épico e ele nao tem tido mais esse cárater, deixando de representar seu assunto fundamental. O desfile de escola de samba sempre foi coisa séria, nao é lugar para a pessoa pular, sacudir, como as letras de samba ficam estimulando hoje. Outro motivo é a perda de importância do samba enredo dentro dos quesitos para julgar a escola campeã", explica Mussa.
O escritor relembra que os temas épicos começaram quando, durante a 2ª Guerra, as escolas de samba eram obrigadas a falar sobre o Brasil. O clima de exaltação permaneceu mesmo com o fim da Guerra, e a partir daí, sambistas correram aos livros didáticos para encontrar fontes de inspiração pra seus sambas.
''Quando a Guerra acabou, as escolas de samba haviam crescido, e como nessa época não existiam os carnavalescos, o pessoal das escolas de samba ia aos livros escolares para buscar os temas, então era Castro Alves, Santos Dumont, Tiradentes. Eram esses vultos da história oficial do Brasil.''
No final da década de 50, surgiram enredos mais emocionais que se relacionavam menos com a história oficial e se aproximavam dos movimentos populares. Temas que exaltavam o negro e o folclore brasileiro, manifestações populares de todo o Berasil ganharam espaço. É a época onde o samba épico atinge seu auge. É a partir da década de 90 que Mussa identifica o esgotamento e o empobrecimento do gênero que desembocaram no cenário pouco animador de hoje em dia:
"Os carnavalescos começaram a a buscar enredos abstratos, sobre microcosmos, energia, sol, mar. Só que isso não está rendendo bons frutos, porque o samba enredo foi estruturado para a temática épica'', afirma Mussa, que faz um apelo por uma mudança na forma como o samba enredo é produzido e julgado hoje em dia, sob risco de o gênero cair em ostracismo.
Em um tom mais animador, outro autor que lança um olhar sobre a música é Marcelo Moutinho, organizador do livro Canções do Rio - a cidade em letra e música, publicado também neste mês pela editora Casa da Palavra. O livro faz um retrospecto de como o Rio de Janeiro foi fonte de inspiração para compositores brasileiros de diferentes gêneros e épocas, do final do século XIX até os dias atuais.
Para montar esse mosaico, Marcelo Moutinho contou com especialistas na área, que escreveram artigos sobre cada gênero. João Máximo escreveu sobre as primeiras manifestações musicais envolvendo o Rio, ainda no fim do século XIX, até a Era de Ouro do Rádio. Sérgio Cabral cuidou das marchinhas, Nei Lopes do Samba, Ruy Castro da Bossa Nova, Hugo Sukman da Canção Moderna e Silvio Essinger do rock, rap e funk. Pelos cinco cinco capítulos, é possível ir além do Rio ''cidade maravilhosa'', eternizado nas marchinhas de Carnaval e do Rio ''garota de Ipanema'' cantado pelos mestres da Bossa Nova e repetido à exaustão até hoje:
''O cronista Marques Rebello tinha uma frase que dizia que o Rio de Janeiro é uma cidade com muitas cidades dentro, porque cada bairro tem uma personalidade muito própria e eu acredito que isso fica muito claro na música'', afirma Marcelo Moutinho.
Foi dentro destes vários ''Rios de Janeiro'' que os compositores brasileiros acharam inspiração para criar um vasto repertório que perpassa diferentes gêneros e olhares.
Mais do que as praias, belas moçoilas e paisagens deslumbrantes, o Rio dos compositores brasileiros é uma cidade permeada por conflitos e paradoxos que unem esses olhares que podem parecer tão distantes. Pois se hoje dizem que o funk é a voz da periferia carioca, o mesmo já poderia se dizer das marchinhas, no início do século XX:
"Na própria marchinha, que é pré-Bossa Nova, você tinha muito essa crônica crítica da cidade. Algumas falando 'de dia falta água, de noite falta luz', mas tratando o problema de forma jocosa. No encontro da MPB com o samba, que acontece no Zicartola, quando Zé Keti se aproxima da Nara, já havia um discurso muito crítico, mas que não era totalmente protagonizado por pessoas advindas dessas regiões mais pobres. Isso acontece com a popularização do funk'', afirma Moutinho.Independentemente do tom de exaltação, sátirico ou de prosa dado pelos compositores, a história do Rio cantado acaba sendo pretexto para o leitor passear pelos principais gêneros musicais popularizados no Brasil contemporâneo.

Rio Botequim 2010
Samba-enredo, Bossa Nova, Marchinhas... para acompanhar uma boa música, nada melhor do que uma boa cerveja, e bem gelada. Para completar a visita ao Rio de Janeiro (e à livraria), recomenda-se ainda o Rio Botequim 2010, guia de bares, botecos e botequins que chega em sua oitava edição como uma boa referência para os amantes da cerveja gelada e da descontração dos botequins cariocas.Este ano, a principal novidade do Guia é que os melhores bares ganharam cotações, medidas de uma a três estrelas. Chegar no topo é difícil. Dos cerca de 200 bares avaliados, somente nove receberam a nota máxima de três estrelas. Apesar de englobar bares de todos os bairros da cidade, os mas bem avaliados se concentram na região Sul da cidade.
Para avaliar cada bar, os critérios usados são a comida, a higiene, a bebida, o atendimento e o ambiente, bem ao estilo do nosso mineiríssimo Comida di Buteco.
Os bares são separados por bairros e classificados em nove categorias: pé-sujo, pé-limpo, tradicional, adega, informal, popular, bar e armazém e mercearia. Apesar de vir em edição bilingue, em português e inglês, o Guia não é indicado somente para turistas.
Serviço
Rio Botequim 2010
Guilherme Studart
Editora Casa da Palavra
R$ 43,00 (preço sugerido)
Sambas de enredo - história e arte
Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas
Editora Civilização Brasileira
Canções do Rio - a cidade em letra e música
Eduardo Moutinho (org.)
Editora Casa da Palavra
R$37,00
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[+] Uma cidade em tensão entre o sonho e o real
O Globo – Segundo Caderno
Leonardo Lichote
27.01.2010O Globo – Segundo Caderno
Leonardo Lichote
27.01.2010“Canções do Rio”reúne ensaios sobre como a musica popular retratou a metrópole, suas ruas e personagens
Do subúrbio de Noel Rosa (“Não há quem tenha/Mais saudades lá da Penha/Do que eu, juro que não”) ao de Marcelo D2 (“Nascido em São Cristóvão, morador de Madureira/Desde pequeno acostumado a subir ladeira”), da beira-mar de Tom Jobim (“Eu, você, nós dois/Sozinhos nesse bar à meia luz/eE uma grande lua sai do mar/Parece que esse bar já vai fechar”) à do Paralamas do Sucesso (“As meninas do Leblon não olham mais pra mim”), do paraíso de Paulo da Portela (“Como é linda nossa Guanabara/Joia rara”) ao purgatório de Fernanda Abreu (“Capital do sangue quente do Brasil/Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”). É essa a cartografia traçada em “Canções do Rio — A cidade em letra e música” (Casa da Palavra), que reúne ensaios sobre os olhares que a musica popular lançou sobre a cidade ao longo do último século. Retratos de uma musa “bonitinha e má”, como definiram Guinga e Nei Lopes em “No fundo do Rio”.
— O que se percebe pelo livro, acompanhando as canções que tratam do Rio, é a permanente tensão entre a cidade idílica e a real — aponta Marcelo Moutinho, organizador de “Canções do Rio”. — É claro que os problemas, a violência, começam a aparecer com mais força nas últimas décadas. Mas desde o início, várias marchinhas e sambas faziam referências, por exemplo, à falta de luz ou às condições miseráveis das favelas.
Moutinho conta que, mais que falar das canções que comentam o Rio como um todo, interessava a ele as que tinham locais da cidade como cenário:
— Marques Rebelo tem uma frase que diz que “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. Cada pedaço seu retrata um pequeno detalhe de sua vida, um personagem. Essa visão colabora muito para o livro.Das marchinhas ao funk, passando pela Bossa Nova
“Canções do Rio” apresenta seis ensaios, com recortes diferentes sobre esse cancioneiro. “Dos primórdios à Era de Ouro — a cabocla de Caxangá sob o luar de Paquetá”, de João Máximo, dá conta das primeiras aparições do Rio nos versos da música popular. Sérgio Cabral, em “As marchinhas — Elas contam tudo”, avalia a produção desse gênero carioquíssimo, nascido, explica ele, no andaraí. Compositor que tira do Rio muito de sua inspiração, Nei Lopes assina o ensaio “O samba — Cidade, quem te fala é um sambista”, no qual usa Freud para falar da relação do samba com a cidade. Em “A bossa nova — Brigas, nunca mais”, Ruy Castro se detém no gênero cujo habitat natural foi o sal, o sol, o sul do Rio. Hugo Sukman, em “A canção moderna — Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, analisa os caminhos e descaminhos da cidade cantada desde “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes até o arrastão — assalto coletivo, símbolo da violência carioca hoje. Por fim, “Rock, rap e funk — E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger fala do Rio retratado nos últimos anos, por vozes da Zona Sul e das periferias.
— É interessante acompanhar essa trajetória da cidade — nota Moutinho. — No texto de João Máximo, sobre os primeiros anos, aparece muito o caráter idílico. Ele ressalta, por exemplo, que muitas das músicas feitas sobre os morros, louvando-os, eram compostas por artistas do asfalto. É a visão ensolarada que prevalece na bossa nova, apesar de artistas como Carlos Lyra, que já tinham um olhar voltado para a igualdade social, mais crítico. Mesmo assim, são olhares quase inocentes, cheio de dicotomias. O ensaio de Hugo Sukman faz essa ponte do idílio para a cidade violenta. O rock da década de 1980 também faz essa mudança da cidade leve, praieira, hedonista, para a da desigualdade social, de “Alagados”, por exemplo. Já o samba, tratado por Nei Lopes, sempre teve essa dualidade, até por ter nascido perseguido. Como o funk, aliás, que retrata uma cidade que não está contemplada nem pelo samba.“Saudades da Guanabara” e “Rio 40 graus” são sínteses
Algumas canções aparecem em mais de um ensaio, recorrentes na reflexão que se faz sobre o Rio cantado — e as mudanças pelas quais ele passou ao longo das décadas. Talvez as duas mais citadas sejam “Saudades da Guanabara” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro) e “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer).
— “Saudades da Guanabara” é saudosa, mas sem deixar de ser esperançosa. E “Rio 40 graus” é a síntese dessas duas faces da cidade, “purgatório da beleza e do caos”. Está aí a força de ambas — acredita Moutinho. — Fausto Fawcett e Aldir Blanc, em suas obras, falam com freqüência dessa cidade que vive em permanente tensão.O caso é que, até a década de 1970, as escolas de samba ainda eram um pouquinho ingênuas; e a alvorada lá no morro ainda era uma beleza. Parodiando o saudoso e querido Carlos Cachaça, eu diria que, no morro, naquela época, ninguém chorava (tanto), não havia (tanta) tristeza, e ninguém sentia (tanto) dissabor. Os motivos, deixemos para os cientistas políticos e sociais. Mas o fato é que o buraco ficou muito mais quente (até por conta do advento do “micro-ondas”); a serrinha ficou mais afiada; e o macaco menos engraçado. E o samba, é claro, fotografou a mudança: “O galo já não canta mais no Cantagalo/A água já não corre mais na Cachoeirinha/Menino não pega mais manga na Mangueira/E agora que cidade grande é a Rocinha!”
Nei Lopes, em “Canções do Rio”Não só o chopinho, mas a batata frita, a praia, a paquera e a descontração do Rio foram reabilitados pelo rock na paisagem da musica popular. Toda uma nova geografia foi incorporada às canções. “Quem sabe eu te encontro/De noite no Baixo?” perguntava o amazonense Vinicius Cantuária, ex-baterista do grupo O Terço, na canção “Lua e Estrela”. Altos e Baixos (em especial o Baixo Leblon, com seus bares, nos quais a história da boemia carioca prosseguiu anos 1980 adentro) não faltaram na poesia do carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, cantor do Barão Vermelho, outra das significativas bandas de rock surgidas na época. “Eu conheci um cara/Num bar do Leblon/Foi se apresentando/Eu sou o Billy Negão/A turma da Baixada/Sabe que eu sou durão”, relatava ele em “Billy Negão”, musica do primeiro disco do Barão.
Silvio Essinger, em “Canções do Rio” -
[+] Um programaço
Coluna Gente Boa - O Globo
Joaquim Ferreira dos Santos
18.01.2010
Coluna Gente Boa - O Globo
Joaquim Ferreira dos Santos
18.01.2010Uma roda de samba na livraria Folha Seca, Na Ouvidor, as 14h do dia de São Sebastião, lança “Canções do Rio”. Marcelo Moutinho, Ruy Castro, João Máximo, Nei Lopes, Hugo Sukman e Silvio Essinger contam a História da música carioca de Chiquinha Gonzaga a Claudinho e Buchecha.
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[+] Uma “Biblioteca” onde os livros são construídos a partir de outros livros
O Globo – Segundo Caderno
Guilherme Freitas
03.12.2009O Globo – Segundo Caderno
Guilherme Freitas
03.12.2009Gonçalo M. Tavares lança duas obras inspiradas em releitura de clássicos
Num daqueles questionários que os jornalistas costumam infligir aos escritores, Gonçalo M. Tavares foi perguntado sobre como organizava sua biblioteca. Incapaz sequer de manter a conta dos volumes que possui, o escritor português se viu obrigado a criar novas fórmulas para descrever seu “método”:
— Além das categorias clássicas como romance e poesia, minha lista tinha “livros empilhados”, “livros no chão”, “torres de livros” — brinca.
Os livros que transbordam das prateleiras da casa e do ateliê de Gonçalo, são uma boa imagem para definir a obra do prolixo escritor, que teve mais de 20 livros publicados desde 2001, entre romances, ensaios, contos, novelas e poesia. Livros construídos a partir de outros livros, como fica claro em “Biblioteca” e “O senhor Breton e a entrevista”, lançados no Brasil simultaneamente pela Casa da Palavra.Breve história da literatura em forma de ficção
Nos textos reunidos em “Biblioteca”, Gonçalo parte dos nomes dos autores clássicos para criar curtos parágrafos que evocam suas obras, nem sempre de formas evidentes. A impressão inicial é a de um “dicionário de escritores” — a obra é dividida em verbetes organizados alfabeticamente (“Anaxímenes de Mileto”, “André Breton”, “Antonin Artaud”) —, mas Gonçalo se apressa em desfazer essa noção. Se há textos claramente inspirados nos escritores (“Uma barata pode ser mais importante que um imperador”, anuncia o verbete de Clarice Lispector), há outros em que essa relação é misteriosa até mesmo para o próprio Gonçalo:
— A ideia em “Biblioteca”, era fazer com que o nome de um autor que eu já havia lido, através do jogo entre memória e esquecimento, provocasse um texto. Como se o nome do autor fosse o catalisador de um texto. Ou como se o nome fosse apenas uma palavra que tem uma definição um bocado estranha — arrisca.
Na “desorganizada” biblioteca de Gonçalo, há espaço para clássicos ocidentais, como Kafka (“Os líquidos não se dobram como se dobra um homem frente ao Estado. Tenho uma lei com alguns metros de espessura, e uma voz média, que interfere no fio elétrico do mundo como o pássaro no fio elétrico da sua zona”), e orientais, como Lao Tsé (“É difícil fazer silêncio falando”). E muitos brasileiros, entre eles Manoel de Barros, Nelson Rodrigues, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.
A estratégia de tomar o nome de um autor como catalisador de um texto também guia “O senhor Breton e a entrevista”, mais um livro da série “O Bairro”, que já teve publicados no Brasil títulos como “O senhor Brecht”, “O senhor Calvino”, “O senhor Walser” e “O senhor Juarroz”, entre outros. O bairro criado por Gonçalo é a vizinhança por onde circulam esses personagens, cujas histórias são um tipo muito particular de ensaio literário, sugere o autor:
— O Bairro começou com o senhor Valéry e foi crescendo. O que senti a partir de certa altura é que ele funciona como uma breve história da literatura em forma de ficção. É uma forma de agradecer o que recebi como leitor.Clarice pode ganhar livro da série “O Bairro”
Inicialmente uma brincadeira despretensiosa, o Bairro transformou-se aos poucos num projeto que o próprio Gonçalo reconhece como interminável. Na contacapa de cada um dos livros da série, pode-se ver um esboço do Bairro, com indicações dos próximos escritores que poderão ganhar livros próprios, como Rimbaud, Virginia Woolf e George Orwell. E ainda há as “pressões diplomáticas” que Gonçalo diz receber de leitores de diversos países para a inclusão deste ou daquele autor local (aos brasileiros, sempre diz ser possível que a senhora Clarice em breve se mude para a vizinhança).
O mais recente habitante do Bairro, inspirado no poeta e agitador surrealista André Breton, é um senhor recluso que se dedica a um tipo muito peculiar de entevista, na qual ele mesmo faz as perguntas e jamais dá respostas. Uma técnica que Gonçalo atribui não só ao escritor francês, mas à literatura em geral:
— Vejo o romance como uma tentativa de investigar uma pergunta, algo que não se compreende. Ele parte de uma pergunta, e no fim temos as fundações que a sustentam. O problema não tem solução, mas o leitor está mais lúcido, entende melhor o problema.
Gonçalo define o Bairro como uma “utopia literária”, onde os autores convivem sem qualquer distinção de nacionalidade, idade ou estilo. A definição lembra uma biblioteca, onde essa utopia se concretiza nas prateleiras habitadas por escritores de todas as épocas e lugares. Para Gonçalo, o Bairro e a biblioteca ilustram a relação entre a literatura e o tempo:
— Gosto de pensar que em minha biblioteca ou em minha mochila podem estar um livro de Sêneca escrito há dois mil anos e outro que saiu há 15 dias. É algo que me agrada muito e que tem a ver com a ideia que faço do que são os livros sérios: aqueles em que o tempo deixa de ser importante.
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[+] Movimento dos bares
O Globo - Coluna Gente Boa
Joaquim Ferreira dos Santos
03.12.2009O Globo - Coluna Gente Boa
Joaquim Ferreira dos Santos
03.12.2009Festa na Lapa lança a nova, e caprichada, edição do guia Rio Botequim
Donos de botequim contabilizavam os prejuízos com a lei antifumo no lançamento do guia Rio Botequim, de Guilherme Studart, editado pela Casa da Palavra, anteontem,no Circo Voador. “Meu movimento caiu 30%”, contava Rosana Santos, do Bar Luiz, que ganhou duas estrelas. “Vou lançar menu degustação, com mini-porções, pra recuperar a clientela”. Ela, que recentemente trocou a bandeira do chope da Brahma pela Sol, quer começar a vender long neck premium
“Os bares estão colocando curral para fumante na calçada para o cliente não usar a desculpa do cigarro para sair sem pagar”, comentava Guilherme Feijó, sócio do Brazooca, citando o Balneário, Lapa, como um dos que adotaram a estratégia. Outro motivo de queixa dos donos de boteco era a proibição das mesas na calçada, problema de nove entre dez deles.
Denise Barbosa de Oliveira, do Sabor da Morena, em Botafogo, teve que fechar o bar durante 25 dias para se adequar às exigências da prefeitura. “Entendo que não pode virar bagunça, mas carioca gosta de sentar na esquina, mesinha na calçada é a cara do Rio”, dizia ela, feliz com a única estrela que levou.
O esquema de dar estrelas aos bares indicados no guia, novidade dessa edição, causou polêmica. O Bip Bip ganhou a sua estrela. “Bar não é só serviço, é a ambiência: purrinha, conversa fora, falar de mulher, de política... Isso o Bip Bip tem de sobra”, elogiava o jornalista Paulo Thiago, fã do tradicional e carioquíssimo bar de Copacabana. Junto com Jaguar e Moacyr Luz, entre outros, Paulo integrou o conselho do guia.
Guilherme Studart listou 195 bares na publicação, sendo que 100 nunca haviam entrado e muitos são de fora da Zona Sul. Esse aspecto do guia, aliás, contava com ferrenhos defensores. “As pessoas acham que o subúrbio não tem bares com condições de atender bem, mas há muitos”, defendia José Carlos Garcia, dono do Original do Brás, em Brás de Pina, que ganhou três estrelas. “O Rio não é só Leblon e Ipanema”, comentava Kadu Tomé, do Bracarense, com três estrelas. “O Muzzarela está no guia e Caxias, antigamente, nem era considerada”.
Outra mudança é no perfil de donos de bar. As irmãs Gabrielle e Izabelle Magalhães, herdeiras do Adonis, em Benfica, são duas louraças de 20 e poucos anos provando que a visão do bigodudo gordo atrás do balcão está cada vez mais distante, embora a tradição continue, já que elas são a terceira geração da família a trabalhar ali. “Esse negocio de que beber chope engorda é papo furado”, dizia, olhando para Gabrielle, o secretario de Turismo Antônio Pedro Figueira de Mello, que representava o prefeito no evento.
A jovem Carine Rezende, do Amendoeira, em Maria da Graça, assumiu o negócio do pai em abril, apos a morte dele. Kadu Tomé, que toca o Braca junto com a mãe, Rosa, dizia que “A alma do bar é quem está atrás do balcão, mas sempre vai ter empresário achando que é um super negócio e que não sabe nem fritar um bolinho.”
Falava-se de compra e venda de bares. O Enchendo Lingüiça, de Fernando Breschnick, que ganhou duas estrelas, vai abrir filial em Brasília. “Dizem que lingüiça e acordo político ninguém deve ver fazendo”, brincava Fernando, “pois eu vou pra terra dos políticos ensinar a fazer lingüiça”.
Paulo Barbosa, do Petit Paulette, também comemorava a expansão de seu bar, que há um mês passou de 18 para 50 lugares. Agora ele prepara novos pratos, como o Angulette, “um angu à baiana, fechado em dois discos de polenta, e empanado com queijo parmes”o".
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[+] Lorde dos botecos
O Globo – Rio Show
Nelson Vasconcelos
06.11.2009O Globo – Rio Show
Nelson Vasconcelos
06.11.2009Expert em pés-sujos, Guilherme Studart, nome por trás do “Rio Botequim”, degusta champanhe, aprecia musica clássica e vai a bons restaurantes
O carioca Guilherme Studart tem coração boêmio e cabeça de economista. A combinação deu certo. Resultou no boêmio mais bem organizado do Rio, para sorte de quem tem o acompanhado por restaurantes, botecos e até mercearias de toda a cidade. Toda Mesmo. Nos últimos cinco anos, esteve em pelo menos 600 casas do tipo. Registrou-as todas em planilhas, com respectivos cardápios, comentários etc. Informação preciosa, mas nada sigilosa. Pelo contrario. No próximo dia 17, ele lança o guia “Rio Botequim”, com nada menos que 200 desses destinos.
Apesar da grandiosidade da obra, seria errado pensar que Guilherme, de 45 anos, vive o dia inteiro encostado em balcões de botecos. Funcionário do BNDES, ele está “emprestado” para a Agencia Nacional do Cinema (Ancine). Não falta trabalho. Falta é tempo livre — que o disciplinado Guilherme, naturalmente, aproveita ao máximo.
Como bom flâner, diz ele que não há nada melhor para a saúde que caminhadas no Aterro do Flamengo ou sessões de pilates. São essenciais para desestressar. E pensar na vida.
Também é de olho no equilíbrio do corpo que Guilherme almoça, com freqüência, em restaurantes de comida macrobiótica — espécie de contraponto incomum entre a turma do copo. Ele não deixa de visitar, por exemplo, o Metamorfose, no Centro.
Outra pedida é o veterano Astrodome, também no Centro.
— Meu preferido lá é um prato indonésio: o nasi goreng, espécie de risoto de camarão com carne de poço e muitos temperos — diz ele, que tampouco abre mão do Azumi (no balcão), do Casual Retrô e da pizzaria Stravaganze.
No quesito culinária, Guilherme conta com uma vantagem sobre a maioria dos mortais: não tem qualquer restrição gastronômica. Come de tudo. Respeita o pastel de jacaré da Pastel Mania, na Ilha, tanto quanto a codorna recheada do chef Claude Troigros. Há alguns anos, no México, fez degustação de insetos, incluindo larvas, grilos e ovas de formigas. E repetiu. É extensa a lista de esquisitices que ele provou e aprovou.
Foi assim, pois, acostumado a exóticos sabores de várias latitudes, que Guilherme resolveu criar caravanas gastronômicas pelo Rio. A primeira foi em maio de 2006. Desde então, foram dez, cada qual com seu tema principal. Os melhores bolinhos de bacalhau da cidade. Ou as melhores codornas. Ou empadas. Ou jilós (!). Sucesso. Já participaram cerca de 200 pessoas — incluindo nomes exigentes da gastronomia, como Troigros e as nossas Luciana Fróes e Deise Novakoski. Só peso pesado.
E vem mais caravana por aí. Os pedidos e as sugestões são variados. Só que, envolvido com o “Rio Botequim”, Guilherme não tem dado conta de tudo. Mas continua inventando roteiros.
Acredite: Guilherme Studart não ganha dinheiro com as caravanas gastronômicas. Divertir-se com a brincadeira já é o bastante. Cobra o que é justo e divide os custos.
E olha que cada caravana dessas dá um trabalho insano. Tem que criar roteiro, convidar a turma, reservar lugares, confirmar, reconfirmar, cronometrar tudo para evitar desconfortos. E nada sai errado, todo mundo adora. No início, ele alugava uma van para viabilizar a festa. Agora tem que alugar um ônibus. Ou dois.
Mas se engana quem pensa que a vida de Guilherme é só chope. Não é. Também tem vinho, espumante, cachaças. Tudo a seu tempo, na dose certa, em boa companhia. Ele é sócio-fundador ou participante de confrarias etílico-gastronômicas. Abre garrafas de champanhe usando um sabre afiado. Talento raro.
Outro talento: Guilherme bebe, mas mantém a linha. Sempre muito atencioso, é um gentleman na linha do seu pai, o saudoso Eduardo, boêmio daqueles de sumir nos dias de carnaval. Saiu daí, pois, o gosto do nosso flâneur pelos bares e pelos blocos de rua. E entra aí o outro componente químico dele: a mãe, Aracéli, é economista e, para o bem de todos, administrava as finanças da casa.
Também está no sangue dele o gosto pela boa cozinha e, por extensão, pelas comidinhas de botequim — seu assunto predileto, inclusive nos almoços com a família. Registre-se: estamos falando de um sujeito família, que não perde aniversário das tias nem o Natal com suas sobrinhas. E não se esquece de levar quitutes e petiscos para sua companheira, Maria Amaral, depois das pesquisas e caravanas.
Guilherme começou a ficar conhecido no circuito carnavalesco do Rio em 2002, quando passou a divulgar, por email, suas planilhas com horários e roteiros dos blocos de rua. Tarefa complicada, mas tirou de letra. Na década de 90, ele foi assessor do Ministério da Fazenda à época da criação do Plano Real. Depois disso, ficou quatro anos em Londres. Estudou muito, rodou pela Europa, virou campeão de pingue-pongue da London Business School e, quando quietou, tornou-se executivo de um grande banco.
— Londres é espetacular. Ela oferece tudo e vai se revelando aos poucos para quem vive lá — lembra Guilherme, que se sentiu em casa naquela cidade irrequieta. Aproveitou o que pode até que resolveu retornar para a casa propriamente dita. Havia muito a fazer por aqui.
Desde que voltou, em 1998, ele vive a cidade. Não perde as temporadas do Municipal ou da Sala Cecília Meireles. Conhece cinema a fundo. Ainda por cima, toca piano clássico e dança tango! De quebra, é um trocadilhista rápido no gatilho, daqueles bem irritantes.
É por essas e outras que não é exagero dizer que Guilherme é um carioca como poucos. À sua maneira, mostra que o Rio não pode teimar em manter-se uma cidade partida. Eis sua grande mensagem.O valor da boemia científica na ascensão dos botecos
Juarez BecozaAntes de mais nada: Guilherme Studart é meu guru. Não o único; talvez o mais importante. A razão, você, caro leitor, viu ou verá nas páginas que seguem. Alem de economista de renome, gastrônomo conceituado, connaisseur experimentado e “carnavólogo” pós-graduado, o homem é um boêmio científico. Um botequeiro cerebral, que usa a disciplina não só para curtir sem excessos sua paixão mas também para compartilhar experiências etílico-gastronômicas. Antes, com os amigos, em suas planilhas de Excel. Agora, com o mundo, nas páginas do “Rio Botequim”. Graças a ele e outros visionários — como o jornalista Paulo Thiago de Mello, primeiro autor do guia — pé-sujo no Rio de Janeiro hoje é coisa séria, muito séria.
É por causa do trabalho de gente como Guilherme Studart que existem colunas como a minha, por exemplo. Ou caravanas botequeiras, invenção mineira que ele ajudou a virar mania no Rio. Isso tudo, junto, contribui para faze a cultura do botequim trilhar o mesmo caminho pelo qual passou o samba: conquistar a classe média e virar negocio lucrativo. As famílias de espanhóis, portugueses, cearenses e paraibanos — principais players desse mercado — que o digam. Principalmente aquelas poucas que, ao crescer e aparecer, souberam respeitar a própria tradição e não transformaram o velho e lindo salão engordurado num banheirão novinho em folha. Nem trocaram o São Jorge na parede por uma TV de LCD.Pé-sujo bilíngüe e sem fronteiras
A peregrinação em busca do bar perfeito pode se um trabalho poderoso — mas é, sobretudo, um trabalho. Exige disciplina e espírito aventureiro. E é assim que Guilherme Studart circula pelo Rio e por outras cidades, sempre atrás de algo comestível (ou bebível) que valha a pena ser conhecido pelos mais acomodados. Haja sola de sapato, haja metrô, trem, táxi. E estômago.
— O segredo é experimentar tudo — diz ele. — Mas vale a pena. Os botequins são o verdadeiro tesouro da cidade, e contam um pouco da sua história.
O resultado de tanto empenho está na oitava edição do guia “Rio Botequim 2010”, que está saindo pela Casa da Palavra. O livro apresenta, ou reapresenta, os melhores bares do Rio & arredores, segundo uma comissão organizada por Guilherme, da qual fizeram parte notórios boêmios como Jaguar e Moacyr Luz, alem da nossa prata da casa: Juarez Becoza e Paulo Thiago de Mello. Coube a eles distribuir duas ou três estrelas para as 50 melhores casas.
Serão 200 endereços. A maioria é de novatos: 140 bares nunca estiveram em qualquer edição anterior do guia — que é publicado desde 1998 e agora sai bilíngüe.
Entre os estreantes temos nomes como Copao de Ouro (2260-8979), em Ramos, famoso por seus pastéis de camarão com catupiry; Cachambeer (2501-8465), no Cachambi, idem por sua costela; Enchendo Lingüiça (2576-5727), no Grajaú, com sua gastronomia alemã de boteco (leia-se joelho de porco e afins); Original do Brás (3866-1313), em Brás de Pina, vencedor da primeira edição do Comida di Buteco, em 2008; ou Aconchego Carioca (2273-1035), na Praça da Bandeira, aquele do bolinho de feijoada.
Também há destinos na Zona Oeste: Nordestino Carioca (3412-3353), em Jacarepaguá, que serve uma codorna de respeito; Bar do Seu Tomé (3283-5657), no Recreio, que oferece bolinho de abóbora com carne-seca. Outra novidade do guia é a seção de arredores, com bares do interior do Estado do Rio.
Para fazer parte do guia, houve uma eleição considerando vários critérios. Se antigamente a primeira preocupação dos guias era julgar a qualidade da bebida, hoje leva-se em conta todo o ambiente do bar — inclusive os banheiros, ponto delicado em estabelecimentos de todo o mundo. O “Rio Botequim” classificou as casa em Pé-Sujo, Pé-Limpo, Tradicional, Adega, Restaurante Informal, Popular, Bar, Armazém e Mercearia.
No fim das contas, o guia tem tudo para se tornar uma referência, assim como nas edições anteriores.Como salvar um domingo chinfrim
Foi num tremendo esforço de reportagem que acompanhei Guilherme Studart numa visita a bares da Ilha do Governador, na tarde de um domingo chocho de outubro. Era a primeira ronda de apuração para o próximo guia de botequins — posto que o de 2010 já está pronto.
Ouvindo no carro o CD do Jota Canalha, fomos a cinco bares, incluindo a Mercearia Nossa Senhora da Ajuda. De olho na Lei Seca, Guilherme Studart não bebeu qualquer chope. Nem era esse seu objetivo, e sim descobrir segredos da chamada baixa gastronomia. Baixa? Que nada. Encontramos boas surpresas.
Mais detalhes? Só no próximo guia. Mas uma coisa é certa: a ronda salvou meu domingo.





