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A primeira vez na TV

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O Estado de S. Paulo
Antonio Gonçalves Filho

 

Virgindade vista por gente experiente
Série de cinco programas, que a GNT começa a exibir hoje, reúne depoimentos de famílias inteiras sobre o assunto

Na Grécia antiga, garotas que perdiamavirgindadeeramvendidas como escravas por arruinar a honra familiar. Na Roma imperial, um pai podia matar a filha e o homem que a seduziu se ela perdesse a virgindade antes do casamento. Até hoje, em alguns países árabes e africanos, mulheres são mutiladas ou apedrejadas por causa de um preconceito que, segundo antropólogos, vem desde a era neolítica, quando os homens começaram a domesticar animais e reprimir suas mulheres. Mas as coisas estão mudando, como mostra a série de cinco documentaries Quando Éramos Virgens, que a GNT/Globosat exibe de hoje a sexta-feira, às 21h30.
Realizada pela cineasta Rosane Svartman (Como Ser Solteiro), 37 anos, virgem até os 18, e pela roteirista e escritora Juliana Lins, 34 anos, virgem até os 16, a série expôs suas idealizadoras a tremendas dificuldades. Uma delas: manter uma garota virgem até a gravação de seu depoimento. Um dia antes do compromisso, ela telefonou para as entrevistadoras e confessou, constrangida, que não poderia mais participar do programa. Não resistiu ao assédio: foi para a cama com o namorado.
A série de cinco programas, com meia hora de duração cada, intercala registros documentais com dramatização e reality show. Homens e mulheres dão seus depoimentos sobre a primeira vez e excertos dessas lembranças são reconstituídos em ficção. Como foram muitos os entrevistados, os cortes na edição dos programas levaram automaticamente à idéia de aproveitar o material num livro, que está sendo lançado com o mesmo título da série, Quando Éramos Virgens (Casa da Palavra, 176 págs., R$ 32,90). O livro apresenta personagens que não estão nos programas. Traz ainda uma entrevista com a historiadora Mary del Priore, que traça um panorama histórico da virgindade no Brasil desde o século 18.
A cineasta Rosane Svartman explica que esse enfoque histórico ficou for a da série televisiva porque a idéia não era criar uma teoria sobre a virgindade, mas saber como foi a primeira relação sexual dos entrevistados, sejam eles membros de uma mesma família, de uma religião ou que assumiram uma diferente orientação sexual. No último caso estão quatro casais do Segundo programa da série, Fora do Armário, homossexuais que tiveram, segundo ela, alguma dificuldade de expor sua vida privada em público.
O programa inaugural, que vai ao ar hoje, Encontro Marcado, reúne três casais que não se viam há anos após o primeiro contato amoroso. É curioso que, depois de 10 ou 20 anos, eles tenham vagas lembranças do que aconteceu e visões diferentes dessa experiência, comenta Rosane. Mais curioso ainda é o encontro familiar do terceiro programa, Gerações, que reúne avós, mães, pais e netos numa conversa franca sobre como perderam ou pretendem perder a virgindade, garantindo boas risadas entre eles.
O mais ousado é o quarto programa, Sexo na Vitrine, que vai atrás de atores de filme pornográficos para descobrir como foi a iniciação sexual desses atletas da cama. As realizadoras acompanharam também os bastidores do primeiro ato sexual público de um casal jovem - ele, que sempre sonhou ser astro pornô, e ela, uma garota conduzida pela curiosidade à indústria pornográfica. Por causa desse episódio, a dupla Rosane e Juliana quase perde a colaboração de uma virgem evangélica que participa do programa final, A Primeira Vez. Daniele, que queria casar virgem, concordou, afinal,quecineastaeroteirista a acompanhassem desde o casamento até sua noite de núpcias.E ainda deu seu depoimento sobre o dia seguinte.
Se a virgindade, para os antigos, era uma virtude e estava associada a Artemis (Diana), deusa da lua e da caça que protegia crianças, hoje, segundo muitos depoimentos, ela incomoda. Muitas mulheres ouvidas na série revelam ter decidido, por conta própria, perder a virgindade com medo da discriminação. É o caso de Fabi, que fez sexo pela primeira vez em 1987 e queria resolver o problema logo para não ser segregada pelas amigas experientes.
O tema virgindade voltou à ordem do dia com a surpreendente caça aos ginecologistas para uma himenoplastia e a publicação do livro Virgin: Un Untouched History, vendido pela editora Bloomsbury como a primeira história da virgindade, dos gregos até nossos dias.
Nele, a historiadora Hanne Blank fala dos diferentes papéis que a virgindade teve na história, desfaz mitos ao mostrar que muitas mulheres nascem sem hímen e aborda temas polêmicos como os comentários dos doutores da igreja sobre o assunto.
A realizadora da série diz que evitou justamente essa abordagem acadêmica para atingir um público amplo. Muitos garotos partem para a primeira experiência sexual sem nenhuma orientação e sem camisinha no bolso, o que explica a profusão de mães solteiras e menores num país como o Brasil. Nossa curiosidade era apenas saber se, ao longo dos anos, essa experiência tem alguma coisa em comum com a de seus antepassados, diz Rosane.

Pensando o sexo
MICHEL FOUCAULT, filósofo (1926-1984): Muitas formas decomportamento foram condenadas no passado. Hoje vivemos numa sociedade de perigos, que divide os homens entre perigosos e vítimas do perigo. A sexualidade corre o risco de se tornar ameaça em todas as relações sociais por força da lei. Corremos o risco de ter no futuro um novo regime de supervisão da sexualidade.
SIMONE DE BEAUVOIR, escritora (1908-1986): A virgem, ora temida, ora desejada pelos homens, parece ser a mais alta representação do mistério feminino. (sobre o mito da virgindade e o paradoxo dessa condição, central na construção da identidade feminina na Europa da Idade Média)
JACQUES DERRIDA, filósofo (1930-2004): O hímem é um exemplo paradigmático de sintoma histérico. Ele tem sonhos de penetração, de um ato que fica entre o amor e o assassinato.
JUDITH BUTLER, filósofa americana, 50 anos: Não há melhor exemplo do corpo ultrapassando a própria fronteira física do que a virgindade, que existe no limite entre o corpo e a cultura. Por definição, virginidade é abstração maior do que a soma das partes do corpo.
GILLES DELEUZE, filósofo francês (1925-1995): A garota certamente não é definida por sua virgindade; ela é definida por uma relação de movimento e descanso, velocidade e lentidão, por uma combinação de átomos, uma emissão de partículas. Ela é uma linha abstrata. Não pertence a grupos, sexos, ordens ou reinos. Estão entre as ordens, sexos e atos. Produzem sexos moleculares.