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Impasse: O Oriente Médio aos olhos de um exilado palestino

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Jornal do Brasil
Marcelo Ambrosio

 

A Ramala dos sonhos e o choque com a realidade da ocupação
Deir Ghassana é um vilarejo perto de Ramala, cidade da Cisjordânia onde fica a sede da Autoridade Palestina, em tese o governo nos territories ocupados. Mourid Barghouti é um poeta que viveu por 30 anos no exílio no Cairo até receber permissão para rever sua terra natal em 1996. Eu vi Ramallah é o relato dessa volta, uma obra não recomendável para portadores de opiniões extramadas.
Hábil na construção de figures simples e objetivas, Barghouti escapa dos chavões. Desenvolve um ambiente interior e particular onde palavras desarmam preconceitos e o leitor é tratado com a deferência de um visitante ilustre, algo típico entre os árabes. As passagens conseguem gerar definições dotadas de tanta carga emocional que se cristalizam como verdades indeléveis. Já li e ouvi muito sobre o conflito no Oriente Médio, mas poucas vezes encontrei tanto significado naquilo que é mais comum como nesse texto de Mourid Barghouti.
Com um belo prefácio escrito especialmente por Edward Said, o livro traz uma apresentação do autor apenas para a edição brasileira, sinal da preocupação com a percepção de seus pontos de vista. Para os intolerantes, um aviso essencial: não há no texto provocações que sustentem críticas desmoralizantes, apenas observações existenciais sobre as quais não se pede aceitação. Elas existem independentemente do que possamos concluir.
Barghouti entremeia sua jornada com devaneios repletos de instabilidade, desesperança, surpresa, inconformismo e resignação, por mais que tais sensações pareçam paradoxais. Graças a ele percebemos a visão palestina do cotidiano, desprovida do debate geopolítico, mas transbordando de emoção humana, da sensação de perda permanente - representada, por exemplo, na imagem ausente do irmão mais velho do poeta, morto sem ter podido realizar o sonho do retorno.
A grande qualidade do texto é a objetividade. E o recurso de definir, sem ser panfletário, o sentido etéreo para nós da ocupação israelense naquilo em que ela mais afeta o cotidiano. Graças a isso se percebe a importância das oliveiras e do azeite na vida das aldeias - e compreendemos por que essas árvores e a milenar cultura a elas associadas são as primeiras vítimas dos colonos radicais e das ações militares. Quando o texto foi escrito, é bom lembrar, ainda não havia sido construído o muro de segurança nos territories: em muitos casos, as oliveiras foram separadas das aldeias a quem alimentavam pela barreira física, rude e fria, espiritual.
Outro exemplo interessante é o estrago do futuro da família pela prisão ou desaparecimento do filho primogênito, o responsável por manter a união da casa. Como define bem Barghouti, política é a família na mesa do café, quem está presente, quem está ausente e porque, quem sente falta de quem quando se distribui o café nas xícaras, se tem o dinheiro para pagar seu desjejum (?) é a presença súbita do que você já esquecera, são as memórias que você teme olhar, mas que olham para você apesar disso. Como em tudo, a definição não nega a existência do outro lado, mas a delimita pelos seus defeitos.
A melhor passagem é triste, mas adequada a uma discussão sobre o futuro no qual os cânones do passado deixam de ter a importância original para gerá-lo. Tudo é diferente porque, como classifica o autor, acabou, a questão está encerrada. A longa ocupação criou gerações israelenses que nasceram em Israel e não conheceram outra patria além dela, ao mesmo tempo em que criou gerações de palestinos fora da Palestina que não sabem da patria nada mais além de notícias e histórias. Doloroso, mas absolutamente pragmático.
Mourid Barghouti não discute culpa ou responsabilidade. Descreve sensações comparativas entre a memória afetiva do passado e a emoção conflituosa de um retorno permitido como privilégio, concessão. Mesmo com indelével tristeza, ainda é capaz de provar que no espaço simbólico de cada um a ocupação só triunfa quando o espírito cede - não é uma questão de fé, mas humanismo. Longe de apontar qualquer solução, funciona como resgate da identidade emocional de um povo habituado ao sofrimento. A simples constatação já é um sopro de civilidade, um lampejo de paz entre rugidos de guerra.