Permissão para viajar
Folha de S. Paulo
Joca Reiners Terron
Cocaína resgata a curiosidade e o interesse de escritores brasileiros, como João Ribeiro e Pagu, por drogas à época consideradas legais
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Assim era anunciada nos primórdios do século 20 a Colecção Ninon de livros picantes, representando vivos quadros de passagens íntimas. Também esse era o tom de escândalo aplicado à viciosa literatura art déco de nossa belle époque tropical, reunida por Beatriz Resende em Cocaína - Literatura e Outros Companheiros de Ilusão. Além da importância do resgate de autores quase sempre esquecidos promovido pela antologia (apesar da popularidade que obtiveram em seu tempo), mais digno ainda de interesse é o objeto da escolha, rara oportunidade de revisão entre nós da importância do uso de drogas na engenharia do imaginário coletivo da sociedade daquele período específico.
Banidos por décadas de editoras comerciais, autores como Benjamin Costallat, João do Rio (de vastíssima e irregular produção, aqui em alguns de seus melhores momentos extraídos de A Alma Encantadora das Ruas), José do Patrocínio Filho, João de Minas e Théo-Filho desfrutaram o auge de seu reconhecimento no instante imediatamente anterior ao modernismo, sendo essa a sua desdita e provável carimbada no passaporte para as mais recônditas prateleiras dos sebos.
A dicção empolada e repleta de francofilias não sobreviveu às colheradas antropofágicas, e o que a moda ditava como supra-sumo da hora (em cópias complacentes do modelão que grassava na Europa) aos poucos se metamorfoseou em velharia. Não à toa a crônica de costumes presente no romance Enervadas, de madame Chrysanthème (pseudônimo da jornalista e feminista Cecília Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos), protótipo das melindrosas eternizadas por J. Carlos, culminou em injusto esquecimento. Não fosse a vívida personificação da personagem promovida pela jovem Pagu (também presente no livro com um fragmento de Parque Industrial, originalmente assinado com o codinome Mara Lobo), e estaríamos desprovidos da memória dessa insinuante figura feminina, precursora de ilibados liberalismos posteriores.
No meu modo de ver, portanto, a não-inclusão de uma carta de Mário de Andrade relatando suas experiências com cocaína no Carnaval de 1923 a Pedro Nava (lamentada por Beatriz Resende no prefácio) apenas fortalece o recorte estético da seleção, atendo-se àquele momento que antecede a repressão à venda em farmácias de substâncias como a cocaína, iniciada em 1921 com a promulgação do decreto-lei 4.294.
Mas, igualmente, se concentrando na ficção preponderante à época, ao mesmo tempo investida na propaganda e na prevenção da descoberta da euforia química por uma geração posteriormente perdida. Não há nenhum texto no livro que contenha a palavra traficante, tipo ainda por ser inventado naqueles tempos boêmios e indolores de outrora.
Voyeurismo
O bairro da cocaína! Botafogo, Copacabana, avenida Atlântica, Santa Teresa, Leblon, também tomam cocaína. Até Madureira já está contaminada... Mas a zona da irradiação do vício, a zona do comércio miserável do terrível tóxico, é a Lapa e a Glória. Entre dez meretrizes, nove são cocainômanas, alardeava Costallat, num estilo sensacionalista de parágrafos tão urgentes como a dependência.
Excetuando-se a crônica Haxixe, de Olavo Bilac -texto inaugural da coletânea e provavelmente também da abordagem brasileira do assunto (é de 1905), em seu tom de fábula moral preventiva a serviço das más experiências advindas do uso do cânhamo-, todos os contos e poemas (há até mesmo uma canção de Sinhô) trazem inicialmente o traço do interesse voyeurístico pelo entorpecimento do outro (como os chineses opiômanos do formidável Visões dÓpio, de João do Rio, e de Os Fumantes da Morte, de Costallat), nem que o outro, no caso, seja uma prostituta, como no misógino e cruel A Tangente, de José do Patrocínio Filho.
Não seria desproposital a comparação de tal histeria novidadeira aos shows de horrores como os de Phineas T. Barnum e seus freaks, e o passo seguinte seria mesmo o de adoção dessa excentricidade proporcionada pelo uso da cocaína e de outras drogas, permitindo assim ao usuário adquirir um certo charme da dor, uma esquisitice frívola e ingênua, típica da ignorância. São célebres os equívocos cometidos por Freud na aplicação terapêutica da cocaína em seu amigo Ernest von Fleischl, e de outra forma não poderia ser: o princípio ativo da cocaína foi isolado por Albert Nieman somente em 1860, e os efeitos colaterais de seu uso freqüente ainda não eram conhecidos então.
Esse aspecto romântico da droga é ironizado com eficácia em O Segredo dos Sanatórios, de Benjamin Costallat, onde um recém-desintoxicado adquire contornos interessantes às moças, valorizando assim seu aspecto doentio. Recuperada e reinventada na obra de Dalton Trevisan e Valêncio Xavier, a origem belle époque da obra desses importantes autores contemporâneos também é entrevista nos contos de Cocaína, e isso não é pouco.
