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Uma sonora gargalhada

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Jornal do Brasil
Álvaro da Costa e Silva

Livro de Paulo Perdigão recupera para novas gerações o programa PRK-30

Meus estimados admiradores, boa noite. A voz que vocês estão tendo o prazer de ouvir neste momento é a voz penicilínica, veludosa e afiambrada do maior espícler da presente atualidade: Otelo Trigueiro. Tanques! Tanques! Tanque iú vira e mexe. São estas as primeiras palavras do programa PRK-30, que foi no dia 19 de outubro de 1944, às 21h, pela rádio Mayrink Veiga.
Nonsense, inocência, imprevisibilidade. Assim se pode definir o estilo do programa, o mais bem-sucedido da era do rádio no Brasil, Tais conceitos, Paulo Perdigão foi buscá-los em depoimentos de Lauro Borges (1901-1967), que escrevia e - ao lado do também cantor Castro Barbosa (1909-1975) - apresentava a atração que permaneceu 20 anos no ar, de 1944 a outro lado da vida.Compreendi que os atos mais sérios, os momentos de maior compenetração, quando encarados pelo avesso, são um manancial inesgotável de humor.
Época houve em que meio Rio acompanhava pelas ondas da Rádio Nacional a graça dos locutores Otelo Trigueiro e Megatério Nababo dAlicerce, ou da fadista Maria Joaquina Dobradiça da Porta Baixa, personagens que ficaram na lembrança dos que viveram os anos 40 e 50 e influenciaram mais de uma geração de comediantes brasileiros. É por isso que alguns costumam dizer que a PRK-30 era o Casseta e Planeta de ontem, quando o certo é dizer o contrário.
O propósito da pesquisa de Perdigão é justamente revelar para as novas gerações a modernidade, a importância e a arte de vanguarda deste que Renato Murce classificou como o melhor programa de humor que o rádio já transmitiu. A segunda edição do livro é a prova que ele alcançou seu objetivo.
Lauro Borges, ou Laurentino Borges Sáens, era o grande nome do programa. Além de fazer diversos personagens - mais de 25 -, escrevia todo o script. Descendente de portugueses, vaidoso, com o bigodinho que era marca indispensável na época, Lauro Borges chegou a ser chamado de o Walt Disney do rádio, num rompante do Jornal das Moças. O rádio tem três funções: ensinar, educar e divertir, ele costumava dizer.
PRK-30:no ar! traz ainda um ensaio de Perdigão sobre o humor no rádio, textos do programa separados por temas, e um apêndice com scripts originais, discografias e filmografias de Lauro Borges e Castro Barbosa. Mas o grande extra da edição são os dois CDs que foram feitos a partir de matrizes de acetato originais preservadas no acervo particular da família de Lauro. Ao todo, são 52 gravações que cobrem o período de fevereiro de 1947 a janeiro de 1959, realizadas ao vivo e em auditórios, com equipamentos da época e seus precários recursos, incluindo reações espontâneas da platéia, como explica o autor. É o tipo de trabalho arqueológico que, se submetido a novas gerações como foi, prova que o humor da PRK-30 não envelheceu. Pelo contrário. São 113 minutos e doze segundos (tempo total dos dois CDs) de uma só e sonora gargalhada.