Linhas de embriaguez
O Globo
Miguel Conde
O Rio da República Velha, que pretendia imitar a Paris moderna em suas virtudes (o disciplinamento do espaço urbano, o alargamento de ruas e avenidas), também reproduzia seus vícios. No início do século XX, os "Paraísos artificiais" de Baudelaire, eram o ponto de partida para as discussões dos letrados sobre os entorpecentes que os cariocas encontravam em fumeries (o ópio), na farmácia (a cocaína) ou em bares (o álcool). O uso do ópio e da cocaína era considerado, assim como o do álcool, imoral, mas não ilegal. Apenas durante a década de 1930 o consumo dessas substâncias seria definitivamente proibido. Já naquela época, surgia o debate entre os que pretendiam criminalizar a questão e os que defendiam uma abordagem médica, de assistência aos dependentes. Nesta discussão, os escritores têm participação importante. O uso de entorpecentes era retratado em contos, poemas, reportagens e romances. Alguns dos textos desse período, em que seriam definidos os fundamentos da política de drogas até hoje vigente no Brasil, foram reunidos pela crítica Beatriz Resende no recém-lançado "Cocaína, literatura e outros companheiros de ilusão" (Casa da Palavra). O volume registra as abordagens que escritores como Benjamin Costallat, Olavo Bilac, Lima Barreto e Manuel Bandeira deram ao tema.
