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Do maxixe ao haxixe

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Carta Capital
Nirlando Beirão

 

Intelectuais, artistas e boêmios tiveram a cocaína como companheira de viagem, em rotina cotidiana ou quase, até que se abateu sobre o branco pó das libações mundanas a pecha de droga interdita. Em 1931, a Liga das Nações, uma ONU avant la lettre, já alertava para o dano da morfina e assemelhados e, usando de prerrogativas policialescas, sugeria seu banimento, que, no Brasil, isso só aconteceu em 1938, por lei de um governo ditatorial

Um livro precioso, organizado pela crítica Beatriz Resende e apresentado pelo sociólogo Luiz Eduardo Soares (Casa da Palavra, 146 págs.), vem mapear o lastro dos ?companheiros de ilusão?, palavras dela, na literatura brasileira ? a cocaína servindo de combustível para páginas empapadas de suor e inspiração de alguns de nossos melhores contistas.

Outras drogas percorrem o arsenal literário, século XIX e início do XX, o haxixe, o ópio e até o lança-perfume (celebrado sem constrangimentos maiores pelo poeta Manoel Bandeira), mas é ?o vício elegante?, nas palavras de Benjamin Costallat (em O Segredo dos Sanatórios), que, pelo bem ou pelo mal, tem a precedência nos textos, reflexo com certeza, avalia Beatriz Resende, do prestígio social que a droga teve na belle époque. Não por acaso, Théo-Filho, em O Perfume de Querubina(de 1924), relaciona o pó que excita à vertigem da modernidade simbolizada pelos novos veículos de muitos cavalos ? o automóvel.

A experiência dos excessos aqui nos trópicos pode parecer malaise de encomenda, cópia chinfrim dos tormentos existenciais dos Rimbauds e Baudelaires. Mas houve quem recusasse os paraísos artificiais independentemente dos maus bofes de uma atuante Liga da Moralidade. Olavo Bilac, por exemplo, fumou haxixe, tragou e não gostou. João do Rio entrou na atmosfera cavernosa de uma fumerie (de ópio), como aquela que Machado de Assis flagrara no Beco dos Ferreiros. Foi acometido de ímpetos assassinos ? ?a imperiosa vontade de apertar todos aqueles pescoços viscosos de cadáver onde o veneno gota a gota dessora?. Felizmente, passou.