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Coletânea guia leitor por um Rio que continua lindo

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O Estado de S. Paulo
Karla Dunder

 

Textos reunidos mostram que há sonhos de verdade na cidade maravilhosa
Como desvendar os mistérios de uma cidade, se não entrar e percorrer todos os seus cantos? Cada meandro? Nada melhor que ser um flaneur, observar atentamente cada esquina, cada boteco com os suas figuras peculiares, personagens e personalidades, as paisagens e até mesmo as feiúras dos becos e das favelas. Com diz Beatriz Resende, "a melhor maneira de conhecermos uma cidade é descobrir a cidade real que existe dentro da cidade imaginária". Nada mais gostoso do que ser guiado pelas ruas do Rio por escritores, cariocas ou não, que oferecem um jeito próprio de mostrar a cidade maravilhosa na coletânea Rio Literário - Um Guia Apaixonado da Cidade do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 176 págs.), organizado por Beatriz Resende.
As fotos que compõem o livro foram feitas por Bruno Veiga com a sua velha e boa Polaroid. As imagens dão um ar poético, fazem um mergulho no tempo sem, entretanto, perder de vista a contemporaneidade.
Além de um guia da cidade, os organizadores optaram por fazer um roteiro literário. Começa com um texto inspirado do poeta Vinicius de Moraes sobre o momento em que o Rio deixou de ser a capital da República. Através de outros autores, o leitor é convidado a acompanhar as mudanças sofridas no espaço urbano, a invasão do asfalto, a ocupação intensa dos morros enfim, a história carioca. São caminhos percorridos entre a Cidade de Deus e a Barra da Tijuca nos artigos escolhidos e reunidos em ordem cronológica. Frases que também registram as mudanças da produção literária de 1960 a 2005. Nessa linha evolutiva, é interessante observar a voz das mulheres, cada vez mais presente na literatura; o gênero policial que ganha força e o impacto da realidade que se faz presente nos textos mais recentes. O livro começa e termina perseguindo a mesma idéia: a busca pelo espírito carioca que seduz leitores de diferentes idades e épocas.
"Um carioca é um carioca. Ele não pode ser nem um pernambucano, nem um mineiro, nem um paulista, nem um baiano, nem um amazonense, nem um gaúcho. Enquanto, inversamente, qualquer uma dessas cidadanias, sem diminuição de capacidade, pode transformar-se também em carioca; pois a verdade é que ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito", descreve Vinicius de Moraes em Estado Guanabara, que abre a coletânea. Esse espírito pode estar escondido em Copacabana, a princesinha do mar. O bairro surge em diferentes momentos no livro. Tanto como um reduto de travestis ou por seu cosmopolitismo. A diversidade de Copa é vista por Sônia Coutinho por intermédio de uma jovem de 28 anos, que veio do interior em busca de liberdade. No enredo, a moça lida com as contradições de viver de maneira solitária em uma metrópole e a tradição de tomar café na Confeitaria Colombo, uma das mais antigas da cidade. Já Luiz Alfredo Garcia-Roza descreve a vida de um morador do bairro atento à arquitetura e às ruas, em um texto envolvente, com um toque policial. Da mesma forma, Silviano Santiago usa o cenário de Copacabana para abordar um relacionamento. Muito mais do que prédios e ruas, todos os autores destacam a relação das pessoas com o espaço.
As mazelas foram registradas com sensibilidade, como no poema Favelário Nacional, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1984. "Quem sou eu para te cantar, favela,/que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta/e a noite inteira de sábado/e nos desconheces, como igualmente não te conhecemos?" Ou a crítica situação de uma adolescente que enfrenta a dor de um aborto clandestino, por Cecilia Giannetti. A vida dos meninos da Cidade de Deus, descrita por Paulo Lins denuncia a violência e o domínio do tráfico na periferia. Em Carioca da Gema, João Antonio arremata: "Carioca, carioca da gema seria aquele que sabe rir de si mesmo. Também por isso, aparenta ser o mais desinibido e alegre dos brasileiros. Que, sabendo rir de si e de um tudo, é homem capaz de se sentar ao meio-fio e chorar diante de uma tragédia."