Passeio por um Rio esmaecido e afetivo
Jornal do Commercio
Daniel Arrais
Rio literário — um guia apaixonado da cidade do Rio de Janeiro traz textos que se propõem a mostrar uma cidade ainda engajada e romântica
Conhecer uma cidade é criar hábitos, fazer os próprios caminhos, perder-se sem rumo. É, antes de mais nada, deixar-se levar pela subjetividade contida em um espaço que não é o seu. Rio literário ? um guia apaixonado da cidade do Rio de Janeiro, lançamento da editora Casa da Palavra, tem, como o próprio nome sugere, a pretensão de fazer com que o leitor construa sua própria visão da cidade carioca a partir de relatos literários de autores consagrados, como Clarice Lispector e Rubem Fonseca, e iniciantes, como Cecília Giannetti e João Paulo Cuenca.
Em vez de um guia tradicional, onde ruas e avenidas são identificadas por mapas cheios de indicações do que se fazer, Rio Literário apresenta 33 textos entre contos, poesias e fragmentos de romances, que constroem uma visão apaixonada da cidade. Vinícius de Moraes, símbolo do Rio, abre a coletânea: "Um carioca é um carioca. Ela não pode ser nem um pernambucano, nem um mineiro, nem um paulista, nem um baiano, nem um amazonense, nem um gaúcho. Enquanto que, inversamente, qualquer uma dessas cidadanias, sem diminuição de capacidade, pode transformar-se também em carioca, pois a verdade é que ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito".
E esse espírito de "ser carioca" dá o tom ao livro de diversas maneiras, seja pelas palavras de autores cariocas (e eles são a maioria: Chico Buarque, Arthur Dapieve, Luiz Alfredo Garcia-Roza, só para citar alguns) ou mesmo paulistas (João Antônio), pernambucanos (Sebastião Uchoa Leite), baianos (Antônio Torres) e mineiros (Silviano Santiago, Carlos Drummond de Andrade). Para eles, ser carioca é morar em São Cristóvão e ter a rotina familiar alterada por ladrões românticos que roubam flores do jardim (como diz Clarice Lispector em Mistérios em São Cristóvão), participar de passeatas contra a ditadura e se surpreender com o engajamento da própria mãe (Tropical sol da liberdade, de Ana Maria Machado), lembrar da infância vivida em Vila Isabel ( Vila Isabel, de Aldir Blanc), fazer uma sociologia das favelas (Favelário nacional, de Carlos Drummond de Andrade) ou ainda caminhar tranqüilamente por Copacabana (Doce e cinzenta Copacabana, de Sônia Coutinho).
A organização do livro é da professora e crítica literária Beatriz Resende (autora de Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos), que se pautou pelo objetivo de entender o que é o espírito carioca e o que faz com que a literatura sobre o Rio siga sempre seduzindo leitores. Para isso, reuniu textos escritos entre 1960 e 2005. No prefácio, ela deixa claro que a seleção não fugiu a um cânone pessoal. "Mesmo com o risco de cometer exclusões desastrosas, não pude evitar que as escolhas recaíssem, dentre aqueles autores que falam do Rio e os espaços por eles representados, nos que mais fortemente interpelam meu próprio imaginário carioca."
Rio Literário conta, ainda, com fotografias de Bruno Veiga, feitas com uma máquina Polaroid SX-70, fabricada em 1979. O tom opaco e as cores turvas dão às imagens, que foram especialmente produzidas para o livro, uma certa nostalgia tão cara ao Rio de Janeiro fincado no imaginário popular. É aquele Rio de antigamente, palco tanto para movimentações políticas e culturais quanto para acontecimentos prosaicos.
O livro cumpre o papel a que se propõe: faz o leitor se apaixonar, à primeira vista (ou novamente), pelo Rio de Janeiro. A leitura é acompanhada pela vontade de percorrer o calçadão preto e branco de Copacabana, tomar uma cerveja em um bar da Avenida Atlântica, comer os tradicionais biscoitos Globo, fazer uma trilha em São Conrado, contemplar o Cristo Redentor no Corcovado, tomar um café no Nova Capela, andar de bondinho em Santa Teresa. Ou seja, mesmo quando é violento ou traidor, o Rio de Janeiro continua sendo uma cidade sedutora e envolvente. E perceber isso através de boa literatura é ainda melhor.
