Geografia literária do Rio
O Globo
Mauro Ventura
2005 foi o ano das antologias. (...). Natural que o ano se encerre com o lançamento de uma nova antologia, "Rio literário — Um guia apaixonado da cidade do Rio de Janeiro" (Casa da Palavra, R$ 52), que reúne 33 textos produzidos por 29 escritores entre 1960 e 2005, entre eles Rubem Fonseca, Ferreira Gullar e Antônio Torres. O livro, que será lançado terça-feira, às 19h30m, no Rio Scenarium, é ilustrado por 71 fotos de Bruno Veiga.
Em se tratando de Rio, o caminho óbvio seria recorrer à crônica, expressão literária mais identificada com a cidade. Mas Beatriz Resende, organizadora do livro, percebeu que o Rio das crônicas já é por demais conhecido. Além disso, é um gênero que identifica e detalha demais os espaços, quando a idéia era traçar não só a geografia física como também a cartografia sentimental e afetiva da cidade.
Beatriz abriu mão dos atalhos literários e reuniu poemas, contos e trechos de romances que, juntos, esboçam uma espécie de ?biografia? do Rio ? uma das muitas possíveis. A única crônica do livro é a que abre a antologia. Num trecho de ?Estado da Guanabara?, Vinicius de Moraes brinca com a fama de bon vivant que acompanha o morador da cidade: ?Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem de seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo.?
Ao mesmo tempo hospitaleira e hostil, tolerante e áspera, envolvente e traidora, graciosa e vulgar, a cidade do Rio, diz Beatriz, ?apresenta-se inevitavelmente como espaço percebido numa relação amorosa?. Nesta espécie de guia de viagem literário, o leitor encontra referências explícitas a bairros e alusões mais sutis à geografia carioca. No primeiro caso, estão, por exemplo, o Largo do Machado e o Catete, que ganham ruas e detalhes em trecho de ?Um crime delicado?, de Sérgio Sant?Anna. Mas há instantes em que se dispensam nomes, como faz Antonio Cicero, que fala do museu e do aeroporto em ?O parque?, numa menção ao MAM, ao Santos Dumont e ao Aterro do Flamengo.
Os 25 anos que separam o primeiro texto ? de Vinicius ? do último ? ?Sexta-feira de cinzas?, de Marcelo Moutinho ? estão visíveis no livro com o desaparecimento do Estado da Guanabara, a transformação da Confeitaria Colombo da Rua Barão de Ipanema em agência do Banco do Brasil, a mudança de Rua Montenegro para Vinicius de Moraes e o fim do Cinema Miramar. Um Rio que também vai se perdendo está em ?Carioca da gema?, de João Antônio, dos anos 70, que traz uma visão hoje idealizada dos morros: ?Gosto de lembrar aos sabidos, perdedores de tempo e que jogam conversa fora, que o lugar mais alegre do Rio é a favela. É onde mais se canta no Rio.?
Beatriz optou também por uma escolha arriscada: incluir na seleção um punhado de autores novos.
? Quis pôr um olhar sobre a cidade que não fosse nostálgico. O livro traz uma fruição inédita, um olhar mais fresco que é difícil de achar em escritores mais consagrados ? explica Beatriz, professora da Uni-Rio, pesquisadora da UFRJ e organizadora do livro ?Cronistas do Rio?. ? E os trechos selecionados fazem com que ?Rio literário? funcione como aperitivo para o leitor conhecer seus autores.
