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Estrelas dos "Anos Dourados"

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Jornal O Tempo
Fabiano Chaves

A família reunida em torno de um aparelho de rádio, diariamente. A cena, comum outrora e impensável nos dias de hoje, remete aos anos 1940 e 50, período em que pais, mães e filhos paravam para ouvir e cantar junto com estrelas do cancioneiro popular brasileiro.

Foi nessa época, intitulada "Era de Ouro" do rádio, que cantoras e cantores emocionaram milhares de ouvintes e eternizaram suas vozes na música brasileira. Para registrar esse momento da cultura musical do Brasil, o escritor alagoano Ronaldo Conde Aguiar acaba de lançar o livro "As Divas do Rádio Nacional" (editora Casa da Palavra, 272 págs., R$ 58).

Doutor em sociologia e professor aposentado, Ronaldo Aguiar, já residindo no Rio de Janeiro, viveu a fase de ouro da Rádio Nacional, da qual era ouvinte assíduo. Com tamanha paixão pelo veículo, o autor tornou-se um profundo pesquisador e conhecedor do tema, o que culminou com o livro "Almanaque da Rádio Nacional", publicado em 2007.

"A nova obra é um complemento do "Almanaque". Mas a principal motivação em criá-la foi de ordem pessoal. A Rádio Nacional teve muita influência na minha formação, e a música teve um papel fundamental", relembra o autor que, quando garoto, protagonizava com sua família a cena prosaica tão comum na primeira metade do século XX.

O livro presta uma espécie de tributo a Dolores Duran, Maysa, Emilinha Borba, Marlene, Zezé Gonzaga, Dalva de Oliveira, Ademilde Fonseca, Elisete Cardoso, Angela Maria, Nora Ney, Linda Batista, Isaurinha Garcia, Dircinha Batista e Inezita barroso. Quatorze divas que se tornaram ícones do rádio e da música brasileira.

"Elas foram extremamente representativas, algumas delas indispensáveis. Poderia ter colocado outras, mas tive limitações, como a falta de informações", explica Aguiar.

No livro, o autor dedica cada capítulo a uma intérprete, à exceção das irmãs Dircinha e Linda Batista, que dividem o mesmo. Histórias de glamour, escândalos, rivalidade, tentativas de suicídio, amores e decadência dão o tom dessas biografias, algumas delas totalmente desconhecidas.

Vale mencionar casos divertidos, como o de um homem que diariamente ia ao Little Club, no Rio de Janeiro, ver e ouvir Dolores Duran cantar e ordenava ao maître da casa: "Manda a negrinha cantar ‘Menino Grande’". Enfurecida com as cenas que observava do homem, mas acatando aos pedidos (o sujeito mencionado consumia muito no local), a cantora comentou o caso com o amigo Billy Blanco, que fez a canção "A Banca do Distinto". Todas as noites, ela olhava para o arrogante cidadão e cantava: "Não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho. Pra que tanta pose, doutor? Pra que esse orgulho?".

A essa se juntam, "outras histórias, muito tristes, como das irmãs Batista". Elas eram ótimas cantoras, ostentavam uma vida de luxo e glamour. Getúlio Vargas declarava publicamente um imenso afeto por elas, que passaram os últimos dias de suas vidas em um manicômio. Morreram completamente na miséria", diz Aguiar.

Segundo ele, nenhuma das cantoras retratadas na obra dominou completamente o período, havendo uma competição permanente, principalmente entre Marlene e Emilinha Borba, rivais históricas. "O que era muito bom para nós, ouvintes e amantes da música".

Coroação de Angela Maria
Em 1954, Angela Maria foi eleita Rainha do Rádio, obtendo o total de 1.464.906 votos. Para se ter ideia do prestígio da cantora, os votos totalizaram quase metade do número obtido por Getúlio Vargas nas eleições de 1950. A consagração veio um ano depois, quando a intérprete pisou no palco do Maracanã. Flamenguista doente, ela foi convidada para entregar as faixas de tricampeões cariocas aos jogadores e foi ovacionada por mais de 100 mil pessoas.

Era do rádio
Obra resgata a memória e as vozes das cantoras

Profundo conhecedor da história do rádio no Brasil e amante das vozes que por ela ecoavam, o autor de "As Divas do Rádio Nacional", Ronaldo Conde Aguiar, explica que a fase áurea do veículo, em relação às cantoras e aos cantores que lotavam o auditório da Rádio Nacional, começa na segunda metade dos anos 1940 e perdura ao longo da década seguinte. "No entanto, nos anos 1960, com as mudanças que ocorriam pelo mundo e a chegada da televisão, a rádio e, consequentemente, seus agentes começam a perder espaço. O tiro de misericórdia foi o golpe de 1964", conta o autor.

Mas para ele, a condição e o status de ídolos que essas mulheres conseguiram jamais vai acabar. "Elas tinham uma empatia muito grande com os fãs. Respondiam as cartas e tratavam o público com muito carinho, coisas que não vemos mais. Até hoje existem fã-clubes que se reúnem para ouvir e conversar sobre essas divas".

Um dos aspectos que incomoda o autor de "As Divas do Rádio Nacional" é a falta de conhecimento dos brasileiros, principalmente os mais jovens, sobre a vida e obra das intérpretes.

"Quando lecionava cultura brasileira, gostava de fazer aulas temáticas sobre determinado artista. Me lembro de fazer uma sobre Ary Barroso e fiquei impressionado pois os alunos não sabiam quem era. Acho que as pessoas não precisam gostar, mas sim conhecer quem foram", diz Aguiar.

Atualmente, apenas quatro das 14 cantoras retratadas na obra estão vivas: Ademilde Fonseca, Marlene, Angela Maria e Inezita Barroso - a única ainda em atividade.

Pérolas. Por se tratar de um livro que fala sobre cantoras, a obra traz um registro importante daqueles tempos de ouro do rádio. Juntamente com o livro, um CD traz 14 composições na voz de cada uma das intérpretes mencionadas.

"Não dava pra fazer esse livro sem colocar alguma coisa que fizesse as pessoas ouvirem sobre o que eu estava escrevendo. E foi um trabalho árduo conseguir as músicas. Levei mais tempo discutindo com sociedades arrecadadoras para obter a permissão do que para escrever o livro. Mas compensou", destaca o escritor.

Faixa a faixa
“A Noite do Meu Bem” (Dolores Duran)
“Ouça” (Maysa)
“Sou Apenas uma Senhora que ainda Canta” (Zezé Gonzaga)
“Pedacinhos do Céu” (Ademilde Fonseca)
“Vida de Bailarina” (Angela Maria)
“Se Queres Saber” (Emilinha Borba)
“Lata d´água” (Marlene)
“Neste Mesmo Lugar” (Dalva de Oliveira)
“Cansei de Ilusões” (Elisete Cardoso)
“Conselho” (Nora Ney)
“Chico Viola” (Linda Batista)
“Conceição” Dircinha Batista
“Mensagem” (Isaurinha Garcia)
“Cuitelinho” (Inezita Barroso)