Baía dos porcos
Veja Rio
Rafael Sento Sé
Um dos cenários mais espetaculares do mundo sofre com o crescente despejo de esgoto e lixo nas suas águas — e os 10 milhões de pessoas que vivem ao seu redor são os maiores responsáveis por essa situação
Os primeiros viajantes europeus no século XVI não economizaram elogios em seus relatos. Todos se encantaram com a combinação de tonalidades cristalinas, praias de areias brancas e montanhas cobertas por matas exuberantes. Para alguns, era uma espécie de materialização da ilha de Utopia, recém-descrita pelo inglês Thomas More no livro de mesmo nome publicado em 1516 — um paraíso perdido onde o homem poderia conviver em comunhão com a natureza. Séculos depois, a Baía de Guanabara continua a encantar visitantes de todo o mundo, mas suas águas e praias, como mostra a foto que ilustra estas páginas, viraram depósitos para todo tipo de detrito. No ano passado, foram retiradas do complexo hidrográfico 3 000 toneladas de resíduos, volume equivalente ao de 1 000 caminhões da Comlurb (e isso em apenas cinco de seus dezoito rios e afluentes). São pedaços de automóveis, sofás, garrafas, liquidificadores, bonecas e outros exemplos nada óbvios de lixo de origem doméstica. Os dejetos foram recolhidos em ecobarreiras, montadas pelo Instituto Estadual do Ambiente em uma tentativa de reduzir o volume da imundície. “É necessária uma ação urgente para reverter essa situação”, diz o engenheiro florestal Axel Grael, que desenvolve um trabalho de conscientização ambiental. A preocupação tem fundamento. De acordo com o projeto olímpico, ali serão disputadas as provas de iatismo. Como faltam cerca de seis anos para a competição, seria oportuno começar um programa de despoluição agora. Afinal, iniciativas de tal magnitude costumam levar alguns anos. “Para que os Jogos não virem motivo de vergonha, temos de limpar essa sujeira logo”, completa Grael, dono de um sobrenome com tradição no esporte.
Nesse caso, o emprego da palavra “temos” não é meramente retórico. Durante muito tempo, as grandes vilãs eram as empresas instaladas no entorno da baía. Com o aprimoramento da legislação e para evitarem o desgaste na imagem associado aos problemas ambientais, a situação mudou. Muitas companhias passaram a adotar procedimentos de tratamento de resíduos industriais, e seu despejo nas águas diminuiu consideravelmente. Hoje, o panorama de total desleixo é fruto de uma combinação nefasta entre inação das autoridades públicas e, principalmente, falta de higiene dos moradores do Grande Rio. Joga-se de tudo ali.
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Diariamente, os 10 milhões de habitantes da região metropolitana produzem cerca de 1,5 milhão de litros de esgoto. Desse total, apenas 25% é tratado. Pelos cálculos da Secretaria Estadual de Ambiente, seria necessário pelo menos 1,2 bilhão de reais para elevar o índice de tratamento a 60% até 2013 — recursos que, por enquanto, não existem. Pesquisa realizada pela ONG Instituto Trata Brasil, divulgada há duas semanas, dá uma dimensão de quanto há para ser feito. Em um ranking que classifica a situação de saneamento básico nas 81 cidades brasileiras com população acima de 300 000 habitantes, foram avaliados nove municípios fluminenses (Nova Iguaçu, São Gonçalo, São João de Meriti, Belford Roxo, Duque de Caxias, Petrópolis, Campos, Rio de Janeiro e Niterói). Entre eles, o último teve a melhor performance. Nos demais, a situação é aterradora, a começar pela própria capital, que ficou apenas na 46ª colocação, dez posições abaixo da registrada no ranking do ano passado. Os quatro representantes da Baixada Fluminense, os primeiros citados acima, estão classificados entre os dez piores do país. “Essa situação é uma vergonha”, diz Raul Pinho, presidente do Instituto Trata Brasil.
A experiência de outros países comprova que despoluir a Baía de Guanabara está longe de ser um desafio intransponível. Há uma década, os australianos mostraram ao mundo como é possível limpar um ambiente degradado em um espaço de tempo relativamente curto. No início dos anos 90, eles lançaram um ambicioso programa de avaliação e monitoramento das praias da Baía de Sydney como forma de prepará-las para a Olimpíada de 2000. Na ocasião, detectaram que a maior fonte de imundície eram as águas pluviais, que carregavam a sujeira das ruas e a levavam para o mar. A partir daí, investiram 1,6 bilhão de dólares em um projeto chamado Government’s Waterways Package, iniciado em 1997, que teve como objetivo recolher toda a chuva e armazená-la em um gigantesco piscinão, o Northside Storage Tunnel. Uma vez estocada, a água era posteriormente tratada antes de ser lançada no complexo hidrográfico. Com isso, o índice de poluição da Praia de North Steyne, que em 1989 tinha uma concentração de 1 887 unidades de coliformes fecais por 100 mililitros, caiu para quatro unidades dez anos depois. Esforços e resultados semelhantes aconteceram em Tóquio e em rios europeus como o Tâmisa, de Londres, e o Sena, de Paris. “Apesar de tudo, a baía tem uma alta capacidade de regeneração”, diz o oceanógrafo José Laílson Brito Júnior, coordenador do laboratório de mamíferos aquáticos da Uerj. “Se os despejos forem reduzidos, a chance de recuperação será bastante razoável”, diz.
Mas a falta de tempo, como mostra o relógio olímpico no início desta reportagem, é um obstáculo concreto. Há efeitos, a exemplo do assoreamento, de difícil reversão. Desde o século XVI, a superfície aquática da baía encolheu 20%, processo que segue em ritmo acelerado. Segundo cálculos do geógrafo Elmo Amador, são perdidos em média 5 centímetros de profundidade por ano. Esse valor é vinte vezes maior do que o registrado no início do século passado. Um passeio pela região entre o norte da Ilha do Governador e Duque de Caxias, perto do lixão de Gramacho, é suficiente para ilustrar o problema. Lá, hoje em dia, podem ser percorridos a pé longos trechos em áreas onde antes havia água. “É a parte mais crítica. Quando a maré está baixa, formam-se verdadeiros lodaçais e a circulação cessa”, diz o engenheiro Victor Coelho, autor do livro Baía de Guanabara — Uma História de Agressão Ambiental. Algumas medidas emergenciais estão sendo tomadas. Entre elas, a dragagem do Canal do Cunha, que separa a Ilha do Fundão do continente, e o Projeto Iguaçu, obra do PAC de drenagem e recuperação das margens de rios que cortam a Baixada Fluminense. Mas de nada adiantarão os investimentos se não houver uma mudança de comportamento da população. “As pessoas precisam se conscientizar. A dragagem custa 300 milhões de reais, mas, se a população continuar sujando, vai ser preciso dragar de novo”, alerta o engenheiro Paulo Canedo, do laboratório de hidrologia da Coppe/UFRJ. Cariocas e fluminenses sonham em aproveitar a Olimpíada para construir uma nova cidade e um estado mais moderno. Entre outros possíveis avanços, a despoluição da Baía de Guanabara seria um ótimo legado.
