Movimento dos bares

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O Globo - Coluna Gente Boa
Joaquim Ferreira dos Santos

Festa na Lapa lança a nova, e caprichada, edição do guia Rio Botequim

Donos de botequim contabilizavam os prejuízos com a lei antifumo no lançamento do guia Rio Botequim, de Guilherme Studart, editado pela Casa da Palavra, anteontem,no Circo Voador. “Meu movimento caiu 30%”, contava Rosana Santos, do Bar Luiz, que ganhou duas estrelas. “Vou lançar menu degustação, com mini-porções, pra recuperar a clientela”. Ela, que recentemente trocou a bandeira do chope da Brahma pela Sol, quer começar a vender long neck premium

“Os bares estão colocando curral para fumante na calçada para o cliente não usar a desculpa do cigarro para sair sem pagar”, comentava Guilherme Feijó, sócio do Brazooca, citando o Balneário, Lapa, como um dos que adotaram a estratégia. Outro motivo de queixa dos donos de boteco era a proibição das mesas na calçada, problema de nove entre dez deles.

Denise Barbosa de Oliveira, do Sabor da Morena, em Botafogo, teve que fechar o bar durante 25 dias para se adequar às exigências da prefeitura. “Entendo que não pode virar bagunça, mas carioca gosta de sentar na esquina, mesinha na calçada é a cara do Rio”, dizia ela, feliz com a única estrela que levou.

O esquema de dar estrelas aos bares indicados no guia, novidade dessa edição, causou polêmica. O Bip Bip ganhou a sua estrela. “Bar não é só serviço, é a ambiência: purrinha, conversa fora, falar de mulher, de política... Isso o Bip Bip tem de sobra”, elogiava o jornalista Paulo Thiago, fã do tradicional e carioquíssimo bar de Copacabana. Junto com Jaguar e Moacyr Luz, entre outros, Paulo integrou o conselho do guia.

Guilherme Studart listou 195 bares na publicação, sendo que 100 nunca haviam entrado e muitos são de fora da Zona Sul. Esse aspecto do guia, aliás, contava com ferrenhos defensores. “As pessoas acham que o subúrbio não tem bares com condições de atender bem, mas há muitos”, defendia José Carlos Garcia, dono do Original do Brás, em Brás de Pina, que ganhou três estrelas. “O Rio não é só Leblon e Ipanema”, comentava Kadu Tomé, do Bracarense, com três estrelas. “O Muzzarela está no guia e Caxias, antigamente, nem era considerada”.

Outra mudança é no perfil de donos de bar. As irmãs Gabrielle e Izabelle Magalhães, herdeiras do Adonis, em Benfica, são duas louraças de 20 e poucos anos provando que a visão do bigodudo gordo atrás do balcão está cada vez mais distante, embora a tradição continue, já que elas são a terceira geração da família a trabalhar ali. “Esse negocio de que beber chope engorda é papo furado”, dizia, olhando para Gabrielle, o secretario de Turismo Antônio Pedro Figueira de Mello, que representava o prefeito no evento.

A jovem Carine Rezende, do Amendoeira, em Maria da Graça, assumiu o negócio do pai em abril, apos a morte dele. Kadu Tomé, que toca o Braca junto com a mãe, Rosa, dizia que “A alma do bar é quem está atrás do balcão, mas sempre vai ter empresário achando que é um super negócio e que não sabe nem fritar um bolinho.”

Falava-se de compra e venda de bares. O Enchendo Lingüiça, de Fernando Breschnick, que ganhou duas estrelas, vai abrir filial em Brasília. “Dizem que lingüiça e acordo político ninguém deve ver fazendo”, brincava Fernando, “pois eu vou pra terra dos políticos ensinar a fazer lingüiça”.

Paulo Barbosa, do Petit Paulette, também comemorava a expansão de seu bar, que há um mês passou de 18 para 50 lugares. Agora ele prepara novos pratos, como o Angulette, “um angu à baiana, fechado em dois discos de polenta, e empanado com queijo parmes”o".