Música, cerveja gelada e Carnaval: três livros com o melhor do Rio de Janeiro
Portal Uai
Luisa Brasil
No Carnaval, não há cidade que fique mais em evidência no Brasil - e no mundo - do que o Rio de Janeiro. Não por acaso, a cidade é o palco de três livros lançados recentemente, cada um abordando temas que muito agradam os cariocas: o Carnaval, a música e os botequins.
Em Sambas de enredo - história e arte, lançado neste mês pela editora Civilização Brasileira, os autores Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas destrincham o gênero que começou a se popularizar na década de 30 e se tornou um dos símbolos máximos do carnaval brasileiro por volta da década de 60.
Por meio de histórias e curiosidades, Mussa e Simas fazem uma viagem pelo gênero que já prestou homenagens a diversas personalidades brasileiras (entre elas, Santos Dumont foi o mais homenageado até hoje, ressalta Mussa) e às belezas e tradições do país. Infelizmente, após a conclusão da jornada, Mussa não vê um futuro muito otimista para o gênero, que caiu num empobrecimento temático e lírico nas últimas duas décadas:
"O samba de enredo passa uma certa crise que tem a ver com vários fatores. Os enredos têm ficado muito parecidos em função da perda de qualidade. Este sempre foi um gênero épico e ele nao tem tido mais esse cárater, deixando de representar seu assunto fundamental. O desfile de escola de samba sempre foi coisa séria, nao é lugar para a pessoa pular, sacudir, como as letras de samba ficam estimulando hoje. Outro motivo é a perda de importância do samba enredo dentro dos quesitos para julgar a escola campeã", explica Mussa. 
O escritor relembra que os temas épicos começaram quando, durante a 2ª Guerra, as escolas de samba eram obrigadas a falar sobre o Brasil. O clima de exaltação permaneceu mesmo com o fim da Guerra, e a partir daí, sambistas correram aos livros didáticos para encontrar fontes de inspiração pra seus sambas.
''Quando a Guerra acabou, as escolas de samba haviam crescido, e como nessa época não existiam os carnavalescos, o pessoal das escolas de samba ia aos livros escolares para buscar os temas, então era Castro Alves, Santos Dumont, Tiradentes. Eram esses vultos da história oficial do Brasil.''
No final da década de 50, surgiram enredos mais emocionais que se relacionavam menos com a história oficial e se aproximavam dos movimentos populares. Temas que exaltavam o negro e o folclore brasileiro, manifestações populares de todo o Berasil ganharam espaço. É a época onde o samba épico atinge seu auge. É a partir da década de 90 que Mussa identifica o esgotamento e o empobrecimento do gênero que desembocaram no cenário pouco animador de hoje em dia:
"Os carnavalescos começaram a a buscar enredos abstratos, sobre microcosmos, energia, sol, mar. Só que isso não está rendendo bons frutos, porque o samba enredo foi estruturado para a temática épica'', afirma Mussa, que faz um apelo por uma mudança na forma como o samba enredo é produzido e julgado hoje em dia, sob risco de o gênero cair em ostracismo.
Em um tom mais animador, outro autor que lança um olhar sobre a música é Marcelo Moutinho, organizador do livro Canções do Rio - a cidade em letra e música, publicado também neste mês pela editora Casa da Palavra. O livro faz um retrospecto de como o Rio de Janeiro foi fonte de inspiração para compositores brasileiros de diferentes gêneros e épocas, do final do século XIX até os dias atuais.
Para montar esse mosaico, Marcelo Moutinho contou com especialistas na área, que escreveram artigos sobre cada gênero. João Máximo escreveu sobre as primeiras manifestações musicais envolvendo o Rio, ainda no fim do século XIX, até a Era de Ouro do Rádio. Sérgio Cabral cuidou das marchinhas, Nei Lopes do Samba, Ruy Castro da Bossa Nova, Hugo Sukman da Canção Moderna e Silvio Essinger do rock, rap e funk. Pelos cinco cinco capítulos, é possível ir além do Rio ''cidade maravilhosa'', eternizado nas marchinhas de Carnaval e do Rio ''garota de Ipanema'' cantado pelos mestres da Bossa Nova e repetido à exaustão até hoje:
''O cronista Marques Rebello tinha uma frase que dizia que o Rio de Janeiro é uma cidade com muitas cidades dentro, porque cada bairro tem uma personalidade muito própria e eu acredito que isso fica muito claro na música'', afirma Marcelo Moutinho.
Foi dentro destes vários ''Rios de Janeiro'' que os compositores brasileiros acharam inspiração para criar um vasto repertório que perpassa diferentes gêneros e olhares.
Mais do que as praias, belas moçoilas e paisagens deslumbrantes, o Rio dos compositores brasileiros é uma cidade permeada por conflitos e paradoxos que unem esses olhares que podem parecer tão distantes. Pois se hoje dizem que o funk é a voz da periferia carioca, o mesmo já poderia se dizer das marchinhas, no início do século XX:
"Na própria marchinha, que é pré-Bossa Nova, você tinha muito essa crônica crítica da cidade. Algumas falando 'de dia falta água, de noite falta luz', mas tratando o problema de forma jocosa. No encontro da MPB com o samba, que acontece no Zicartola, quando Zé Keti se aproxima da Nara, já havia um discurso muito crítico, mas que não era totalmente protagonizado por pessoas advindas dessas regiões mais pobres. Isso acontece com a popularização do funk'', afirma Moutinho.
Independentemente do tom de exaltação, sátirico ou de prosa dado pelos compositores, a história do Rio cantado acaba sendo pretexto para o leitor passear pelos principais gêneros musicais popularizados no Brasil contemporâneo.
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Rio Botequim 2010
Samba-enredo, Bossa Nova, Marchinhas... para acompanhar uma boa música, nada melhor do que uma boa cerveja, e bem gelada. Para completar a visita ao Rio de Janeiro (e à livraria), recomenda-se ainda o Rio Botequim 2010, guia de bares, botecos e botequins que chega em sua oitava edição como uma boa referência para os amantes da cerveja gelada e da descontração dos botequins cariocas.
Este ano, a principal novidade do Guia é que os melhores bares ganharam cotações, medidas de uma a três estrelas. Chegar no topo é difícil. Dos cerca de 200 bares avaliados, somente nove receberam a nota máxima de três estrelas. Apesar de englobar bares de todos os bairros da cidade, os mas bem avaliados se concentram na região Sul da cidade.
Para avaliar cada bar, os critérios usados são a comida, a higiene, a bebida, o atendimento e o ambiente, bem ao estilo do nosso mineiríssimo Comida di Buteco.
Os bares são separados por bairros e classificados em nove categorias: pé-sujo, pé-limpo, tradicional, adega, informal, popular, bar e armazém e mercearia. Apesar de vir em edição bilingue, em português e inglês, o Guia não é indicado somente para turistas.
Serviço
Rio Botequim 2010
Guilherme Studart
Editora Casa da Palavra
R$ 43,00 (preço sugerido)
Sambas de enredo - história e arte
Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas
Editora Civilização Brasileira
Canções do Rio - a cidade em letra e música
Eduardo Moutinho (org.)
Editora Casa da Palavra
R$37,00

