Uma cidade em tensão entre o sonho e o real
O Globo – Segundo Caderno
Leonardo Lichote
“Canções do Rio”reúne ensaios sobre como a musica popular retratou a metrópole, suas ruas e personagens
Do subúrbio de Noel Rosa (“Não há quem tenha/Mais saudades lá da Penha/Do que eu, juro que não”) ao de Marcelo D2 (“Nascido em São Cristóvão, morador de Madureira/Desde pequeno acostumado a subir ladeira”), da beira-mar de Tom Jobim (“Eu, você, nós dois/Sozinhos nesse bar à meia luz/eE uma grande lua sai do mar/Parece que esse bar já vai fechar”) à do Paralamas do Sucesso (“As meninas do Leblon não olham mais pra mim”), do paraíso de Paulo da Portela (“Como é linda nossa Guanabara/Joia rara”) ao purgatório de Fernanda Abreu (“Capital do sangue quente do Brasil/Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”). É essa a cartografia traçada em “Canções do Rio — A cidade em letra e música” (Casa da Palavra), que reúne ensaios sobre os olhares que a musica popular lançou sobre a cidade ao longo do último século. Retratos de uma musa “bonitinha e má”, como definiram Guinga e Nei Lopes em “No fundo do Rio”.
— O que se percebe pelo livro, acompanhando as canções que tratam do Rio, é a permanente tensão entre a cidade idílica e a real — aponta Marcelo Moutinho, organizador de “Canções do Rio”. — É claro que os problemas, a violência, começam a aparecer com mais força nas últimas décadas. Mas desde o início, várias marchinhas e sambas faziam referências, por exemplo, à falta de luz ou às condições miseráveis das favelas.
Moutinho conta que, mais que falar das canções que comentam o Rio como um todo, interessava a ele as que tinham locais da cidade como cenário:
— Marques Rebelo tem uma frase que diz que “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. Cada pedaço seu retrata um pequeno detalhe de sua vida, um personagem. Essa visão colabora muito para o livro.
Das marchinhas ao funk, passando pela Bossa Nova
“Canções do Rio” apresenta seis ensaios, com recortes diferentes sobre esse cancioneiro. “Dos primórdios à Era de Ouro — a cabocla de Caxangá sob o luar de Paquetá”, de João Máximo, dá conta das primeiras aparições do Rio nos versos da música popular. Sérgio Cabral, em “As marchinhas — Elas contam tudo”, avalia a produção desse gênero carioquíssimo, nascido, explica ele, no andaraí. Compositor que tira do Rio muito de sua inspiração, Nei Lopes assina o ensaio “O samba — Cidade, quem te fala é um sambista”, no qual usa Freud para falar da relação do samba com a cidade. Em “A bossa nova — Brigas, nunca mais”, Ruy Castro se detém no gênero cujo habitat natural foi o sal, o sol, o sul do Rio. Hugo Sukman, em “A canção moderna — Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, analisa os caminhos e descaminhos da cidade cantada desde “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes até o arrastão — assalto coletivo, símbolo da violência carioca hoje. Por fim, “Rock, rap e funk — E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger fala do Rio retratado nos últimos anos, por vozes da Zona Sul e das periferias.
— É interessante acompanhar essa trajetória da cidade — nota Moutinho. — No texto de João Máximo, sobre os primeiros anos, aparece muito o caráter idílico. Ele ressalta, por exemplo, que muitas das músicas feitas sobre os morros, louvando-os, eram compostas por artistas do asfalto. É a visão ensolarada que prevalece na bossa nova, apesar de artistas como Carlos Lyra, que já tinham um olhar voltado para a igualdade social, mais crítico. Mesmo assim, são olhares quase inocentes, cheio de dicotomias. O ensaio de Hugo Sukman faz essa ponte do idílio para a cidade violenta. O rock da década de 1980 também faz essa mudança da cidade leve, praieira, hedonista, para a da desigualdade social, de “Alagados”, por exemplo. Já o samba, tratado por Nei Lopes, sempre teve essa dualidade, até por ter nascido perseguido. Como o funk, aliás, que retrata uma cidade que não está contemplada nem pelo samba.
“Saudades da Guanabara” e “Rio 40 graus” são sínteses
Algumas canções aparecem em mais de um ensaio, recorrentes na reflexão que se faz sobre o Rio cantado — e as mudanças pelas quais ele passou ao longo das décadas. Talvez as duas mais citadas sejam “Saudades da Guanabara” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro) e “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer).
— “Saudades da Guanabara” é saudosa, mas sem deixar de ser esperançosa. E “Rio 40 graus” é a síntese dessas duas faces da cidade, “purgatório da beleza e do caos”. Está aí a força de ambas — acredita Moutinho. — Fausto Fawcett e Aldir Blanc, em suas obras, falam com freqüência dessa cidade que vive em permanente tensão.
O caso é que, até a década de 1970, as escolas de samba ainda eram um pouquinho ingênuas; e a alvorada lá no morro ainda era uma beleza. Parodiando o saudoso e querido Carlos Cachaça, eu diria que, no morro, naquela época, ninguém chorava (tanto), não havia (tanta) tristeza, e ninguém sentia (tanto) dissabor. Os motivos, deixemos para os cientistas políticos e sociais. Mas o fato é que o buraco ficou muito mais quente (até por conta do advento do “micro-ondas”); a serrinha ficou mais afiada; e o macaco menos engraçado. E o samba, é claro, fotografou a mudança: “O galo já não canta mais no Cantagalo/A água já não corre mais na Cachoeirinha/Menino não pega mais manga na Mangueira/E agora que cidade grande é a Rocinha!”
Nei Lopes, em “Canções do Rio”
Não só o chopinho, mas a batata frita, a praia, a paquera e a descontração do Rio foram reabilitados pelo rock na paisagem da musica popular. Toda uma nova geografia foi incorporada às canções. “Quem sabe eu te encontro/De noite no Baixo?” perguntava o amazonense Vinicius Cantuária, ex-baterista do grupo O Terço, na canção “Lua e Estrela”. Altos e Baixos (em especial o Baixo Leblon, com seus bares, nos quais a história da boemia carioca prosseguiu anos 1980 adentro) não faltaram na poesia do carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, cantor do Barão Vermelho, outra das significativas bandas de rock surgidas na época. “Eu conheci um cara/Num bar do Leblon/Foi se apresentando/Eu sou o Billy Negão/A turma da Baixada/Sabe que eu sou durão”, relatava ele em “Billy Negão”, musica do primeiro disco do Barão.
Silvio Essinger, em “Canções do Rio”
