Lorde dos botecos
O Globo – Rio Show
Nelson Vasconcelos
Expert em pés-sujos, Guilherme Studart, nome por trás do “Rio Botequim”, degusta champanhe, aprecia musica clássica e vai a bons restaurantes
O carioca Guilherme Studart tem coração boêmio e cabeça de economista. A combinação deu certo. Resultou no boêmio mais bem organizado do Rio, para sorte de quem tem o acompanhado por restaurantes, botecos e até mercearias de toda a cidade. Toda Mesmo. Nos últimos cinco anos, esteve em pelo menos 600 casas do tipo. Registrou-as todas em planilhas, com respectivos cardápios, comentários etc. Informação preciosa, mas nada sigilosa. Pelo contrario. No próximo dia 17, ele lança o guia “Rio Botequim”, com nada menos que 200 desses destinos.
Apesar da grandiosidade da obra, seria errado pensar que Guilherme, de 45 anos, vive o dia inteiro encostado em balcões de botecos. Funcionário do BNDES, ele está “emprestado” para a Agencia Nacional do Cinema (Ancine). Não falta trabalho. Falta é tempo livre — que o disciplinado Guilherme, naturalmente, aproveita ao máximo.
Como bom flâner, diz ele que não há nada melhor para a saúde que caminhadas no Aterro do Flamengo ou sessões de pilates. São essenciais para desestressar. E pensar na vida.
Também é de olho no equilíbrio do corpo que Guilherme almoça, com freqüência, em restaurantes de comida macrobiótica — espécie de contraponto incomum entre a turma do copo. Ele não deixa de visitar, por exemplo, o Metamorfose, no Centro.
Outra pedida é o veterano Astrodome, também no Centro.
— Meu preferido lá é um prato indonésio: o nasi goreng, espécie de risoto de camarão com carne de poço e muitos temperos — diz ele, que tampouco abre mão do Azumi (no balcão), do Casual Retrô e da pizzaria Stravaganze.
No quesito culinária, Guilherme conta com uma vantagem sobre a maioria dos mortais: não tem qualquer restrição gastronômica. Come de tudo. Respeita o pastel de jacaré da Pastel Mania, na Ilha, tanto quanto a codorna recheada do chef Claude Troigros. Há alguns anos, no México, fez degustação de insetos, incluindo larvas, grilos e ovas de formigas. E repetiu. É extensa a lista de esquisitices que ele provou e aprovou.
Foi assim, pois, acostumado a exóticos sabores de várias latitudes, que Guilherme resolveu criar caravanas gastronômicas pelo Rio. A primeira foi em maio de 2006. Desde então, foram dez, cada qual com seu tema principal. Os melhores bolinhos de bacalhau da cidade. Ou as melhores codornas. Ou empadas. Ou jilós (!). Sucesso. Já participaram cerca de 200 pessoas — incluindo nomes exigentes da gastronomia, como Troigros e as nossas Luciana Fróes e Deise Novakoski. Só peso pesado.
E vem mais caravana por aí. Os pedidos e as sugestões são variados. Só que, envolvido com o “Rio Botequim”, Guilherme não tem dado conta de tudo. Mas continua inventando roteiros.
Acredite: Guilherme Studart não ganha dinheiro com as caravanas gastronômicas. Divertir-se com a brincadeira já é o bastante. Cobra o que é justo e divide os custos.
E olha que cada caravana dessas dá um trabalho insano. Tem que criar roteiro, convidar a turma, reservar lugares, confirmar, reconfirmar, cronometrar tudo para evitar desconfortos. E nada sai errado, todo mundo adora. No início, ele alugava uma van para viabilizar a festa. Agora tem que alugar um ônibus. Ou dois.
Mas se engana quem pensa que a vida de Guilherme é só chope. Não é. Também tem vinho, espumante, cachaças. Tudo a seu tempo, na dose certa, em boa companhia. Ele é sócio-fundador ou participante de confrarias etílico-gastronômicas. Abre garrafas de champanhe usando um sabre afiado. Talento raro.
Outro talento: Guilherme bebe, mas mantém a linha. Sempre muito atencioso, é um gentleman na linha do seu pai, o saudoso Eduardo, boêmio daqueles de sumir nos dias de carnaval. Saiu daí, pois, o gosto do nosso flâneur pelos bares e pelos blocos de rua. E entra aí o outro componente químico dele: a mãe, Aracéli, é economista e, para o bem de todos, administrava as finanças da casa.
Também está no sangue dele o gosto pela boa cozinha e, por extensão, pelas comidinhas de botequim — seu assunto predileto, inclusive nos almoços com a família. Registre-se: estamos falando de um sujeito família, que não perde aniversário das tias nem o Natal com suas sobrinhas. E não se esquece de levar quitutes e petiscos para sua companheira, Maria Amaral, depois das pesquisas e caravanas.
Guilherme começou a ficar conhecido no circuito carnavalesco do Rio em 2002, quando passou a divulgar, por email, suas planilhas com horários e roteiros dos blocos de rua. Tarefa complicada, mas tirou de letra. Na década de 90, ele foi assessor do Ministério da Fazenda à época da criação do Plano Real. Depois disso, ficou quatro anos em Londres. Estudou muito, rodou pela Europa, virou campeão de pingue-pongue da London Business School e, quando quietou, tornou-se executivo de um grande banco.
— Londres é espetacular. Ela oferece tudo e vai se revelando aos poucos para quem vive lá — lembra Guilherme, que se sentiu em casa naquela cidade irrequieta. Aproveitou o que pode até que resolveu retornar para a casa propriamente dita. Havia muito a fazer por aqui.
Desde que voltou, em 1998, ele vive a cidade. Não perde as temporadas do Municipal ou da Sala Cecília Meireles. Conhece cinema a fundo. Ainda por cima, toca piano clássico e dança tango! De quebra, é um trocadilhista rápido no gatilho, daqueles bem irritantes.
É por essas e outras que não é exagero dizer que Guilherme é um carioca como poucos. À sua maneira, mostra que o Rio não pode teimar em manter-se uma cidade partida. Eis sua grande mensagem.
O valor da boemia científica na ascensão dos botecos
Juarez Becoza
Antes de mais nada: Guilherme Studart é meu guru. Não o único; talvez o mais importante. A razão, você, caro leitor, viu ou verá nas páginas que seguem. Alem de economista de renome, gastrônomo conceituado, connaisseur experimentado e “carnavólogo” pós-graduado, o homem é um boêmio científico. Um botequeiro cerebral, que usa a disciplina não só para curtir sem excessos sua paixão mas também para compartilhar experiências etílico-gastronômicas. Antes, com os amigos, em suas planilhas de Excel. Agora, com o mundo, nas páginas do “Rio Botequim”. Graças a ele e outros visionários — como o jornalista Paulo Thiago de Mello, primeiro autor do guia — pé-sujo no Rio de Janeiro hoje é coisa séria, muito séria.
É por causa do trabalho de gente como Guilherme Studart que existem colunas como a minha, por exemplo. Ou caravanas botequeiras, invenção mineira que ele ajudou a virar mania no Rio. Isso tudo, junto, contribui para faze a cultura do botequim trilhar o mesmo caminho pelo qual passou o samba: conquistar a classe média e virar negocio lucrativo. As famílias de espanhóis, portugueses, cearenses e paraibanos — principais players desse mercado — que o digam. Principalmente aquelas poucas que, ao crescer e aparecer, souberam respeitar a própria tradição e não transformaram o velho e lindo salão engordurado num banheirão novinho em folha. Nem trocaram o São Jorge na parede por uma TV de LCD.
Pé-sujo bilíngüe e sem fronteiras
A peregrinação em busca do bar perfeito pode se um trabalho poderoso — mas é, sobretudo, um trabalho. Exige disciplina e espírito aventureiro. E é assim que Guilherme Studart circula pelo Rio e por outras cidades, sempre atrás de algo comestível (ou bebível) que valha a pena ser conhecido pelos mais acomodados. Haja sola de sapato, haja metrô, trem, táxi. E estômago.
— O segredo é experimentar tudo — diz ele. — Mas vale a pena. Os botequins são o verdadeiro tesouro da cidade, e contam um pouco da sua história.
O resultado de tanto empenho está na oitava edição do guia “Rio Botequim 2010”, que está saindo pela Casa da Palavra. O livro apresenta, ou reapresenta, os melhores bares do Rio & arredores, segundo uma comissão organizada por Guilherme, da qual fizeram parte notórios boêmios como Jaguar e Moacyr Luz, alem da nossa prata da casa: Juarez Becoza e Paulo Thiago de Mello. Coube a eles distribuir duas ou três estrelas para as 50 melhores casas.
Serão 200 endereços. A maioria é de novatos: 140 bares nunca estiveram em qualquer edição anterior do guia — que é publicado desde 1998 e agora sai bilíngüe.
Entre os estreantes temos nomes como Copao de Ouro (2260-8979), em Ramos, famoso por seus pastéis de camarão com catupiry; Cachambeer (2501-8465), no Cachambi, idem por sua costela; Enchendo Lingüiça (2576-5727), no Grajaú, com sua gastronomia alemã de boteco (leia-se joelho de porco e afins); Original do Brás (3866-1313), em Brás de Pina, vencedor da primeira edição do Comida di Buteco, em 2008; ou Aconchego Carioca (2273-1035), na Praça da Bandeira, aquele do bolinho de feijoada.
Também há destinos na Zona Oeste: Nordestino Carioca (3412-3353), em Jacarepaguá, que serve uma codorna de respeito; Bar do Seu Tomé (3283-5657), no Recreio, que oferece bolinho de abóbora com carne-seca. Outra novidade do guia é a seção de arredores, com bares do interior do Estado do Rio.
Para fazer parte do guia, houve uma eleição considerando vários critérios. Se antigamente a primeira preocupação dos guias era julgar a qualidade da bebida, hoje leva-se em conta todo o ambiente do bar — inclusive os banheiros, ponto delicado em estabelecimentos de todo o mundo. O “Rio Botequim” classificou as casa em Pé-Sujo, Pé-Limpo, Tradicional, Adega, Restaurante Informal, Popular, Bar, Armazém e Mercearia.
No fim das contas, o guia tem tudo para se tornar uma referência, assim como nas edições anteriores.
Como salvar um domingo chinfrim
Foi num tremendo esforço de reportagem que acompanhei Guilherme Studart numa visita a bares da Ilha do Governador, na tarde de um domingo chocho de outubro. Era a primeira ronda de apuração para o próximo guia de botequins — posto que o de 2010 já está pronto.
Ouvindo no carro o CD do Jota Canalha, fomos a cinco bares, incluindo a Mercearia Nossa Senhora da Ajuda. De olho na Lei Seca, Guilherme Studart não bebeu qualquer chope. Nem era esse seu objetivo, e sim descobrir segredos da chamada baixa gastronomia. Baixa? Que nada. Encontramos boas surpresas.
Mais detalhes? Só no próximo guia. Mas uma coisa é certa: a ronda salvou meu domingo.

