O lugar do malandro
O Globo – Prosa & Verso
Leonardo Lichote
Curto, com a rapidez de quem quer acabar logo com a entrevista e voltar ao samba&cerveja&amigos de onde foi arrancado pelo toque do celular naquela tarde de segunda-feira, zeca Pagodinho se define em poucas palavras:
— Não sou malandro, sou otário com sorte.
Depois da pausa de meio segundo, explica sem cravar, mantendo-se na indefinição da zona cinza.
— Otário com sorte é malandro duas vezes.
Malandro modelar, Zeca faz — meio inconsciente, meio consciente de seu papel — mais que uma gaiatice quando solta seu aforismo de botequim. A dubiedade, o ato de traçar fronteiras, faz parte da ética e da estética da malandragem — e, mais que isso, de seu senso de sobrevivência. Na sua fala, Zeca reflete o primeiro samba-resposta de Noel Rosa para Wilson Batista, na famosa polêmica que envolveu os sambistas na década de 1930. Noel propões que “o povo civilizado” não chame o seu antagonista de malandro, e sim, de “rapaz folgado”. Embutido na provocação, ia um conselho para que o colega se livrasse do termo, que atrai a atenção da polícia e engessa o verdadeiro malandro — exatamente a estratégia de Zeca.
“Rapaz folgado”, o samba de Noel, é um dos exemplos que ilumina e é iluminado por “No fio da navalha — malandragem na literatura e no samba” (Casa da Palavra/Faperj), de Giovanna Dealtry, com lançamento segunda-feira, às 19h, na Livraria DaConde (Leblon). Ao propor uma investigação sobre as representações do malandro e, sobretudo, como ele se mantém como “traço distintivo de nossa cultura”, o estudo traz à tona o debate sobre o personagem num momento em que Brasil e rio (berço da malandragem clássica) parecem querer, oficialmente, deixa-lo para trás. Na esfera nacional, o caminho que o Brasil traça rumo ao status de “pais desenvolvido” passa pelos crivos técnicos — sem espaço para a informalidade, terreno do malandro — do Banco Mundial e do Comitê Olímpico Internacional. Na cidade, policia pacificadora na favela e choques de ordem no asfalto procuram tomar o espaço do “jeitinho” nas negociações cotidiana das ruas.
Nesse contexto, como fica no imaginário nacional a figura do malandro? Em que medida ele ainda é um traço desejável de nosso caráter nacional? Temos que nos livrar dele para chegarmos ao futuro anunciado há décadas por Stefan Zweig? Ou, pelo contrário, a malandragem é nossa marca de originalidade, a força que permitirá ao Brasil chegar a novas soluções? Nesta reportagem, conversamos com atores sociais que vão do antropólogo Roberto DaMatta (autor de “Carnavais, malandros e heróis”, estudo fundamental e inaugural do tema) ao secretário municipal de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem (coordenador da política de choques de ordem). O dialogo entre as diferentes perspectivas, mais que cravar certezas, trafega em territórios maleáveis, de limites fluidos — ora ele é vilão, ora é herói, ora ambos. Malandro, enfim, é malandro.
Mito samba entre política e tráfico
Questionada e louvada, malandragem busca se redesenhar frente às questões do século XXI
Não é a primeira vez que é cogitado o fim da malandragem — e, consequentemente, de seu valor como síntese da nação. Chico Buarque já constatara que “aquela tal malandragem já não existe mais”(1977), assim como Hugo Carvana retratara o derradeiro malandro em “Vai trabalhar, vagabundo” (1973). Mais recentemente, o romance “Cidade de Deus” (1997), de Paulo Lins, levado ao cinema por Fernando Meirelles (2002), parece marcar o ponto em que o malandro tem que escolher qual a sua facção — eliminando, assim, o trânsito que o caracteriza.
— A morte de Bené, em “Cidade de Deus” é emblemática — afirma o cientista social Paulo Jorge Ribeiro. — Era ele que dialogava com todos e, fundamentalmente, controlava o ímpeto de Zé Pequeno. Quando se dá sua morte no romance, a lógica da violência explode.
Se o caos da ultraviolência não parece ser o território propício para a malandragem, não menos hostil a ela é o ordenamento estrito desejado pelos choques de ordem. Afinal, o malandro não sobrevive na ausência de leis, , mas também não se cria num espaço onde elas sejam imperativas a ponto de não poderem ser contornadas. É o que o antropólogo Roberto DaMatta explica em “Carnavais, malandros e heróis”, que completa três décadas neste ano:
— Tentei decifrar ali a malandragem como sintoma de uma sociedade fascinada por leis, regras e normas, mas sempre para o “outro” — diz DaMatta. — O malandro é esse sujeito: finge que não sabe a lei e não rompe com ela., ficando por cima ou por baixo das normas.
Ao olhar do poder público que promove os choques de ordem, o papel do malandro é o de fera domesticada — a espontaneidade e o improviso servem para vender a imagem da cidade-sede da Olimpíada de 2016, por exemplo, mas não se admitem “efeitos colaterais”.
— Quem para o carro na calçada, compra CD e DVD pirata e não respeita as leis é um grande mané — diz Rodrigo Bethlen, secretario municipal de Ordem Pública. — Dar propina ao guarda para evitar a multa não é jeitinho, é crime. Parar em cima da calçada não é solução para falta de vagas, pois impede a circulação dos pedestres, principalmente idosos, mães com carrinhos e cadeirantes. Malandro hoje é quem vai à Lapa, para uma noitada e deixa o carro em casa ou volta de carona com amigos que não bebem.
Ordem urbana à parte, conclui-se que o malandro “permitido” no rio do choque de ordem (e no Brasil no qual a cidade se insere) é um tanto anódino. Bethlen apresenta bons números como resultado (aumento em 80% da arrecadação da taxa cobrada de ambulantes e bares que ocupam calçadas com mesas). Para o escritor Alberto Mussa, porém, políticas do tipo tolerância zero estão fadadas ao fracasso por aqui:
— É pela malandragem que conseguimos sobreviver à massacrante ordem pública. Se nosso povo fosse ordeiro já teria desaparecido. Para que certas políticas tenham sucesso, as autoridades é que tem que ser malandras. Deixar, disfarçadamente, pontos de fuga. Se não se consegue dar emprego às pessoas, não se pode reprimir completamente o trabalho ilegal dos ambulantes. Basta reprimir de vez em quando, mansamente.
A “repressão malandra” sugerida por Mussa atravessa nossa história. O caso do sambista João da Bahiana, nas primeiras décadas do século XX, é representativo: após ter o pandeiro apreendido pela polícia, ele ganhou um novo, presenteado pelo amigo (e senador) Pinheiro Machado, que lhe fez uma dedicatória. “Daí para frente, o pandeiro, antes instrumento que denunciava João da Bahiana como músico e, por conseqüência, desordeiro, passa a protegê-lo da mesma perseguição policial”, escreve Giovanna Dealtry.
Já nos anos 1970, no regime militar, a malandragem era vista como força de oposição à ditadura (numa revisão que a esquerda fazia do malandro clássico, como peça de resistência ao Estado Novo). O malandro deixava de ser o indivíduo agindo em causa própria — responsável só por si, figura destacada da massa — para se tornar um representante do povo.
Hoje, cercado — de um lado pela substituição da navalha romântica da velha Lapa pelos fuzis do tráfico, e de outro pelo desejo repressor do Estado que quer ser moderno —, o malandro chega ao século XXI num beco sem saída. Teria a validade do mito, enfim, vencido? Uma resposta surge, recorrendo-se novamente a Chico Buarque, que, em “O malandro”, diz: “O cadáver/Do indigente/é evidente/Que morreu/E no entanto/Ele se move/Como prova/O Galileu”.
O que DaMatta reafirma 30 anos apos “Carnavais...” (“As teses do livro estão mais de pé do que nunca”) e o que Giovanna defende em seu “No fio da navalha” é exatamente a permanência do mito. Modificando-se, como ocorre desde o século XIX, data de seus primeiros registros, em peças de Martins Pena e em obras como “Memórias de um sargento de milícias”.
— A malandragem não é algo passível de ser encerrado. Nossas aspirações e medos têm nela seu lugar de problematização. Mais do que o explicarmos, é o malandro que nos explica — acredita Paulo Jorge Ribeiro. — É um ritual sempre reapresentado. Se o malandro está em crise, não é porque está em extinção, mas sim devido às novas questões que se interpõem a ele.
DaMatta sintetiza:
— Temos mudado, mas permanecido os mesmos. O que muda, muda porque há algo que fica. E vice-versa.
Giovanna segue o raciocínio.
— Sai de cena o personagem do malandro tipificado, o sambista de terno branco, e entra em cena uma malandragem espraiada pela nossa cultura — afirma Giovanna. — Aliás, essa malandragem já está presente em nossa literatura desde o século XIX. É o mesmo espírito que vamos encontrar décadas depois na Lei de Gerson. E que ainda é admirada em muitos setores da sociedade como sinônimo de esperteza, astúcia...
Termos como “esperteza”, “astúcia”, e “Lei de Gerson” quase insinuam a palavra “política”. Para DaMatta, se fizéssemos uma enquete popular, a política seria apontada como o terreno preferencial da malandragem hoje. Fernando Meirelles acredita que as representações do mito seguem essa percepção:
— Vem aí um novo ciclo de filmes retratando os malandros de colarinho branco. Há muitos projetos sobre isso pipocando — nota o cineasta. — O arquétipo perfeito deste tipo de malandro é o Zé Sarney. O próprio senador tem uma frase genial que coroa seu papel de modelo de malandragem: “Em minha defesa tenho a minha biografia”. A frase é um mimo em termos de ambigüidade malandra.
O modelo maior da malandragem na política brasileira é Getúlio Vargas. Charges notabilizavam sua capacidade de se sair bem de situações difíceis, ter o poder da lábia, ficar bem com todos. Sua relação duplaface com os malandros é exemplar: ele mudou o Código Penal para passar a vadiagem de crime para contravenção (um ato ilícito menor), mas, paradoxalmente, aumentou a pena.
O presidente Lula é apontado como herdeiro de Vargas. Giovanna destaca sua capacidade de circular com desenvoltura.
— Lula está sempre com um chapéu ou boné da região ou do grupo pra quem ele está falando — destaca Giovanna.— Ele sai de uma imagem dura, fixa, do operário e torna-se múltiplos.
Do político que “mete a mão na coisa pública” ao que sabe se tornar múltiplo há uma distancia. Ambos estão sob o guarda-chuva da malandragem? Ou seja, há separação possível, hoje, ente malandro e bandido? Ivana Bentes, teórica de cinema, vê no tráfico de Cidade de Deus apenas “malandros-otários”, assim como Mussa, que diz que falta ao traficante “elegância e ironia”. Giovanna, porém, defende que a violência sempre foi intrínseca ao malandro, desde antes de Madame Satã.
— Prepondera na nossa sociedade uma visão romantizada do malandro. Como se, comparado com as facções criminosas de hoje, o malandro dos anos 30 e 40 fosse quase um ingênuo. Mas a violência é indissociável do malandro. Por outro lado, o malandro ostenta o orgulho de conseguir seus ganhos através da lábia. A palavra malandra, sedutora, é um diferencial da figura típica do bandido.
Essa imprecisão, que serve à ideia fluida do que é o malandro, é vista pelo sociólogo Jessé de Souza como indicativa da fragilidade do próprio conceito da malandragem, que, diz, “mais esconde do que esclarece”.
— Mitos nacionais possuem essa realidade: um lado “positivo”, que poduz sentimento de pertencimento, e um lado “negativo”, que esconde contradições —determina Souza. — Essas noções são falsas porque unem coisas muito distintas. A malandragem nas classes altas não tem nada a ver com a malandragem de quem não tem acesso aos recursos escassos na sociedade. Nosso debate intelectual é pobre e conservador e glamouriza, precisamente com motes como “malandragem”, uma realidade perversa.
As representações do malandro, porém, incorporam por vezes a realidade da miséria. O romance “Desabrigo”, de Antônio Fraga, é destacado por Giovanna como o melhor exemplo disso. Mas a imagem que temos quase sempre é a do terno branco ou a do Macunaíma sedutor. E é ela que Ivana recorre para pensar o malandro hoje:
— Mais do que nunca o sivirismo, a informalidade são a base da economia e da criação. O malandro, entendido como essa inteligência, popular brasileira, extraordinária, desconcertante, vital, é a base da cultura, o verdadeiro pré-sal do país.
Zeca também mostra acreditar no lugar do malandro hoje, ao falar da “maior malandragem de sua vida”:
— A gente agora, aqui no bar. Só amigo falando de samba, ouvindo Zeca e tomando uma cerveja. É aqui, agora.
