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O QUE ME INTERESSA É O POLÍTICO NO LITERÁRIO

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O GLOBO - Prosa & Verso
Miguel Conde

Crítica lança livro sobre a atual ficção brasileira e aponta o trágico como marca da produção contemporânea

A professora da Unirio Beatriz Resende tem se dedicado nos últimos anos a pesquisar e refletir sobre a literatura brasileira contemporânea. O que distingue sua atuação da de outros críticos é o caráter público e imediato desse trabalho, que não se desenrola apenas na academia, mas também em revistas e jornais. Ela acaba de lançar “Contemporâneos” (Casa da Palavra), um balanço do próprio trabalho e da atual ficção brasileira.

Miguel Conde

Esse livro apresenta textos novos, mas é também o registro de um percurso crítico. Queria saber como teve início esse engajamento público com a literatura do seu tempo, o que a motivou?

BEATRIZ RESENDE: Esse percurso começa nos anos 1990, quando fui chamada a opinar sobre a literatura daquela época, e tive impressão que nessa leitura todo um instrumental teórico tradicional se revelava impotente. Senti uma certa angústia e fascinação, e tive impressão de que para dar conta do que estava acontecendo, a gente tinha que se voltar a autores diferentes, textos diferentes, posições diferentes.

Em que isso mudou sua atividade de crítica?

BEATRIZ: Talvez o que tenha me modificado mais foi olhar a literatura de maneira imediata. Pegar o autor que acabou de ser publicado e escrever sobre ele, ter que formar opinião, buscar um novo instrumental crítico. Essa simultaneidade mudou muito meu olho crítico. A colaboração com jornal, revista, site, me mostrou o que havia de confortável no olhar acadêmico. Foi mesmo uma virada.

De que forma?

BEATRIZ: A gente é sempre olhado como o espaço da segurança, do saber, e de repente você percebe que isso é uma questão. No final dos anos 1990, comecei a assumir o risco até do erro, se fosse o caso, para buscar na própria literatura novos conceitos de compreensão do que estava sendo feito.

Que coisas novas você identificou na época?

BEATRIZ: Um livro que mexeu muito comigo, me desassossegou muito, foi a antologia do Nelson de Oliveira, “Geração 90: manuscritos de computador” (Boitempo). Havia naquele momento o que parecia uma nova forma de produção, que trazia mais velocidade, e logo ficou evidente que não era só uma nova forma de produção, mas que a gente caminhava para novos suportes. Isso está ligado a um renascimento da vida literária brasileira no final dos 1990 e início dos 2000. É um momento em que começa a se dar uma troca como há muito não acontecia entre autores nacionais. E uma vida literária supõe a presença de críticos.

Você se interessou pela intervenção nesse momento?

BEATRIZ: Sim, mas não no papel do crítico que pontifica, o detentor do saber. Hoje quem assume essa posição em pouco tempo fica tolo. Mas me fascinou muito a idéia de participar dessa vida literária, o que para alguém que dá aula, faz pesquisa, é um risco. Você escreve sobre um livro recém-publicado e no dia seguinte convive de alguma maneira com o autor. Tudo isso é muito tributário da internet, dos blogs. Não sou só eu que participo disso, mas vários outros críticos e escritores. Um exemplo que sempre dou é o do Sergio Sant’Anna, um autor que podia falar de um ponto de vista da consagração, mas em vez disso freqüentemente quer participar dessa nova vida literária. Mas claro que a gente não é o coleguinha, há uma diferença. Um caminho de interlocução passou pela discussão sobre o urbano, um tema que pesquisei a vida inteira, e que é central para a literatura hoje. Isso foi um facilitador desse convívio, da internet aos debates e mesas-redondas. Eles é que foram muito generosos comigo, porque freqüentemente me procuravam.

Ainda existe nesses novos autores um interesse pelo discurso crítico?

BEATRIZ: Há um interesse, mas na maioria dos casos ele ainda é de busca por legitimação. Todo mundo quer ser comentado, quer uma resenha para ter legitimação. E nem sempre é o que acontece.

Qual a importância do julgamento para sua crítica?

BEATRIZ: Procuro não exercer puramente uma crítica de gosto e de valor. Ainda que possa dizer o que me interessa ou não, tento que isso não seja feito com uma referência canônica e sobretudo que não seja excludente. Claro que há sempre um olhar que é mais peculiar, mais próprio. O meu é o político. O que me interessa, o que me fascina é o que pode haver de político num sentido bem amplo numa produção literária, e que muitas vezes passa por uma produção pessoal.

Você se interessa pela busca de traços comuns?

BEATRIZ: Quando você olha uma obra ou autor, não olha apenas no sentido absolutamente individual. Tenho que respeitar aquela peculiaridade, mas me interessa olhar dentro de um quadro de outras produções que é difícil juntar, com propostas e suportes diferentes. Mas esse é sempre o papel do intelectual, ter lido aquele autor e mais outros e mais outros, o autor da periferia ou o darling do momento. Você constata um retorno do trágico na literatura atual.

Poderia falar sobre isso?

BEATRIZ: Esse novo trágico que tento observar não é algo apenas da cultura brasileira. Assim como o século XX foi dramático, este surge trágico. No drama há sempre uma idéia de conflito que será resolvido. O conflito caminha para uma resolução, dentro ou fora da obra, como no caso de Brecht. Nesse trágico contemporâneo, há uma desesperança de resolução do conflito. O que pode resultar numa imobilidade, mas também, citando Giorgio Agamben, num desejo profanador. Acho que a literatura tem que incomodar. Ou então, não tem mais sentido.