Italiano põe centro histórico do Rio na berlinda
O Globo
Paula Autran
O centro histórico do Rio, que tanto orgulha os cariocas, não é lá essas coisas. Pelo menos na opinião do urbanista italiano Giorgio Piccinato, coorganizador do “Atlas dos centros históricos do Brasil” (Casa da Palavra) e um dos maiores especialistas em preservação de patrimônio histórico do mundo. Em visita à cidade para um seminário no Instituto Italiano de Cultura, na semana passada ,Piccinato acompanhou repórteres do GLOBO por trechos de dois dos três roteiros de visita recomendados no capítulo sobre o Rio do livro (do Castelo ao São Bento e da Cinelândia à Lapa). Mas vê mais pontos negativos do que positivos nos trajetos. Para o italiano, os principais problemas da região são a falta de moradores e o distanciamento do mar.
— Não há pessoas vivendo aqui, o que não faz do lugar agradável. A arquitetura não é suficiente para fazer de um centro histórico um lugar interessante.
É preciso haver gente.
Como está acontecendo na região da Lapa — diz Piccinato, que também gostou da área do Morro da Conceição, mais habitada. — Claro que às vezes há o problema social. Alguns centros históricos são pobres, tem gente dormindo nas ruas. Não é atrativo turisticamente? Só que essas pessoas vivem lá, têm uma relação com o lugar.
Fã de Le Corbusier, Piccinato aprova o MEC Os elogios do italiano não vão muito além da Lapa e do Morro da Conceição: — O Centro do Rio não é tão bonito quanto deveria porque perdeu a comunicação com o mar. Ficou muito isolado da Baía de Guanabara, que é um lugar lindo em si mesmo. Tem palácios, tem ópera (o Teatro Municipal), mas onde está o mar? O aterro é um trabalho fantástico de engenharia, mas hoje o espírito do tempo mudou.
O que se procura fazer é recuperar o mar e o sentimento de estar perto do mar. Outras cidades portuárias do mundo trabalham justamente para reconectar-se ao oceano, como Barcelona.
As críticas também atingem a arquitetura local e a falta de um traçado menos confuso.
— Há prédios importantes, mas alguns são muito feios — diz ele, sem querer citar exemplos, mas apontando pelo menos um monstrengo da cidade.
— A Praça Quinze tem aquele viaduto que é terrível! O plano (de ocupação) também não é muito claro.
Piccinato só livra a cara do Teatro Municipal, das igrejas antigas e do prédio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), onde fez questão de ser fotografado.
Quando você olha para ele (o prédio), no que pensa? Eu penso em Braque, Picasso... É uma coisa muito emocional. Não sei se tem algum outro lugar do Rio tão cheio de histórias.
Mas não é esta visão que se tem do Centro carioca ao ler o Atlas. Até porque assinam o texto do Rio dois brasileiros: o arquiteto José Pessôa, doutor em planejamento urbano pelo Instituto Universitário de Veneza, e a historiadora Maria Fernanda Bicalho.
A idéia do livro nasceu quando Pessôa, que ajudou a organizá-lo, esteve na Itália para fazer seu doutorado, orientado por Piccinato.
— Eu gosto (do centro histórico do Rio). Aqui você tem muitas cidades numa só. Não é homogêneo — diz Pessôa, citando exemplos da arquitetura colonial à moderna, passando por trechos em que ficam evidentes a reforma de Pereira Passos e o Plano Agache.
— São culturas distintas.
Se houvesse gente morando aqui, seria o ideal.
O italiano conhece o Centro do Rio desde meados da década de 80, quando esteve aqui numa conferência. O fato de a região, a exemplo de outros centros históricos latino-americanos, ter sido um espaço privilegiado para o desenvolvimento nos séculos 19 e 20, quando na Europa já não havia mais como se construir muita coisa, o atraiu.
— Aqui (na América) tudo era possível — observa ele, acrescentando que, no caso do Rio, a beleza natural teve e tem seus prós e contras. — A beleza do Rio ajuda muito.
Mas a natureza exuberante pode ser um problema. Neste sentido, a feiúra ajuda muito outros centros históricos.
Sobre as derrubadas do Morro do Castelo, um dos berços da cidade, e do Palácio Monroe, o urbanista procura não fazer julgamentos. Mas não crê que tenham sido bons negócios: — A América tem uma história de violência. Não posso julgar essas derrubadas, mas nunca as teria feito. Você tem que ter orgulho do seu passado.
Ainda assim, Piccinato tem uma visão crítica também a respeito das políticas de conservação do patrimônio. Sejam elas aqui ou lá fora.
— Por que queremos conservar alguns prédios? Porque achamos que são bons. Mas conservar antigas construções só para turistas é outro problema — avalia ele. — A conservação é uma iniciativa que tem que vir da sociedade. As leis não podem regular sozinhas.
Claro que se tem que pensar em turismo, mas há muitas iniciativas que podem ser tomadas sem que se prejudique o morador.
