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A vocação musical de uma cidade

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O Globo/Prosa & Verso
Luiz Paulo Horta

Vasco Mariz recupera a arte e os personagens Suzana Velasco do Rio do século XIX

Luiz Paulo Horta

 Em livro extremamente sedutor, o musicólogo Vasco Mariz conta a história do Rio de Janeiro musical no tempo de D. João VI. Quando a corte aqui chegou, o Rio já tinha densidade musical para produzir um gênio: o padre José Maurício. Mas D. João era um verdadeiro amante de música; e, com ele, a Capela Real assumiu dimensões inéditas. Na catedral da rua 1º de Março, José Maurício, nomeado mestre de capela, apresentou uma grande obra depois da outra. A música sacra que ele compunha traz a marca do classicismo vienense de Haydn e Mozart, apimentado com uns ares de modinha e sofrendo, mais tarde, a influência do gosto da época pelo virtuosismo vocal. Até que, em 1810, chega da Europa Marcos Portugal, o maior compositor português do seu tempo. Talvez se tenha exagerado um pouco a rivalidade entre Portugal e o nosso padre-mestre. Eles viviam em níveis diferentes: o compositor ilustre, chegado da Europa, não precisava fazer muita força para ocupar o centro do cenário, mais ainda sendo José Maurício um mulato, filho de escrava.

Mas as coisas só pioraram mesmo, para o padre, quando o “velho rei” foi embora: o Brasil de D. Pedro I não tinha tempo nem dinheiro para sofisticações musicais, e José Maurício mergulhou na obscuridade

A vida brilhante do Real Teatro de São João 

Outra vertente dessa música de corte é a música profana. Insatisfeito com as instalações musicais do Rio de Janeiro, D. João manda construir o Real Teatro de São João, no lugar do atual João Caetano (Praça Tiradentes). E não só o teatro era belo, como havia de tudo para que ele funcionasse bem — inclusive os castrati, trazidos da Europa. Inaugurado em 1813, o teatro teve vida brilhante, como atestam visitantes de passagem pela corte. Ali se levaram as óperas de Rossini — “La Cenerentola”, “L’Italiana in Algeria”. Ali se fez o “Don Giovanni” de Mozart. Mas, em 1824, houve um incêndio que só deixou de pé as paredes.

De acordo com os novos tempos, resolveu-se fazer um teatro menor e menos luxuoso. Desde a partida de D. João, os melhores artistas já se haviam transferido para Buenos Aires. D. Pedro I cortou até o modesto auxílio financeiro que D. João dava ao padre José Maurício — que morreu em 1830, muito pobre, ouvindo na imaginação a grande música dos tempos do “velho rei”.