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Gravuras da História

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O Globo/Prosa & Verso
Suzana Velasco

Suzana Velasco

Falar em gravura, hoje, implica uma quase imediata associação a obras de arte. Mas desde que sua produção foi instituída no Brasil, com a vinda da corte portuguesa, em 1808, ela foi um importante meio de difusão de informação, propaganda política e crítica: do Período Joanino ao Imperial. Esse percurso da gravura e sua função social — condicionada pelos avanços técnicos e pelas intensas mudanças históricas que se sucederam a partir da chegada de D. João — são analisados pela pesquisadora Renata Santos em “A imagem gravada” (Casa da Palavra, 144 páginas, R$ 62). — A gravura começou relacionada à imprensa. Mas ela tem uma possibilidade que vai além do texto, e ganhou autonomia, atingindo um público maior. E era muito barata, podia custar 80 réis, menos que um almoço — diz Renata, doutoranda em História Social na UFRJ. A criação da Imprensa Régia e do Arquivo Militar permitiu a produção de plantas, atlas, mapas, baralhos e ilustrações para livros científicos, através do buril (gravura em metal) e da xilografia (em madeira).

Ao mesmo tempo, a corte joanina já percebia o potencial da técnica como elemento de política de Estado, e divulgava a si mesma através de impressões como as de Charles Simon Pradier, gravador da Missão Artística Francesa, de 1816, que muito produziu a partir de desenhos de Jean-Baptiste Debret.

Da propaganda política às charges e sátiras 

Mas, como analisa Renata, esse potencial só foi mais bem explorado após a Independência, quando se tornou necessário manter o controle do poder. Em 1825, D. Pedro I comprou uma prensa e aqui instalou a primeira oficina de litografia, que permitiu a propaganda do Império em larga escala. Isso porque a técnica de gravação em pedra é de execução mais fácil, permitindo agilidade na produção. Ateliês litográficos particulares se espalharam pela cidade, incluindo o do suíço Johan Steinmann, gravador do Império.

Além das impressões oficiais, Steinmann retratou curiosos tipos sociais — como o militar Buonaparte, de uma infantaria só de negros — e, para a autora, foi o “precursor das gravuras de reportagem”. — Com seu olhar de estrangeiro, Steinmann consegue dar forma à diversidade social que vê aqui, um pouco como o Debret fez em seus desenhos. Essa produção é de um momento de transformação, ainda não está muito claro quem a consumia ou a quem se destinava.

O livro investiga ainda como, após a volta de D. Pedro I a Portugal, a função social da gravura se modifica. “Sai a propaganda e entra a crítica ao Estado”, em sátiras da conturbação política que marcou o período regencial. Nesse contexto, Renata destaca as charges políticas de Frederico Guilherme Briggs, gravadas a partir de desenhos de Araújo Porto Alegre, em 1840. Foi o mesmo ano da chegada ao país do daguerreótipo, o precursor da fotografia, que acabaria por deixar a gravura em segundo plano. — O processo utilizado na propaganda vai se transformando com a fotografia, que passou a ser usada pelo Estado para divulgar sua imagem — afirma Renata, que começou sua pesquisa pelo trabalho do suíço Georges Leuzinger, editor, fotógrafo e criador da maior empresa de impressão e litografia no país, no século XIX. — O trabalho de Leuzinger é muito representativo das transformações técnicas, de litografia, daguerreótipo e fotografia.

Todo o livro é ilustrado por gravuras, das mais simples às mais rebuscadas, de toda a primeira metade do século XIX. Renata, que pesquisou a maior parte das imagens na Biblioteca Nacional, quer mostrar como a comunicação visual, que ancora a sociedade de hoje, já existia séculos antes: — Na nossa concepção de progresso, o presente é mais evoluído que o passado. Mas, apesar das outras técnicas, já havia a idéia da reportagem, da propaganda política, da união de imagem e texto.