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Um símbolo com passado e futuro

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O Globo, Prosa & Verso
André Luis Mansur

Obra lembra as histórias e a importância do Jardim Botânico desde sua criação

Símbolo dos mais marcantes da presença do príncipe regente D. João no Rio de Janeiro, há 200 anos, o Jardim Botânico permanece como uma das maiores atrações turísticas da cidade. E Rosa Nepomuceno, autora de “O jardim de D. João”, que freqüenta o lugar desde a infância, conta essa história dando ênfase aos cientistas que passaram por lá e fizeram do espaço no coração da Zona Sul carioca um dos mais queridos da cidade. D. João, uma espécie de “Nabucodonosor dos trópicos”, mandou adquirirem o terreno onde ficava o engenho de Rodrigo de Freitas — às margens pantanosas e infestadas de mosquitos da lagoa que mais tarde levaria o nome do antigo dono da fazenda — em decreto do dia 13 de junho de 1808. Ali seriam instalados o Real Horto e a Real Fábrica de Pólvora. Sem estradas ou trilhas decentes, aquela região era completamente inóspita para os cariocas, que se concentravam na área central da cidade. Para mostrar como o Real Horto se desenvolveu, Rosa utiliza um termo que não existia na época: a biopirataria. Afinal, o roubo de mudas e sementes era mais do que comum e o horto foi criado por razões puramente econômicas, pois D. João, influenciado pelo ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares, queria criar um jardim de aclimatação para as especiarias, tão preciosas na Europa e que eram buscadas na distante Índia. As especiarias, como o cravo, pimenta e a canela, eram fundamentais para a conservação dos alimentos numa época sem geladeiras ou isopores.

Nas grandes navegações, elas eram fundamentais para que a carne, já de qualidade duvidosa, não estragasse de vez. Das primeiras plantas, chegadas em 1809 contrabandeadas pelo oficial Luís de Abreu e Paiva, até os dias atuais, quando o Jardim Botânico, ocupando área bem inferior à original e sofrendo a ação contínua dos “gafanhotos” (visitantes que insistem em degradar o local), Rosa cita diretores importantes como Frei Leandro do Sacramento, Barbosa Rodrigues, Pacheco Leão. Cita também botânicos que se aventuraram pelo Brasil e no exterior em busca de mudas e sementes que enriqueceriam o arboreto do jardim, como Freire Allemão, Carl von Martius, Johann von Spix e Auguste Saint-Hilaire. Todos fundamentais para que o jardim se desenvolvesse de forma harmônica e seguindo preceitos científicos e não apenas econômicos.

Histórias como a do cultivo do chá, feito por 300 chineses que não revelavam sua técnica a ninguém, e que depois seria transferido para a Fazenda de Santa Cruz; a visita de Albert Einstein em 1926, quando, segundo dizem, ele teria abraçado e beijado um pé de jequitibá-rosa, dão uma leveza ao texto e o equilibram com as informações mais técnicas, indispensáveis a um estudo deste porte. Ao mesmo tempo em que conta a história do jardim, a autora o insere na evolução urbana da cidade, que em meados do século XIX começa a se acelerar, principalmente após a chegada dos bondes e diligências, que levou mais gente e, com isso, mais problemas, àquela região ainda meio selvagem. O mais importante neste livro, que conta com uma descrição detalhada das principais árvores, é valorizar não apenas o aspecto estético e a importância turística do Jardim Botânico, mas principalmente o seu caráter de espaço de estudos científicos, reunindo profissionais do mais alto nível e contando, graças também ao forte apoio de empresas particulares, com equipamentos de última geração. Este trabalho invisível aos visitantes é que talvez dê ao antigo “jardim das especiarias” de D. João o suporte necessário para que ele passe dos 200 anos cada vez mais rejuvenescido.