O que se esconde no íntimo
Diário Catarinense
Dorva Rezende
Coletânea de contos Freud e O Estranho foi organizada por Braulio Tavares
Um dos principais escritores e críticos de ficção científica e poesia do Brasil, Braulio Tavares vem organizando, nos últimos anos, para a editora carioca Casa da Palavra, a coleção Contos Fantásticos, com narrativas que se tornaram célebres (ou mesmo relatos pouco conhecidos, mas importantíssimos) por transitar pela fronteira entre o real e o imaginário.
O primeiro volume foi Páginas de Sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), uma seleção de incríveis histórias de autores nacionais que contemplam o absurdo, a fantasia, o horror, o irreal, impressões de mundos estranhos, ilógicos, que tentam descobrir um país com narrativas que não necessariamente precisam se ater ao nosso tão presente e constante realismo. E o time de autores fantásticos selecionados por Braulio Tavares não era nada desprezível: Machado de Assis, Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Carlos Drummond de Andrade, Humberto de Campos, Lygia Fagundes Telles, Murilo Rubião, Orígenes Lessa, Berilo Neves e André Carneiro, o decano da ficção científica brasileira, entre outros.
A segunda coletânea organizada para a Casa da Palavra, publicada em 2005, trouxe os autores que influenciaram, de alguma maneira, a obra do mais famoso escritor argentino. Contos Fantásticos no Labirinto de Borges reuniu histórias de escritores que ou estavam presentes na estupenda Antología de la literatura fantástica, que Jorge Luis Borges organizou para a Editorial Sudamericana, na metade da década de 1960, junto com os amigos Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, ou faziam parte de suas leituras habituais. Textos que auxiliaram Borges a criar os seus labirintos literários, os seus jardins dos caminhos que se bifurcam, o seus alephs que continham todo um universo feito de imagens e memórias. Peças de autores como Ambrose Bierce, Leon Bloy, Nelson Bond, Marcel Schwob. H.G. Wells (um dos preferidos do argentino), G.K. Chesterton, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, May Sinclair, Ellery Queen, Ray Bradbury, Arthur Machen, Lord Dunsany, Don Juan Manuel.
Narrativas que provocam desconforto no leitor
O projeto do terceiro volume da coleção foi ainda mais ambicioso. Freud e O Estranho: Contos fantásticos do inconsciente tem como ponto de partida o texto O Estranho (Das Unheimlich), de 1919, uma análise feita por Sigmund Freud do conto O homem de areia, do escritor, músico e crítico alemão E.T.A. Hoffmann (1776-1822), que, como não poderia deixar de ser, foi incluído na coletânea.
Heimlich, em alemão, significa doméstico, familiar, confortável, aconchegante. Exacerbando o sentido da palavra, heimlich também pode ser algo secreto, oculto, escondido dentro da casa, longe do conhecimento de alguém. Unheimlich seria, portanto, o não-familiar, algo que exprime, nas palavras do pai da psicanálise, "tudo aquilo que faz alguém se sentir pouco à vontade no mundo de nossa experiência normal, aquilo que não merece confiança, que é misterioso, esquisito, desconfortavelmente estranho".
A seleção de contos que provocam este desconforto, despertam o que está inconsciente, feita por Braulio Tavares, inicia com o relato O papel de parede amarelo, da norte-americana Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), uma das primeiras feministas, que se suicidou ao fim da luta contra um câncer. Conto de terror de inspiração gótica, narra a história da desagregação mental de uma mulher que se instala numa mansão vitoriana e começa a enxergar padrões difusos e fantasmagóricos no papel de parede da casa.
A casa assombrada também aparece no conto A aranha, do alemão Hans Heinz Ewers (1871-1943), numa variante do tema, o da casa fatídica, na qual ninguém pode permanecer sem que algo terrível lhe aconteça (um argumento muito utilizado nos filmes de terror atuais). Imigrante irlandês que lutou e morreu na Guerra da Secessão, Fitz-James OBrien (1828-1862) escreveu alguns dos primeiros contos de ficção científica e, no mais famoso deles, A lente de diamante, ele descreve o cinema pelo menos 50 anos antes de sua invenção. Em O quarto perdido, um desregrado boêmio (algo de autobiográfico está presente no conto) vê transfigurarem-se os objetos que estão à sua volta, o espaço íntimo se altera, abrindo-se brechas na parede que permitem o acesso a um espaço transdimensional. No conto de OBrien, a casa (o quarto) é a mente que segue por estranhos labirintos regidos por leis próprias e desconhecidas.
Em A máscara de prata, do britânico Hugh Walpole (1884-1941), a casa de uma mulher solitária é invadida e tomada pela família e pelos rudes amigos de um jovem pintor, e ela acaba prisioneira em seu próprio lar. Autor de O Golem (romance que inspirou um poema de Borges), sobre a lenda judaica do homem-escravo feito de barro, o vienense Gustav Meyrink (1868-1932) comparece com o fantástico conto O mestre, que condensa em sua estrutura quatro tipos de material narrativo - saga familiar, terror gótico, revelação mística e romance picaresco - , e no qual o autor-narrador adota o presente narrativo para reproduzir o estado mental do protagonista, um jovem nobre que resolve fugir da opressão da mansão familiar, para quem o fluxo do tempo se detém.
O homem de areia, de Hoffmann, em que o personagem de uma inocente história infantil adquire outras (e estranhas) personalidades, tem uma estrutura fragmentada, moderna, com pequenas histórias que se sucedem e que são características da fase mais moderna do Romantismo alemão, uma propensão ao fantástico, à metalinguagem e a relação com a tecnologia, tendências literárias que seriam muito exploradas desde então. Os demais contos do livro também abordam temas que nos levam para além da lógica cotidiana. Entre os mais famosos, estão A pele vermelha, de Bram Stocker (autor de Drácula), e Uma aparição, de Guy de Maupassant. Segundo Braulio Tavares, o fantástico e o inconsciente são vasos comunicantes, uma vez que a psicanálise e a literatura compartilham um mesmo solo comum, a linguagem.
