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Os Pichicegos

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Entrelinhas, TV Cultura
Joca Reiners Terron

Em 1982, há 25 anos atrás portanto, ocorreu a Guerra das Malvinas, tentativa frustrada por parte do governo militar argentino do General Leopoldo Gualtieri de recuperar terras ocupadas à força pelo Reino Unido em 1883 e de ganhar alguma sobrevida para o regime militar então enfraquecido.
A derrota terminou colaborando para a restauração da democracia como forma de governo, mas também deixou marcas na já bastante trágica alma de nossos vizinhos. Não custa também lembrar que em 1983 a vitória britânica reelegeu a conservadora Margaret Thatcher ao Parlamento inglês.
Existe, porém, quem nunca tenha caído no teatro farsesco montado pelos militares liderados por Galtieri. Em “Os pichicegos”, escrito em 1982 e publicado somente anos depois, Rodolfo Fogwill constrói uma demolidora história de ceticismo em relação aos sentimentos patrióticos de ocasião que conduziram a Argentina à guerra.
Os estranhos animais do título, os “pichicegos”, são parentes do tatu, aquele bicho de carapaça que vive enfiado em buracos dentro da terra. E é assim que também vivem os “pichis”, um grupo de desertores do exército argentino: debaixo da terra coberta pela neve que cai abundantemente naquelas regiões austrais.
Sem nenhum apelo aos sentimentos típicos despertados pelas guerras, tais como honra e lealdade, os “pichis” só pensam numa única coisa: em sobreviver. Para isto apelam a todos os expedientes, desde se livrarem de companheiros doentes até negociarem “num mercado quase inverossímil em que se trocam ações de espionagem ou intervenções bélicas por pilhas para lanternas, cigarros e rações.”
É o que afirma Beatriz Sarlo no prefácio ao livro, texto crítico publicado 12 anos após a primeira edição e que resgatou a obra de Fogwill diante da opinião pública de seu país:
“Os pichis são uma colônia de sobreviventes dos quais se ausentaram todos os valores, exceto aqueles que podem se traduzir em ações que permitam conservar a vida. Se o nó da guerra é liquidar o inimigo, o nó da colônia pichi é evitar, a qualquer preço, que isso aconteça com os membros da colônia.”
É certo que em “Os pichicegos” nem mesmo as traições são levadas a sério pelos desertores. Como não reconhecem entre si nenhum traço de nacionalidade que os una — há até mesmo um uruguaio entre eles, recrutado por equívoco —, eles também não carregam o peso de nenhuma culpa.
É tal o desespero em “Os pichicegos” que até mesmo a eterna rivalidade com o Brasil é desprezada. Numa passagem do livro, os soldados conversam sobre o que mais gostariam de fazer. Os anseios são parecidos: sexo, rever os parentes e churrascos. Até que um deles se sai com o seguinte:
“— Ser brasileiro.
— O quê: negro?” — outro diz.
— Qualquer coisa. Mas brasileiro!”
Assim como a guerra e a boa literatura, “Os pichicegos” não é um romance feito de bons sentimentos.